O novo Ashram minimalista

Sábado, 28 de Fevereiro de 2009

A impostura Williamson

Msgr. Williamson é pessoa inteiramente estimável: dizem-me que pertence a uma confraria lefebvrista, que como todos sabemos é um daqueles fenómenos de cíclico recrudescimento de fervor religioso em tempos de impiedade. Simpatizo com a ideia, até porque no fundo é uma nova edição do jansenismo – ainda que uma reedição algo acéfala (onde andas, Blaise Pascal dos lefebvristas?).
Sua Reverendíssima Msgr. Williamson é portanto arauto de uma forma intensa de espiritualidade, daquelas que se comovem particularmente com a sorte da condição humana, com a condição decaída do mais pobre e abandonado dos nossos irmãos, com a fome e sede de justiça que, neste vale de lágrimas, não se converte numa bem-aventurança sem a solicitude e sem a caridade.
Imagino Sua Reverendíssima banhado em lágrimas lamentando as vítimas da fome, da opressão, da guerra, e até daquelas calamidades ditas «naturais» que levam o timbre da Providência; e vejo-o, os olhos rasos de lágrimas e a voz embargada de compaixão, a ferver de indignação com a sorte de uma só vítima judia – criança, mulher, homem – naqueles anos negros das décadas de 30 e 40.
Nem podia ser de outro modo: o Vaticano nem sempre sabe, ou pode saber, o que se passa com o baixo-ventre do clero – e de vez em quando lá se descobre um pastor pedófilo, e aberrações do género –; mas sabe perfeitamente o que se passa na cabeça dos seus mais altos representantes, da classe episcopal: responde por eles – ou então excomunga-os.
Por isso aquele indivíduo de olhar impiedoso que vinha falar friamente de 300 a 400 mil mortos como se fosse um fait-divers não pode ser a mesma pessoa, só pode ser um impostor: é alguém que quer denegrir um Bispo da Igreja fazendo-se passar por ele. Que esse impostor miserável escarneça de milhões de mortes fingindo que não acredita nessas mortes, ou que queira exonerar os esbirros duvidando de práticas que os próprios confessaram, já é mau; que em suprema exoneração dessa atrocidade use, com displicência sobranceira, o tal número de 300 ou 400 mil, isso é intolerável.
Aliás, os mandantes desse impostor instruíram-no deficientemente: porque uma cifra destas fica, mesmo assim, muito além dos valores que eles invocam para outros episódios que os afligem, como o do bombardeamento de Dresden, por exemplo (se bem que já adivinho que o títere negacionista era capaz de fazer a contabilidade de que cada vida em Dresden vale múltiplos das «outras»: afinal, em Dresden eram todos arianos…).
Como Sua Reverendíssima Msgr. Williamson já desmentiu o impostor, podemos dar o caso por encerrado, e concluir que o Governo da Argentina, caso quisesse expulsar esse jansenista dos tempos modernos, teria feito muito mal; mas como nem sequer chegou a expulsar o impostor que se fazia passar pelo Bispo (um evento bem menos comprovável, em todo o caso, do que as atrocidades que o impostor quis negar), lamentamos que o Governo da Argentina tenha perdido a oportunidade de fazer valer princípios básicos em vigor no Direito Internacional.
Prepara-se um grande churrasco no Inferno.

O vídeo mais fascinante de todos os tempos - Land of Anaka



Bem escondido na Net, demorou-me este tempo todo a encontrá-lo (e em QuickTime, o que não é brilhante). Em todo o caso, é uma pérola rara, para ouvir e ver e saborear na sua simplicidade minimalista: Geoffrey Oryema, Brian Eno & Peter Gabriel no momento mais alto da «World Music» (com uma recôndita homenagem a Leonard Cohen).

O mundo maravilhoso de Albert Kahn


A encomendar com urgência

Há minutos, numa descontraída volta de FSX pelo Mont Saint Michel

(clicar para ampliar)

Cry Me a River (grande Lulu!)

Uma fonte permanente de inspiração

Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

Aprender até morrer...

As coisas nunca são (inteiramente) o que parecem: surge agora o outro lado de Ingrid Betancourt... ver e ler...
Um aperitivo: AQUI

My point

There's a sucker born every minute
(P.T. Barnum dixit)

Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

Courbet e a ladeira escorregadia que conduz… a Himmler… via Barão Hatvany

Estava à espera dos gastos argumentos da ladeira escorregadia, confesso: estou habituado a lidar com eles noutros domínios.
Aqui, no «caso Courbet», revestem a forma: ou deixamos a «expressão artística» ter irrestrito curso, ou caímos na censura, tudo é reprimido irrestritamente, tudo fica ameaçado… e lá ao longe, no horizonte, começam a assomar as esperadas silhuetas de Himmler, talvez mesmo de Heydrich, e tutti quanti.
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(Um parêntesis erudito: "L'Origine du Monde" e "Femme Nue Couchée" andaram na mira de nazis e soviéticos durante a Guerra, e a custo o Barão Ferenc Hatvany, um judeu húngaro – uma dupla qualidade ameaçadíssima à época –, conseguiu conservar a primeira, tendo perdido a segunda. Parece portanto – suprema ironia – que os maiores censores do século XX eram muito apreciadores de Courbet).
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Voltando à ideia de que a «arte» é algo de sagrado e intocável (coisa que autoriza o sobranceiro parasitismo no qual os artistas são «artistas»), a ladeira escorregadia é um não muito subtil apelo à nossa solidariedade para com o «artista incompreendido», uma invenção romântica (com raríssimas excepções, os artistas que ficaram para a história foram ostensivamente, enjoativamente, apaparicados pelos poderosos), agitando o «papão» da censura, a putativa vitória das «trevas» contra os «iluminados».
O argumento é facilmente reversível: e se um pintor resolver exibir uma série de quadros glorificando a sodomização de crianças? Estão a ver outra ladeira, não é assim? O argumento não prova nada, portanto; deixemo-lo.
No fim, tudo se resume à questão da responsabilidade do homem comum e da irresponsabilização dos «seres eleitos»: o único ponto relevante em tudo isto.
Suponhamos que um restaurante de Braga fornece sistematicamente comida estragada à clientela, e que por isso as autoridades sanitárias decidem encerrá-lo: significa que ficam em risco de encerramento todos os demais restaurantes de Braga? Significa isso que, para que um tal risco não surja no horizointe, jamais se deve encerrar um restaurante, faça ele o que fizer?
Há por aí uma rapaziada «iluminada» que, se em vez de «restaurante» tivéssemos escrito «artista», responderia sem hesitar que tudo fica em risco (acudam, que lá vem a censura!) e que por isso nada deve ser reprimido ou proibido (a populaça que aguente as intoxicações).
Sobranceria parasitária dos «artistas», ingenuidade dos que crêem na «liberdade de expressão» como antigamente se acreditava nas mais extravagantes atribuições às divindades. A fileira dos papalvos nunca pára de crescer: deve ser isso que subentendem muitos dos que sustentam que toda a arte é, ou deve ser, imorredoira.

Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

Ainda o caso Courbet

Coisa bizarra: parece que se exige agora, aos polícias do Norte do país, não somente que conheçam a obra de Courbet, como ainda que se prostrem em veneração perante qualquer «obra de arte», de Courbet ou, presume-se, de qualquer «artista».
O argumento tem barbas (nenhuma alusão à tela sub iudice), e consiste em dizer-se:
a - primeiro, que ninguém se define como artista por criar uma obra de arte, mas antes que a obra de arte é toda e qualquer emanação de alguém que socialmente adquiriu o estatuto de «artista»;
b - depois, que a «liberdade artística» prevalece, a legibus soluta, sobre qualquer cânone provindo de qualquer outra axiologia que não a «estética»;
c - por fim, que quem define «estética» é o novo avatar do «filósofo-Rei», o «artista».
Sucede que:
1 - presumo que os polícias do Norte do país sejam gente honesta, trabalhadora e temente a Deus, e que a sua honradez e proficiência não dependa de terem aprendido a identificar Courbet, com um cúmplice piscar de olho;
2 - presumo que são gente que guarda cânones de pudor, cânones que não cedam ao alarido «criativo» do primeiro «artista»;
3 - presumo que não fazem parte daquela banda de néscios e «preciosas ridículas» que, de cócoras, venera a «falácia romântica» que pretende fazer-nos servos do «império da estética»;
4 - presumo que não se deleitam na perversa contemplação de um escancarar de coxas, como se estivessem a espreitar sobre o ombro de um ginecologista;
5 - presumo que saberão poupar-nos, aos demais, de termos que encarar com um vómito, um escarro, uma dejecção, uma chaga, um furúnculo, estadeados na praça pública sob o pendão inteiramente arbitrário de alguém que se arroga o exclusivo ditatorial de determinar, em nome da sua «estética», o cânone colectivo da decência.
Em conclusão: ainda bem que os polícias do Norte não conheciam Courbet, podiam estar agora a fazer figura de parvos, ao lado dos idólatras da «falácia romântica» que, sem se auto-criticarem, tão lestamente os criticam.

No escurinho do cinema


Numa pausa, sonho com uma sala de projecção privada, para ver os filmes de que se fala – os bons e os maus – e os filmes de que quase já não se fala – os bons –.

Bootylicious

Um crítico de cinema tem que ter o olhar clínico. Por uma vez, desviámo-nos dos atributos de Beyoncé Knowles e mirámos este adereço barroco. Bootylicious!

Perto e longe

Num momento de encargos avassaladores chegam-me ecos distantes da rotina que ocupa a «esfera pública». Estou incapaz de acompanhar – o que tem um gosto agridoce (faz-me falta o Sol).

Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

Domingo, 22 de Fevereiro de 2009

Madeleine montagnarde





Ontem, no gourmet de El Corte Inglés, comprei um frasco de Maple Syrup (genuíno) para pôr nuns crepes. Uma gulodice deliciosa, que me transportou em espírito para algo como isto...

Sábado, 21 de Fevereiro de 2009

Adeus, Ribeira das Naus!

Pelo que li nos semanários de fim-de-semana, a perspectiva de duração das obras no Terreiro do Paço já não me vai permitir revê-lo restituído à sua simples grandiosidade.
Talvez seja melhor assim: por detrás dos tapumes e dos estaleiros desfilarão momentos de uma Lisboa composta de azul e maresia que tinham este sítio por ponto focal.
Pensar que cheguei a trabalhar, durante uns meses, no torreão Oeste (foi pouco antes do célebre Tollan).
Pensar que foi aqui que iniciei, já dorido e ofegante mas feliz, os últimos oito quilómetros da Maratona.
Um sítio cheio de ressonâncias individuais e colectivas. Desta vez, como as obras são (em parte ao menos) para salvar e não para escavacar, despeço-me sem amargura.

Milagre



Sous le charme: Pavillon de la Reine, Place des Vosges (Paris)

Uma arrière-cour da Place - um hotel com quartos do início do século XVII...

Sous le charme: Je tire ma révérence

Neste delicioso bootleg, espiamos Kurt Elling a prestar uma homenagem a Jean Sablon - no New Morning, em Paris! Sablon era um crooner-clone de Bing Crosby: plus franglais que ça...

Sous le charme: Hôtel St. Merry, au Marais (Paris)

Um dos mais bizarros e cativantes hotéis do mundo:

Sous le charme: Je te réchaufferai

Depois do jantar gelado no Pershing Hall...

Sous le charme: Pershing Hall, Paris

Pour dîner alfresco...

Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

O Bispo Williamson não foi expulso da Argentina

Um homem que nega os extermínios consumados pelos nazis vai ter a maior dificuldade em provar a sua própria expulsão da Argentina. (CHEIRA-ME_A_ESTURRO...)
Por mim, ele nunca foi expulso, é tudo uma mistificação e uma cabala neonazi – com o toque irónico de se invocar, no centro da mistificação, o nome de um santo homem tão escrupulosamente apegado ao respeito pelos factos (e pela memória alheia).

O casamento como pretexto de alvará

O casamento gay é um falso problema, porque os gays que dizem querer casar (com parceiros do mesmo sexo) não querem verdadeiramente casar, querem é ver oficialmente reconhecido o seu estatuto através de um daqueles poucos actos em que a lei discrimina em função do sexo dos contraentes - e onde portanto o reconhecimento do «direito» pode imediatamente ser sujeito à interpretação extensiva de uma licença para tudo o resto (seja lá o «resto» o que for).
Se fosse imposto que só pudessem saltar à corda pessoas de sexo diferente, os gays quereriam saltar à corda. Não propriamente saltar à corda – mas sim saltar à corda OFICIALMENTE, com legitimação, banhos e proclamas.
Lembro-me de uma história que era contada, com as letras todas, pelo saudoso Prof. Varela (depois reduzida a escrito num comentário na RLJ): num processo de divórcio o marido insistia muito na prova da culpa da mulher, especificamente na sua infidelidade, para se esquivar a futuros deveres de alimentos. Insistia, insistia, mesmo depois de se perceber que tudo o resto seria pacífico e que portanto só aquele motivo mesquinho sustentava a insistência. Um funcionário, impaciente, explodiu num "passem-lhe lá alvará de cabrão!".
É tudo uma questão de alforria, de cidadania, de papel passado, de alvará – o casamento, em ambos os casos, é um mero pretexto.

Até 20 de Março: Pisces (330º)


Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

A imolação de San Francisco



Uma memória de impotência, estupefacção e tragédia: Genthe

Imagens de um mundo desaparecido




As fotografias de Arnold Genthe sobre Chinatown, SF, publicadas somente depois do terramoto de 1906 - depois, portanto, de o sismo e o fogo terem feito tudo isto desaparecer. MAIS

Flintstone baths


Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

A fasquia subiu



Hoje surpreendi-me, conseguindo ultrapassar os meus próprios standards. Não especifico - seria vaidade - mas apetecia-me comemorar. A esta hora não está por aí ninguém com quem comemorar, e daqui a 5 horas tenho que estar operacional de novo.
Vou presentear-me a mim mesmo com uns minutos virtuais neste «hot tub» na ilha de Tiburón, com vistas para a Golden Gate e para San Francisco, a sereníssima Yerba Buena. Sai um copinho de Pinot Noir e uma musiquinha de Michael Franks, faxavor!

Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

Prémio Volta, Marx

Ao Amorim corticeiro, por despedir trabalhadores num momento em que declara seis milhões de lucro. Dá mau nome ao capitalismo, devia ir um ano para a Coreia do Norte - para se curar da ganância.

Prémio Broncos ao Poder

Ao rústico Ministro Qualquer-Coisa-Pereira-da-Presidência, que exigiu ao jornalista que o tratasse por «Ministro» e não se desse a demasiadas familiaridades. Em que horta estrumada vão desenterrar estes nabos?

Metamorfose




De dia parece uma criação de M.C. Escher, e à noite fica magia pura...

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