O novo Ashram minimalista

domingo, 30 de maio de 2010

Momento Panteísta no Ashram II



The clearest way into the Universe is through a forest wilderness.
John Muir
 

Six degrees of Maurice Schumann



Era eu um rapazinho estudioso quando um dia o Proviseur do Lycée Français me convocou, e a mais dois ou três dos meilleurs élèves, para cumprimentarmos Maurice Schumann, na altura de passagem por Lisboa como Ministre des Affaires Étrangères no Governo Chaban-Delmas.
O briefing foi emocionante – sendo um dos heróis da France Libre, íamos cumprimentar uma daquelas figuras que andava na mitologia francesa de então (talvez mais intensamente do que nunca, dadas as recentes humilhações indochinesa e argelina). O momento foi breve, não sei se houve fotografias, mas recordo-me de uma figurinha insignificante e amável. Ponho-me agora a pensar que, com aquele aperto de mão, entrei involuntariamente no universo histórico daqueles que o cumprimentaram, entre eles, imagino, a fina-flor de vivos e mortos da Résistance. Quantos? Era engraçado ver a lista, se houvesse uma.

Momento Panteísta no Ashram I



The gross heathenism of civilization has generally destroyed nature, and poetry, and all that is spiritual.
John Muir

Ainda há saudosistas



Nas repúblicas dos cafres, é tão fundo e amplo o abismo entre os sobas e o pé-rapado que a política é a glorificação máxima, é o bilhete de lotaria premiado.
Acho por isso deprimente que por cá se dê tanta importância à política e aos políticos, um sinal inequívoco de cafrealização.

O Poster


sábado, 29 de maio de 2010

Dennis Hopper



Na minha adolescência tive, anos seguidos, um poster do Easy Rider no meu quarto, e sucedeu ficar longamente, enquanto adormecia, a meditar nos ícones distantes da liberdade "hippie" que eram, para mim, Peter Fonda e Dennis Hopper. Confesso que simpatizava mais com o primeiro, talvez por causa do seu sorriso generoso, talvez por ser irmão da Barbarella. Mas o segundo ficou o lado porventura mais "shady", um digno sucessor cinematogrático de William S. Burroughs, no contraponto "beat" aos rastos luminosos de Kerouac e Cassady.
Talvez hoje ao deitar-me consiga por momentos recriar a visualização do poster, a bandeira americana no depósito da chopper de Fonda, e reimaginar alguns devaneios rodoviários com ambos pelo wild west (escusado dizer que só vi o filme muito mais tarde, e foi a total desilusão).
Kick start and chopper along!

A/C do nosso Cardeal Patriarca: quem muito se agacha mostra o que não deve



O comentário certíssimo de Helena Matos (AQUI) recorda-me as palavras de Martin Niemöller:

"THEY CAME FIRST for the Communists,
and I didn't speak up because I wasn't a Communist.
THEN THEY CAME for the Jews,
and I didn't speak up because I wasn't a Jew.
THEN THEY CAME for the trade unionists,
and I didn't speak up because I wasn't a trade unionist.
THEN THEY CAME for me
and by that time no one was left to speak up."

Azar o meu, o de ter nascido nesta era de PASTORES tresmalhados!

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O homem que respirava Bach



Muitas vezes, quando quero serenar-me e reconciliar-me com o mundo e acreditar que há sopros de transcendência, penso neste tresloucado que reincarnou um génio e o experimentou de dentro para fora, se assim pode dizer-se. Uma complexidade imensa transformada em simplicidade - através da intensidade do (des)empenho. Imagino que se fosse possível a transmigração ela teria ocorrido, e que J.S. Bach se teria redescoberto a comover-se e embevecer-se com este prodigioso intérprete.

Comme des étrangers: para mim, o melhor tango de sempre (e francês!)



"se gorgent d'un passé qui lentement se meurt…"

La Marche des Anges (Un Taxi pour Tobrouk)



"c'est ton visage qui me hante et le son de ta voix"

Comparar o que é comparável



Na mais elitista das escolas brasileiras, que paga condignamente aos seus docentes (coisa rara no Brasil) discutiu-se acesamente, há alguns anos, o que seria um vencimento "condigno". O Director aproveitou a presença de um professor visitante para convocar uma reunião geral, durante a qual perguntou a este quanto é que ganhava no topo da sua carreira na Law School de Harvard. A resposta, naquele tempo, foi 275 mil dólares / ano, o que causou logo um sururu, prontamente atalhado pelo Director com nova pergunta: "e quanto ganham os advogados da sua geração, também eles a chegarem ao topo das suas carreiras?". "Não conheço nenhum que ganhe menos de 2 / 3 milhões por ano", e a resposta foi apaziguadora, pôs o pessoal a pensar.

El condor pasa



Há uns tempos observava a um diplomata brasileiro que o país que mais pena tenho de não conhecer é o Chile, e ele, sorrindo (como se me tivesse apanhado num faux-pas, e se calhar apanhou), observou que devia ser pelo facto de os chilenos não serem bem sul-americanos, ou de pelo menos não terem interiorizado que o são.

Cavacadas, cristianismo e uns pózinhos de realismo mágico



Parece que tudo o que é cristão acordou para a crua realidade do que se passa em Belém (não falo da Belém Nazarena, nem faço qualquer alusão aos pastéis).
Vá lá, rapazes, não façam de idiotas úteis, a versão abrileira do "cristianismo progressista", não se transformem em ilustrações vivas daquela velha boutade do "ópio do povo", acordem! Julgam que foram a integridade e a congruência que abriram caminho na política ao habitante do palácio? Distraído sou eu e não penso, e menos digo, coisas dessas!

quarta-feira, 26 de maio de 2010

terça-feira, 25 de maio de 2010

Being Pat Metheny


A "classe" jornalística



Tal como as cigarreiras de Sevilha que, subentende-se em Prosper Mérimée, complementavam a féria com alguns favores mercenários à sombra das muralhas, por cá também há uns quantos jornalistas "enganchados" em "assessores" que buscam ganhar a vida lançando mão de "meios alternativos". Admita-se que esses ao menos ostentam a sua condição de "manteúdos", e o correspondente protector, presume-se, sempre lhes poderá pedir contas pelo "ganchinho". Pior são os "free-lancers", os herdeiros do sórdido Étienne Lousteau que Balzac desenhou como o mais vil e venal jornalista, um talento na subserviência e na chantagem e na prostituição "doxástica".
Acabo de ver uma remonta deles na TV, "ao ataque"; dois séculos depois, é a mesma gente, os mesmos balzaquianos.
"Tu as rencontré le Diable", diz Carmen a Don José, no clássico de Mérimée. E eu julgo sentir o mesmo calafrio que Don José terá experimentado naquele momento, quando vejo, "doublés" em comentadores televisivos, os nossos plumitivos locais abandonados ao seu penumbroso comércio de favores.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

As últimas frases de Germinal



"Maintenant, en plein ciel, le soleil d'avril rayonnait dans sa gloire, échauffant la terre qui enfantait. Du flanc nourricier jaillissait la vie, les bourgeons crevaient en feuilles vertes, les champs tressaillaient de la poussée des herbes. De toutes parts, des graines se gonflaient, s'allongeaient, gerçaient la plaine, travaillées d'un besoin de chaleur et de lumière. Un débordement de sève coulait avec des voix chuchotantes, le bruit des germes s'épandait en un grand baiser. Encore, encore, de plus en plus distinctement, comme s'ils se fussent rapprochés du sol, les camarades tapaient. Aux rayons enflammés de l'astre, par cette matinée de jeunesse, c'était de cette rumeur que la campagne était grosse. Des hommes poussaient, une armée noire, vengeresse, qui germait lentement dans les sillons, grandissant pour les récoltes du siècle futur, et dont la germination allait faire bientôt éclater la terre."

(a lembrar os tempos em que os ideais socialistas germinavam da leitura de Émile Zola, e não do devorista Capitalismo de Estado que hoje se tornou sinónimo de socialismo).

domingo, 23 de maio de 2010

A vida que retoma os seus direitos



Há um milhão de razões para se ir a um restaurante, embora no meu caso seja geralmente a sugestão da companhia. Em dois dias seguidos, e apesar da febre dos fenos, fui a dois muito "in" e por razões muito diferentes.
No primeiro caso negócios, rodeado que fiquei de grandes emborcadores de ostras a 20 euros a meia dúzia, e eu a ruminar uma saladinha com demasiada cor e demasiado vinagre balsâmico, antes de um austero salmão fresco caramelizado em mel (soa mal, mas sabia deliciosamente bem), tudo engravatado, tudo empenhado em discutir os números do PIB, tudo com muita conversa derrotista enquanto se multiplicavam as solicitações de mais "fines" e de mais "creuses". Como foi uma potência estrangeira que pagou e eu não ajudei à festa e praticamente nada disse porque a rinite o impedia, as coisas não correram mal. Nem uma única mulher bonita na sala.
Ontem, no já estafado Pátio Bagatela, amigos levaram-me a um restaurante muito "branché" no local onde eu julgava que vegetaria ainda uma casa de bolos. Agora é mesmo restaurante, comida sofrível, bifes da testa do boi, molhos insípidos, sobremesas à lagareiro, etc.. Em contrapartida, um impressionante desfile de "jeunes filles en fleur", a fazerem-me sentir velho e desesperado com os meus choros e espirros, e as gargalhadas límpidas dos verdes anos a rasgarem a surdina recurva com que discutíamos ainda, "en petit comité", os números do PIB. Achei a escolha boa, porque a conta se apresentou compatível com as possibilidades da economia nacional – e nenhuma sobretaxa por podermos contemplar as Gilbertes e Albertines que percorrem, como pólen, as primaveras lusitanas.

Muito tarde para patriotismos

Discutimos animadamente as perspectivas do patriotismo nos próximos anos, depois de ele, um acrisolado patriota, ter anunciado que não lhe restava senão refazer a sua vida no estrangeiro, num momento em que a sua vida parecia encaminhar-se para um apogeu de estabilidade e de prosperidade.
Lembrei-me que há muito um país que se expande pelo mundo – não por sonho glorioso e glorificado, mas a mais das vezes por estrita necessidade – é um país composto por gente que precisa de sentir-se patriota para não cair no mais fundo desespero, e por isso teci um novelo de argumentos que se acastelaram numa sequência muito pouco convincente, do género "o patriotismo é, neste momento, partir".
Na realidade o patriotismo, se é o atordoamento da crítica contra os que governam e desgovernam e se governam, é neste momento uma atitude estúpida e inoportuna: é a atitude daquele sabujo que segue o patrão quando este, anunciando a iminência do encerramento da empresa, apela a que todos mostrem a sua solidariedade e "vistam a camisola da equipa".
É contando com essa fidelidade que os abusos surgem, e contando também com os idiotas úteis que sonham com a "resistência interna" e com a possibilidade de regeneração dialéctica dos males - isto ao mesmo tempo que, sem hesitação ou angústia, vão oferecendo a sua pronta colaboração.
Digamos isto de outro modo: o patriotismo é um sentimento útil e valioso se nos serve de base para partilha e para cooperação entre aqueles que o nutrem; mas é um sentimento inútil e perigoso se a ele servimos em holocausto a nossa liberdade e o nosso discernimento, se ele se torna num obtáculo à possibilidade de vivermos honradamente uma vida bem vivida, no sentido de vida com significado, num qualquer recanto do planeta.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Diálogos dos Mortos, II



deveremos nós ser indiferentes ao que acontece? Perderíamos todo o prazer do jogo com a nossa fleuma e desatenção. Enquanto meditamos sobre a vida, a vida passa; e a morte, ainda que possivelmente eles a recebam de modo diferente, trata do mesmo modo o imbecil e o filósofo
- David Hume, “The Sceptic”, Essays Moral, Political and Literary, I

é precisamente por causa desta ilusão da imaginação que a previsão da nossa própria dissolução nos é tão terrível, e que a ideia dessas circunstâncias, que sem dúvida já não nos podem afectar quando estivermos mortos, nos deixa tão infelizes enquanto vivemos. Daí resulta um dos princípios mais importantes da natureza humana, o medo da morte, o grande veneno da felicidade, mas também o grande entrave à injustiça da humanidade, que, ao mesmo tempo que aflige e mortifica o indivíduo, preserva e proteje a sociedade
- Adam Smith, Theory of Moral Sentiments, 13

Diálogos dos Mortos, I



tota philosophorum vita commentatio mortis est
- Marcus Tullius Cicero, Tusculanæ Disputationes, I

a morte nada é para nós, nem nos preocupa minimamente, visto que a natureza da alma é sempre mortal [...] assim, quando já não existirmos, quando sobrevier aquela pulverização do corpo e da alma através da qual somos reduzidos a um estado elementar, então verdadeiramente nada mais nos poderá suceder, nada mais moverá os nossos sentidos
- Titus Lucretius Caro, De Rerum Natura, III

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Meditações sobre o momento político





Em trinta e tal anos nada mudou, absolutamente nada. A falta que cá faz um Vilhena!

terça-feira, 18 de maio de 2010

Na suspensão de uma Jansenista Honorária



Estou a rever as imagens que partilhámos nestes anos (sem nos chegarmos a conhecer!). Vou ter saudades.

Noite das mulheres invencíveis: # 1


Noite das mulheres invencíveis: # 2


Noite das mulheres invencíveis: # 3


O Evangelho segundo São Cavaco



São João Evangelista dá-nos nota de que, às afirmações de Jesus de Nazaré de que teria vindo à Terra trazer o testemunho da Verdade, e mobilizar aqueles que ouvem a Verdade, Pôncio Pilatos teria replicado "E o que é a Verdade?", frase a que o tempo veio emprestar a patine do relativismo.

Ontem, mais para os lados de Belém, Pôncio Pilatos reapareceu numa versão mais mandibular e titubeante, a perguntar se as questões fundas da moralidade civil, novamente tripudiadas pelo moderno Sinédrio que assenta na Rua do Século (e ainda mais inútil do que o congénere de há dois milénios), merecem que se perca tempo. O supremo magistrado de uma nação soçobra perante o tempo, e tivessem mais talentos (se os houvesse) acudido à aflição, e teríamos o lapidar "E o que é o tempo?".

Belém é mais assunto de manjedoura, pelo que omito a lavagem das mãos, e excluo da imagem mental a figura do menino nas palhinhas e também a figura da vaca. Governemo-nos com o que resta.

Rescaldo


 

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Uma nota para mim mesmo

Sentados estávamos, os três, e entre nós fizemos uma espécie de pacto de imperturbabilidade contra o alarido de intolerância que ameaçava submergir-nos.
Um, "the great white hope" daquele tempo, um talento superlativo, não aguentou a pressão e afastou-se do meio, sei que desgostoso e desiludido ao tempo em que lhe perdi o rasto.
O outro acaba de partir.
De certo modo resto eu para evocar essa tarde no Ginjal, na qual passámos em revista as nossas vidas e tecemos mil projectos – nenhum dos quais frutificou, porque outros mil se interpuseram. Nesse dia afastámo-nos da cidade e lembro-me de comentar que à distância ela parecia mais bonita, assim sem o alarido e sem o cheiro, assim filtrada pelo vento e pelo marulhar do rio.
Todos três sabíamos que à mesma hora uma corte de "yes-men" invertebrados (entretanto já clonados nas novas gerações) oferecia as nossas cabeças aos tiranetes académicos da época, mas naquele momento a perspectiva parecia-nos caricata (uma cena tirada de Nicolau Tolentino, pelo menos), e a empatia mútua pareceu formar à nossa volta um círculo de invulnerabilidade.
Conto a partir daí a passagem do conhecimento à amizade com ambos, e várias vezes agradeci, àquele que acaba de partir, o ter-me tornado cúmplice da sua peculiar forma de lidar com as coisas, que me apetece recrismar hoje como jansenismo epicurista, assim a modos que uma forma sincrética de despojamento interior que nos disponibiliza para as alegrias da vida e relativiza ironicamente as tristezas – em mim um esforço constante, nele a coisa mais natural da vida, uma "second nature" (tinha nascido corajoso).
Sinto que, chegando a Lisboa, além dos deveres solenes, tenho que voltar solitário ao Ginjal, em representação dos dois sobrevivos, a assinalar o final do pacto, a fechar o círculo. Foi curto, afinal; afinal não nos aconteceu nada; ainda bem que não nos cobrimos do ridículo do medo; tudo valeu a pena; obrigado pela lição, Zé Luís.

Adieu l'ami, faut se quitter

(e um abraço à Maria José)

Montaigne et La Boétie



"Au demeurant, ce que nous appelons ordinairement amis et amitiés, ce ne sont qu’accointances et familiarités nouées par quelque occasion ou commodité, par le moyen de laquelle nos âmes s’entretiennent. En l’amitié de quoi je parle, elles se mêlent et confondent l’une en l’autre, d’un mélange si universel, qu’elles effacent et ne retrouvent plus la couture qui les a jointes. Si on me presse de dire pourquoi je l’aimais, je sens que cela ne se peut exprimer qu’en répondant : «parce que c’était lui ; parce que c’était moi»."
------Michel de Montaigne, Essais, Livre I, XXVIII, (De l’amitié)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Um Brasil melhor

A. evoca a figura de José Mindlin (AQUI) e o seu testemunho suscita-me a seguinte reflexão: inundados que fomos, neste últimos 35 anos, de tudo o que é telenovela rasca, evangelista manhoso, futebolista rameloso, alternadeira dengosa, já para não falarmos de marketing bicheiro, ortodôncia, sunga, chinelo, cai-cai, rodízio, e toneladas da pior música do mundo (de Ivete Sangalo a Zézé di Camargo, tudo ressumando a caipira, a candango e a sudação sertaneja), esquecemos que há um Brasil que pensa (e não é o Gabriel o Pensador), que reflecte, que se cultiva, que tem mais mundo e mais modos do que as "élites" portuguesas. Basta viajar para Sul de São Paulo e os exemplos desse Brasil elegante, culto, digno, multiplicam-se.
Nem tudo é danação e candomblé, pé rapado, cangaço e morro, caipirinha com vodka, forró, brega e Porto Galinhas. Há, sempre houve, sempre haverá, um Brasil que vale a pena, até porque (em média) é muito melhor do que nós.

Falta um cruzeiro no Zambeze (3)


terça-feira, 11 de maio de 2010

O Papa e o país queirosiano

Aqui à distância chegam-me ecos da "euforia oficial" com a visita do Papa. Nada de especial a assinalar, excepto o habitual provincianismo das "medidas de segurança", que parecem o barómetro pelo qual aquilatamos a importância de quem nos visita.
Por outro lado, acho que o alarido partidário-maniqueísta dos "opositores" e "defensores" da visita papal é sintomático do quanto o país se secularizou – ou melhor, do quanto se tornou secularista, do quanto o seu registo foi derivando para o "grande atractor" da "linguagem dos interesses" e para os denominadores pragmáticos da coesão social: perdemos o sono com o défice e com a ameaça de expulsão da Zona Euro; já uma ameaça de excomunhão (a sério) seria recebida com bonomia e gargalhadas.
Tornámo-nos militantemente secularistas, amamos e tememos apenas a hidra do Estado e o bezerro de oiro do Capital, e mesmo os que, batendo no peito, evocam a sarça ardente fazem-no apenas por ritual e atavismo, para se reconhecerem uns aos outros e para significarem, na ostentação da pertença, o preito àquela coisa vazia que ainda se designa por "fidelidade" (abreviadamente, "fé"). Os mesmos que vão genuflectir no Terreiro do Paço nem por um segundo reflectem que não é possível, com um mínimo de congruência, erguer em súplica as mesmíssimas mãos que folhearam, deliciadas, as páginas de galicanismo e impiedade de Eça de Queirós – as mãos que soergueram o mais sedutor troféu luciferino…
Aos mais papistas lembro que este torrão ocidental nunca embarcou na devoção guelfa, e que já pouco depois da "Manifestis Probatum" batíamos galhardamente o pé aos interesses seculares da cúria romana, não recuando sequer diante das sanções severas com que Roma retaliava. Para aqueles que andam esquecidos, lembro episódios como a questão das luminárias, a questão dos jesuítas, o modo como reivindicámos o Patriarcado para Lisboa, como impusemos privilégios na nomeação dos bispos – e até, muito mais recentemente, como significámos ao Papa Montini o nosso desagrado com a recepção dos líderes terroristas no Vaticano, e lho fizemos sentir na sua vinda a Fátima.
Dito isto, celebremos, num interlúdio sem significado como o devem ser todos os interlúdios. Nada na presença física acrescenta ao meu respeito pelo intelectual, com quem vou convivendo através das publicações; e nada acrescenta à posição carismática em que ele foi investido, e que deve ser aquilatada à luz de uma profundidade histórica feita de luzes e de sombras, aqui de um país que soube, com independência, tanto servir como servir-se dessa instância espiritual e secular, venerando-a na estrita medida dos seus próprios interesses.

Falta um cruzeiro no Zambeze (2)


segunda-feira, 10 de maio de 2010

Sonhei com o Poceirão

Lembro-me de, há muitos anos, ter comprado na Feira do Livro um livro de título Bakshish, ou coisa similar, em que se narravam, de forma assumidamente anedótica, as venturas e desventuras do 3º mundo.
No capítulo "ajuda socialista", para lá dos gorros de pele enviados para África (essa era óbvia), havia também os carregamentos de sapatos só do pé esquerdo, e a construção de uma estrada e de uma ponte com ajuda soviética – com o detalhe de que a estrada terminava algumas centenas de metros a jusante da ponte, tendo portanto os indígenas que percorrer a pé o intervalo entre as magníficas obras.
Lembrei-me disto por causa do Poceirão, capital lusa do TGV.
Um TGV que pára no meio de nada é um conceito zen admirável: o viajante, estonteado dos 300km/h, pára no meio da poeira e dos grilos e aí recobra o ritmo telúrico da jorna, à torreira do Sol. Que importa Lisboa, lá longe, se já se pressentem as toadas da ceifa e da debulha?
Se algum obstinado, contudo, quiser prosseguir jornada, restam algumas opções:
a) a travessia naquele ronceiro catamarã que se esforça por não sobressaltar o Mar da Palha;
b) a inscrição na Maratona das Lezírias, que arranca do Poceirão e termina em Camarate;
c) a regata das faluas, havendo vento de feição, e lendo exaltantes trechos de Soeiro Pereira Gomes;
d) a carreira Poceirão-Montijo, com desdobramento para o Fogueteiro, onde há o interface com o comboio da ponte Salazar (o viajante termina a jornada embalado na estridência do Kuduro debitado das telefonias dos gangs residentes deste TGV alcantarense).
Resta por fim a esperança de que um dia o TGV venha tão lançado que, tendo o maquinista emborcado um Quinta de Pegões Reserva e esquecendo-se do sinal de travagem, a composição galgue uma rampa e, como no velho Oldsmobile dos Três Duques, sobrevoe o Tejo e a Reserva de Pancas e venha estatelar-se no Convento do Beato. Aí teremos dado, deveras, e finalmente, o prometido "salto tecnológico".

Falta um cruzeiro no Zambeze


domingo, 9 de maio de 2010

Mme Machel-Mandela

Há uns dias tinha visto Mme Graça Machel na TV, milagrosamente transformada em "empresária". Claro que a Senhora, na sua inesgotável sabedoria, afirmava estar em Portugal para promover os interesses dos mais pobres em Moçambique; e aos jornalistas, dóceis e intimidados, não ocorreu sequer questionar a afirmação.
Afinal tinha ido fechar negócios a Lisboa, usando como alavanca a visita do próprio presidente moçambicano: só que negócios sul-africanos…
Quem chega ao aeroporto de Maputo vê novos edifícios chineses, prontos para substituírem o antigo terminal. Já era tempo. Mme Machel-Mandela obteve do governo moçambicano uma posição de controle sobre toda a exploração comercial, logística, retalhista, etc., que decorrerá no novo terminal aeroportuário. Uma única exigência, asseveram-me, a de que todos os quadros intermédios e de topo sejam sul-africanos. Já houve protestos, oportunamente abafados: a Mme Machel, toda-poderosa, promove, com o emprego de sul-africanos, os interesses dos mais pobres em Moçambique.

Polana


sábado, 8 de maio de 2010

Regresso ao Índico


 

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Antes de dormir



Vamos vencer no feirão em Sangalhos!

Antes de deitar



Adozinda, ainda demoram estas tripas à socialista?

Antes de deitar



E temos a certeza de que estas gomas vão causar diarreia nos imperialistas?

Antes de deitar



Ah, ainda resta este p'xinho fresco! Valente xaputa!

Antes de deitar



Com esta lixamos a Covilhã...

Antes de deitar



Vitorino, estes edredons não são muito rijos?

Antes de deitar



Excelência, chegámos ao site da Pamela Anderson!

Antes de deitar



E o PEC implica comermos apenas peixinho congelado?

Antes de deitar



Serafim, manda-me esse míssil!

Antes de deitar



Antunes, achas que com isto passamos no anti-doping?

Esplendor de Portugal



Estudemos um novo monumento ao 25 de Abril!

Esplendor de Portugal



Reurbanizemos o Alfeite e a Docapesca!

Esplendor de Portugal



Apostemos no Minipreço!

Esplendor de Portugal



E um pouco de "cotton-pickin' blues" para agitar a malta!

Esplendor de Portugal



Sejamos dóceis nas repartições de finanças!

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