Há pessoas tão naturalmente boas que senti-las por perto é avassalador. Hoje duas delas cruzaram os seus caminhos na minha frente, e foi uma feérie. O vento no Cabo da Roca suspendeu-se, a chuva na Serra de Sintra deixou de molhar, e nem dei pela passagem pela Marginal de regresso a Lisboa. Falámos todos de coisas miúdas e alegres e as coisas grandes e tristes não se atreveram a uma aproximação. Por alturas de Carcavelos virámos todos a cabeça para vermos um pôr-de-sol demasiado belo, e as duas pessoas naturalmente boas na minha presença concederam-me a sabedoria do seu silêncio; serenaram-me. E depois retomaram o furacão das palavras, em órbitas e epiciclos de inteligência e graciosidade. Uma tarde inesquecível, terminada em entoações portuguesas e brasileiras na Senhora do Monte, por sobre o rendilhado de luzes de uma cidade irremediavelmente triste.
O novo Ashram minimalista
Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2011
Sábado, 29 de Janeiro de 2011
A Parca
Às vezes nos meus sonhos de meninice pergunto pelo Avelino, o Avelino que tinha uns calções demasiadamente curtos e um riso demasiadamente nervoso, um olhar esquivo, mas que era esguio e corria mais do que os outros, e era generoso. Onde anda o Avelino? Que aconteceu?
Se me lembro de mim jovem adulto penso no Pedro, o seu charme compulsivo, o seu sorriso contagiante, a sua desconversa permanente, a sua recusa quixotesca dos valores do conformismo, a alegria solar. Mas depois busco-o e ele não aparece, enigmaticamente.
E o Jorge, apanhado em flagrante em Sintra, gargalhando aristocrático e nervoso enquanto a parceira fugia do marido que não os tinha visto, para onde fugiu ele também? O menino Jorge da velha ama, que lhe trazia bolinhos a altas horas quando ele chegava da estúrdia?
Se penso no início do Outono oiço o marulhar do oceano e a voz sincopada e grave do Zé Luís, e quando me dirijo a ele inesperadamente a conversa diverge para o silêncio e para o vazio das ruas que percorríamos. De onde virá o vento que arrostaremos da próxima vez?
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Que têm eles todos em comum?
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A parca dirige a dança macabra nos momentos mais inesperados e deixa-nos, atónitos, a carregarmos o eco de trajectórias incompletas – a carregarmos a perplexidade que é a sobrevivência, e que é a memória - para seres nos quais ela persiste e interpela.
Às vezes gostava de ser epicurista na forma de encarar a morte; a memória e a ausência dos amigos não mo permitem; estou de certo modo prisioneiro deles.
Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2011
Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011
Parabéns
Parabéns ao Confrade COMBUSTÕES, agora que os seus trabalhos recomeçam a frutificar e a ascender "in luminis oras". Ainda há quem trabalhe pelo espírito e para o espírito!
Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2011
A lei moral em mim
"A segunda visão, ao contrário, realça o meu valor, como inteligência, pela minha personalidade, à qual a lei moral revela uma vida independente da animalidade, e mesmo de todo o mundo sensível, ao menos na medida em que se pode inferir da determinação conforme fins que essa lei confere à minha existência, e que não se confina às condições e limites desta vida, antes se estende até ao infinito."
O céu estrelado sobre mim
"A primeira visão de uma pluralidade imensa de mundos reduz-me de certo modo à minha insignificância, na minha condição de criatura animal, que deve restituir a matéria que a compõe ao planeta (um simples ponto no universo), depois de ter sido dotada de uma força vital (não se sabe como) durante um curto lapso de tempo."
Immanuel Kant, Crítica da Razão Prática, AK, V, 162
Domingo, 23 de Janeiro de 2011
Sexta-feira, 21 de Janeiro de 2011
Impensável
Falando com um dos poderosos da (nossa) terra, adverti para os gravíssimos efeitos recessivos que terão os cortes salariais.
"Mal menor", replicou.
Lembrei que a tributação da banca tem praticamente ainda todo o caminho por percorrer, e que ao menos por essa via teríamos a recessão mitigada.
"Impensável".
"Mal menor", replicou.
Lembrei que a tributação da banca tem praticamente ainda todo o caminho por percorrer, e que ao menos por essa via teríamos a recessão mitigada.
"Impensável".
Domingo, 16 de Janeiro de 2011
Represálias contra Cantanhede
A propósito de um assassinato brutal e obsceno algumas vozes indignadas chegaram ao ponto de censurarem uma manifestação de apoio ao assassino, usando nas suas alegações o argumento de que o apoio ao assassino de um homossexual é manifestação de homofobia.
Isso é sinistro, evoca a fria lógica das represálias, já que pretende estender a culpa para aqueles que se atrevem a demonstrar simpatia pelo culpado.
Pode haver, não nego, homofóbicos que queiram aproveitar a ocasião para manifestarem o seu apoio ao assassino, afinal o executante de tanta violência frustrada.
Mas, por mim, basta-me que haja amigos ou familiares do assassino nessa manifestação para eu declarar aqui mesmo toda a minha simpatia pelo evento.
Aqueles que amam o assassino (no sentido de amizade, ternura, compaixão, misericórdia até) não fazem mais do que o seu dever moral demonstrando a sua solidariedade humana. Não se lhes pode pedir que o julguem – isso haverá quem o faça, e quem o fará, espero, com a maior severidade e rapidez.
Eu diria até que esses que amam o assassino nem sequer têm o direito de o demonstrarem, porque o amor é superior e anterior ao direito, e o direito não tem que se imiscuir nesses sentimentos básicos de coesão da espécie. Manifestam-se, e é tudo.
Devemos respeito; deveríamos respeito sempre pelos resquícios de civilidade cristã que restassem no âmago das nossas consciências – mas pelos vistos isso é esperar demasiado; devamos respeito ao menos por obediência à «regra de ouro», sabendo colocar-nos na pele daqueles que inocentemente continuam a amar um assassino, imaginando da nossa parte o que seria se o crime tivesse sido cometido por alguém que amamos.
No nosso universo crasso e legalista ninguém pára um instante para reconhecer esta primazia afectiva que nenhum direito pode indeferir. Chegámos ao grau zero da ética no meio deste holocausto de brutalidade e alarido, de maniqueísmo e caça às bruxas.
Hoje sou de Cantanhede.
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