O novo Ashram minimalista

terça-feira, 2 de agosto de 2011

domingo, 31 de julho de 2011

Dia de quê?

I beg your pardon?
O dia do "Je T'Aime Moi Non Plus"?; do "Love to Love You Baby"?
O tempora O mores! Felizmente que temos o grande explorador / orientalista / pornógrafo / poliglota / diplomata Richard Francis Burton para esclarecer tudo no seu Hindu Art of Love. Há coisas que não mudam, valha-nos a ciência.

Um terraço panteísta


"A few minutes ago every tree was excited, bowing to the roaring storm, waving, swirling, tossing their branches in glorious enthusiasm like worship. But though to the outer ear these trees are now silent, their songs never cease. Every hidden cell is throbbing with music and life, every fiber thrilling like harp strings, while incense is ever flowing from the balsam bells and leaves. No wonder the hills and groves were God's first temples, and the more they are cut down and hewn into cathedrals and churches, the farther off and dimmer seems the Lord himself."
— John Muir

sábado, 30 de julho de 2011

Crónica de 19/8/2007

Quando eu era menino (como na velha canção de ninar) lembro-me de sentir uma estranha fascinação com os «contrails» (os «condensation trails» que os aviões deixam acima de uma determinada altitude). Na praia via-os formarem-se a distâncias incríveis, lentos, silenciosos, rasgando um trilho muito direito no céu azul em direcção ao horizonte. Raramente via o avião, salvo ocasionalmente numa súbita cintilação, mas adivinhava que ele estava muito perto do início do cone de vapor; era bizarro como se formavam aqueles cristais de gelo enquanto eu torrava na areia, custava-me a entender que entre mim e o Sol houvesse alguma zona intermédia que não fosse escaldante.
Curiosamente, imaginava sempre que o destino do avião era o Brasil (hoje imagino que nem sempre, para passarem àquela altitude os aviões não tinham descolado da Portela, possivelmente vinham de Madrid e sobrevoavam-nos de oriente para ocidente já a mais de 30 mil pés). Sentia uma imensa pena de ficar, e uma inveja difusa dos que partiam: para mim o Brasil, bebido nas fotos do Cruzeiro e da Manchete, era um país fascinante e colossal, um país de mulheres belíssimas, eternamente jovens e perenemente bronzeadas, o país de edifícios de Niemeyer plantados no meio da paisagem luxuriante, um país de festas e sofisticação, de bossa-nova e Jorginho Guinle, do virtuosismo de Érico Veríssimo e da música «lounge» de Sérgio Mendes (hoje, décadas de erosão pelas telenovelas quebraram irremediavelmente o encanto).
Se me dissessem que a bordo do avião se dançava com as hospedeiras (loiríssimas) e que tudo era primeira classe e que todos iam felizes, ninguém ia trabalhar e todos regressariam apenas quando quisessem, eu teria acreditado, melancólico que ficava com aquela minha pobre prisão na areia, em terra, sonhando, sonhando. Hoje, que já fui e voltei e vi, acho que nada se compara com a deliciosa inocência crédula daquele menino que se punha a recriar, à sua dimensão, a iconografia social do «jet-set» e as delícias de um país inexistente, e que se resignava a regressar, ao fim de tarde, arrastando as chinelas sob os pés incrustados de areia, à sua casa do lado errado do oceano.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

quinta-feira, 28 de julho de 2011

terça-feira, 26 de julho de 2011

O que penso do novo Governo


Muito instado a pronunciar-me sobre o novo Governo, aqui vai a minha opinião, nos termos mais precisos e definitivos de que sou capaz:
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Detective Gregory: "Is there any other point to which you would wish to draw my attention?"
Sherlock Holmes: "To the curious incident of the dog in the night-time."
Gregory: "The dog did nothing in the night-time."
Holmes: "That was the curious incident."
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Sir Arthur Conan Doyle, Silver Blaze

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Bad career move


Quando Elvis morreu alguém comentou: "good career move".
No caso de Amy Winehouse digo o contrário, perde-se um arco de criatividade que prometia muito, havíamos de a ver maturar aquele impulso raspy e aquela sensualidade que parecia macerada no bas-fond de Bourbon Street.
Venceu o lado histriónico e transgressor, o show-off romântico do "viver perigosamente", o lado "Priscilla Drag Queen do Deserto" rebobinado por Tim Burton e paramentado por Jean-Paul Gaultier, o côté louche das bebedeiras e das sovas e das misturas proibidas, da tatuagem e do desperdício, dos "f___ me pumps".
Por mim, teria vencido aquela voz quente a deslizar, num glissando fortíssimo ao jeito de um saxofone tenor, por entre os meandros de uma soul ritmada e rejuvenescida, uma força da natureza, um guaxinim com cio entre os canaviais do delta, um campari amérrimo a despertar forças insuspeitadas no palato. Lembro-me sempre da primeira vez que ouvi Aretha Franklin a cantar "Crazy He Calls Me", um arrepio em forma musical; lembrarei sempre, em paralelo – e, sem preconceito, no mesmo pedestal – o rumor felino a arranhar o sublime em "Rehab".
Que desperdício, que ressaca! As coisas únicas são as únicas que se perdem mesmo, sem remédio.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Bandalheira que regressa

Para os ingénuos que julgavam que este Governo era melhor do que o(s) anterior(es), aí está a prova ao fim de meia-dúzia de dias: aumento de impostos incomensuravelmente superior a qualquer corte de despesas, nomeação para a CGD de um nédio cacho de abutres (alguém se esqueceu de reconduzir o Vara). Daqui para a frente, vamos de não-surpresa em não-surpresa, como é hábito.

Grécia sem crise (2)





Grécia sem crise





Shakin Ol Over


Como agora para se falar das infiltrações na estação de Metro do Terreiro do Paço é preciso estar-se encapuçado e ter-se a voz distorcida, pergunto-me se não haverá alguma ligação entre essas infiltrações e o atentado bombista na Noruega.

Bandaison



Por muito tempo, nos idos de 70, segui a explosão punk / new wave comprando o "Rock & Folk" – e passei indiferente pelos encómios aos Téléphone, que julguei serem, naquela revista franglaise a resposta "moche" e plagiária à explosão cirtiva de l'autre cotê de la Manche.
Mas um dia, anos mais tarde, ouvi Louis Bertignac servindo de acompanhante / mentor de Carla Bruni, e fiquei rendido. Os números do "Rock & Folk", já os tinha perdido.
Aqui neste clip não o ouvimos, mas apenas a Mrs. Tedeschi numa chanson paillarde, o hino profano de Georges Brassens à erecção.
Pensar que é Primeira Dama, sacrebleu! Imagino outras primeiras damas a cantar coisas do género, não imagino, e reconheço que a França é grande, a França tolera, rende-se à elementaridade das pulsões, à redenção pela estética. Grande; simples; grande como só as coisas simples.

sábado, 16 de julho de 2011

Jerry Brown is baaaaack!


As saudades que tínhamos do velho biruta! Agora impõe o ensino de "história gay" nas escolas públicas da California, decerto para gáudio e proveito do ensino privado.
Sugerimos ao veterano libelinha que avance imediatamente mais um passo: imponha o estudo do contributo dos obesos para o desfecho da Guerra Civil, e dos anões (oooops! sorry! dos "vertically challenged") para a colonização da Ilha da Páscoa.
California governor signs bill requiring schools to teach gay history: LER

A seguir no Ministério da Agricultura


Adeus paciências de cartas no computador; a ordem agora é de passar ao "strip poker".

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Eurobonds em sete passos


Quando alguém, doravante, estiver em dificuldades financeiras, deve tomar de imediato algumas providências:
1) Ir comprando fiado como se nada fosse, apelando à solidariedade do merceeiro;
2) Lamentar junto dos amigos a conspiração que os comerciantes andam a fazer no sentido de modificarem os termos da relação;
3) Ameaçar o caixa do Banco que alerta para a circunstância de o dinheiro estar a acabar;
4) Lamentar junto da família o facto de ter que se pagar a comerciantes – a falta de solidariedade que representa o facto de não quererem fornecer à borla, ou fiado;
5) Lançar eurobonds, ou seja, convençer a vizinhança a avalizar umas letras para serem endossadas aos comerciantes impiedosos, por forma a que os comerciantes possam tomar por reféns esses vizinhos;
6) Lamentar, junto dos comerciantes, a falta de solidariedade dos vizinhos que não mostrarem entusiasmo pelos eurobonds;
7) Tentar regressar, o mais depressa possível, ao ponto 1).

(Na foto, o Bonde nos Arcos da Lapa, na Cidade Maravilhosa)

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Uma alegoria melancólica


Diz-se que os cães, vivendo em simbiose astuta com os humanos, tendem a olhar-lhes para as mãos. Fitar nos olhos é desafio; não olhar é desprezo; e olhar para as mãos é olhar para o extremo corporal que oferece o alimento (quando há alimento).
Diz-se, também por isso, que, quando o homem aponta, o cão continua a fixar-se na mão, e só treinado aprende a virar-se na direcção para que a mão aponta.
É forçado a perceber, ou a agir como se percebesse, e temo-lo por educado por ter passado a ser dócil, por reprimir a sua astúcia.
Hoje andamos aflitos a olhar para a mão que aponta, e educados que somos (fomos) censuramo-nos de não nos virarmos prontamente, dóceis, para onde a mão aponta. Não tinha, talvez não tenha, que ser assim.
Essa veneração por direcções é o preço da perda da nossa astúcia. Nalguns momentos deveríamos ter a fortaleza ascética de renunciarmos a tudo o que nos separa dela. Talvez, como os cães, devêssemos usar de sábia reserva na análise das mãos que apontam mais do que oferecem. É demasiado curto o tempo da simbiose.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Velho Portugal, Ring-a-Ding Ding (elegia velada)



Hoje quando soube da morte da Maria José Nogueira Pinto resolvi ler finalmente (online) a entrevista do casal Nogueira Pinto com a Anabela Mota Ribeiro.
Soube-me a Velho Portugal, um país com que deixei de cruzar-me há muito mas cujas memórias continuam a interpelar-me, filtradas agora pela doçura da distância.
Pensei em pessoas que me miravam do alto da sua absoluta elegância e me prometiam, sem mo dizer, só de eu vê-las, que havia uma travessia que se chamava idade adulta, que estava repleta de recantos sombrios e de reverberações de Frank Sinatra, que gravitavam serenamente entre a Baixa de dia e as Avenidas ao anoitecer.
Eu não podia saber que aquela estranha sensação de imobilidade radiante escondia uma outra cidade e um outro país que outrora pulsara e sofrera de modo inteiramente distinto. Vivi-o como um super-organismo, como imagino que as formigas viveriam as suas inevitabilidades deterministas se pudessem ter a consciência disso; a inefável elegância a que eu aspirava era o prolongamento artificial de um instantâneo, era o momento de doce alienação que, no grande sanatório da neurose adulta, precede imediatamente o abandono e a frustração.
Claro que houve muitos outros países a precederem este, a conviverem com este, a regatearem com este uma identidade, finalmente a submergirem este – e todos se chamaram Portugal. O meu nem sequer é o Velho Portugal, chamo-o assim porque me sinto velho contemplando os olhos morenos que já não fitam, mas outrora fitando-me anunciavam silenciosos um país de promessas e possibilidades, um país que julguei que continha mais sonhos do que os sonhos que cabiam na minha ingenuidade.

Rating de lixo: ainda a procissão vai no adro


O que preocupa não é a percepção da insustentabilidade do endividamento português. Grave mesmo é apenas a obstinação na recusa de identificação da causa, que nos impedirá, por demasiado tempo, de tomarmos o remédio: o mesmo que aplicámos, sempre com resultados, nos últimos 200 anos, ou seja a desvalorização monetária. O tempo que demorarmos a chegar lá é um prolongamento inútil da agonia. No fim não morreremos: não é desta que o país morre. Mas andaremos inutilmente sacrificados, buscando em sucedâneos homeopáticos aquilo que há muito nos tem servido de remédio, e que por uma estupidez delirante nos comprometemos a deitar fora.

domingo, 3 de julho de 2011

"Os cretenses chegaram a NY", ou, "Do chafurdo também nasce filosofia"


Entre despedidas, aeroportos, bagagens, perde-se sempre algum contacto com os eventos, mas pareceu-me que o Sr. Strauss-Khan estaria a ser ilibado através do "character assassination" da vítima. Nada de novo - menos ter percebido, na passagem fugaz por um telejornal, que a vítima estaria descredibilizada por ter feito telefonemas a um traficante de droga.
Fazer telefonemas a um traficante de droga é coisa que não se recomenda; mas é bem a primeira vez na vida que oiço sugerir que fazer telefonemas a um traficante de droga é incompatível com a existência de um crime de violação.
Tentemos ver onde nos leva o postulado implícito na asserção.
Primeiro corolário (corolário epistemológico): quem faz telefonemas a traficantes de droga é incapaz de falar verdade; como os cretenses de outrora, a verdade não habita em gente dessa, e se tivesse sido a Sr.a guineense a asseverar que o Sr. Khan tinha fugido para o Aeroporto, ficaríamos a saber que, não obstante ele ter fugido para o Aeroporto, contudo não tinha fugido, porque a verdade se deduz simplesmente do oposto do que ela assevera, poupando-nos à observação de qualquer facto complementar. Todos os cretenses são mentirosos, ergo… (o problema, recordarão os mais eruditos, surgia quando a frase era proferida por um cretense…)
Segundo corolário (corolário ontológico): quem faz telefonemas a traficantes de droga é sub-humano, e portanto o assalto sexual será quando muito bestialidade, mas não é violação. Uma mulher que tenha esse pecado do telefonema no seu currículo vale menos do que uma germânica aos olhos dos cossacos de 1945. É para ser brutalmente despachada, sem apelo nem agravo - pois nenhuma justiça do mundo reconhecerá que ela foi vítima de violação. Por mais que sofra, mulher que telefona a traficantes de droga (horresco referens) é juridicamente inviolável, por mais violada que tenha sido efectivamente, isto é, por mais que o tenha experimentado no desprezível plano dos factos.
E assim vamos no melhor dos mundos! (ou, A falta que nos faz um novo Voltaire!)

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