O novo Ashram minimalista
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Bandaison
Por muito tempo, nos idos de 70, segui a explosão punk / new wave comprando o "Rock & Folk" – e passei indiferente pelos encómios aos Téléphone, que julguei serem, naquela revista franglaise a resposta "moche" e plagiária à explosão cirtiva de l'autre cotê de la Manche.
Mas um dia, anos mais tarde, ouvi Louis Bertignac servindo de acompanhante / mentor de Carla Bruni, e fiquei rendido. Os números do "Rock & Folk", já os tinha perdido.
Aqui neste clip não o ouvimos, mas apenas a Mrs. Tedeschi numa chanson paillarde, o hino profano de Georges Brassens à erecção.
Pensar que é Primeira Dama, sacrebleu! Imagino outras primeiras damas a cantar coisas do género, não imagino, e reconheço que a França é grande, a França tolera, rende-se à elementaridade das pulsões, à redenção pela estética. Grande; simples; grande como só as coisas simples.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
sábado, 16 de julho de 2011
Jerry Brown is baaaaack!
As saudades que tínhamos do velho biruta! Agora impõe o ensino de "história gay" nas escolas públicas da California, decerto para gáudio e proveito do ensino privado.
Sugerimos ao veterano libelinha que avance imediatamente mais um passo: imponha o estudo do contributo dos obesos para o desfecho da Guerra Civil, e dos anões (oooops! sorry! dos "vertically challenged") para a colonização da Ilha da Páscoa.
California governor signs bill requiring schools to teach gay history: LER
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Eurobonds em sete passos
Quando alguém, doravante, estiver em dificuldades financeiras, deve tomar de imediato algumas providências:
1) Ir comprando fiado como se nada fosse, apelando à solidariedade do merceeiro;
2) Lamentar junto dos amigos a conspiração que os comerciantes andam a fazer no sentido de modificarem os termos da relação;
3) Ameaçar o caixa do Banco que alerta para a circunstância de o dinheiro estar a acabar;
4) Lamentar junto da família o facto de ter que se pagar a comerciantes – a falta de solidariedade que representa o facto de não quererem fornecer à borla, ou fiado;
5) Lançar eurobonds, ou seja, convençer a vizinhança a avalizar umas letras para serem endossadas aos comerciantes impiedosos, por forma a que os comerciantes possam tomar por reféns esses vizinhos;
6) Lamentar, junto dos comerciantes, a falta de solidariedade dos vizinhos que não mostrarem entusiasmo pelos eurobonds;
7) Tentar regressar, o mais depressa possível, ao ponto 1).
(Na foto, o Bonde nos Arcos da Lapa, na Cidade Maravilhosa)
sábado, 9 de julho de 2011
sexta-feira, 8 de julho de 2011
Uma alegoria melancólica
Diz-se que os cães, vivendo em simbiose astuta com os humanos, tendem a olhar-lhes para as mãos. Fitar nos olhos é desafio; não olhar é desprezo; e olhar para as mãos é olhar para o extremo corporal que oferece o alimento (quando há alimento).
Diz-se, também por isso, que, quando o homem aponta, o cão continua a fixar-se na mão, e só treinado aprende a virar-se na direcção para que a mão aponta.
É forçado a perceber, ou a agir como se percebesse, e temo-lo por educado por ter passado a ser dócil, por reprimir a sua astúcia.
Hoje andamos aflitos a olhar para a mão que aponta, e educados que somos (fomos) censuramo-nos de não nos virarmos prontamente, dóceis, para onde a mão aponta. Não tinha, talvez não tenha, que ser assim.
Essa veneração por direcções é o preço da perda da nossa astúcia. Nalguns momentos deveríamos ter a fortaleza ascética de renunciarmos a tudo o que nos separa dela. Talvez, como os cães, devêssemos usar de sábia reserva na análise das mãos que apontam mais do que oferecem. É demasiado curto o tempo da simbiose.
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Velho Portugal, Ring-a-Ding Ding (elegia velada)
Hoje quando soube da morte da Maria José Nogueira Pinto resolvi ler finalmente (online) a entrevista do casal Nogueira Pinto com a Anabela Mota Ribeiro.
Soube-me a Velho Portugal, um país com que deixei de cruzar-me há muito mas cujas memórias continuam a interpelar-me, filtradas agora pela doçura da distância.
Pensei em pessoas que me miravam do alto da sua absoluta elegância e me prometiam, sem mo dizer, só de eu vê-las, que havia uma travessia que se chamava idade adulta, que estava repleta de recantos sombrios e de reverberações de Frank Sinatra, que gravitavam serenamente entre a Baixa de dia e as Avenidas ao anoitecer.
Eu não podia saber que aquela estranha sensação de imobilidade radiante escondia uma outra cidade e um outro país que outrora pulsara e sofrera de modo inteiramente distinto. Vivi-o como um super-organismo, como imagino que as formigas viveriam as suas inevitabilidades deterministas se pudessem ter a consciência disso; a inefável elegância a que eu aspirava era o prolongamento artificial de um instantâneo, era o momento de doce alienação que, no grande sanatório da neurose adulta, precede imediatamente o abandono e a frustração.
Claro que houve muitos outros países a precederem este, a conviverem com este, a regatearem com este uma identidade, finalmente a submergirem este – e todos se chamaram Portugal. O meu nem sequer é o Velho Portugal, chamo-o assim porque me sinto velho contemplando os olhos morenos que já não fitam, mas outrora fitando-me anunciavam silenciosos um país de promessas e possibilidades, um país que julguei que continha mais sonhos do que os sonhos que cabiam na minha ingenuidade.
Rating de lixo: ainda a procissão vai no adro
O que preocupa não é a percepção da insustentabilidade do endividamento português. Grave mesmo é apenas a obstinação na recusa de identificação da causa, que nos impedirá, por demasiado tempo, de tomarmos o remédio: o mesmo que aplicámos, sempre com resultados, nos últimos 200 anos, ou seja a desvalorização monetária. O tempo que demorarmos a chegar lá é um prolongamento inútil da agonia. No fim não morreremos: não é desta que o país morre. Mas andaremos inutilmente sacrificados, buscando em sucedâneos homeopáticos aquilo que há muito nos tem servido de remédio, e que por uma estupidez delirante nos comprometemos a deitar fora.
domingo, 3 de julho de 2011
"Os cretenses chegaram a NY", ou, "Do chafurdo também nasce filosofia"
Entre despedidas, aeroportos, bagagens, perde-se sempre algum contacto com os eventos, mas pareceu-me que o Sr. Strauss-Khan estaria a ser ilibado através do "character assassination" da vítima. Nada de novo - menos ter percebido, na passagem fugaz por um telejornal, que a vítima estaria descredibilizada por ter feito telefonemas a um traficante de droga.
Fazer telefonemas a um traficante de droga é coisa que não se recomenda; mas é bem a primeira vez na vida que oiço sugerir que fazer telefonemas a um traficante de droga é incompatível com a existência de um crime de violação.
Tentemos ver onde nos leva o postulado implícito na asserção.
Primeiro corolário (corolário epistemológico): quem faz telefonemas a traficantes de droga é incapaz de falar verdade; como os cretenses de outrora, a verdade não habita em gente dessa, e se tivesse sido a Sr.a guineense a asseverar que o Sr. Khan tinha fugido para o Aeroporto, ficaríamos a saber que, não obstante ele ter fugido para o Aeroporto, contudo não tinha fugido, porque a verdade se deduz simplesmente do oposto do que ela assevera, poupando-nos à observação de qualquer facto complementar. Todos os cretenses são mentirosos, ergo… (o problema, recordarão os mais eruditos, surgia quando a frase era proferida por um cretense…)
Segundo corolário (corolário ontológico): quem faz telefonemas a traficantes de droga é sub-humano, e portanto o assalto sexual será quando muito bestialidade, mas não é violação. Uma mulher que tenha esse pecado do telefonema no seu currículo vale menos do que uma germânica aos olhos dos cossacos de 1945. É para ser brutalmente despachada, sem apelo nem agravo - pois nenhuma justiça do mundo reconhecerá que ela foi vítima de violação. Por mais que sofra, mulher que telefona a traficantes de droga (horresco referens) é juridicamente inviolável, por mais violada que tenha sido efectivamente, isto é, por mais que o tenha experimentado no desprezível plano dos factos.
E assim vamos no melhor dos mundos! (ou, A falta que nos faz um novo Voltaire!)
quinta-feira, 30 de junho de 2011
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Alvaro e as estrangeirices
O Ministro-qualquer-coisa quer ser chamado pelo nome próprio, e percebe-se-lhe o tique estrangeirado. Compreendo o alarme social, num país em que todos temos nomes longos como os dos príncipes, e vergamos ao peso dos títulos.
Relativizemos:
a) Na Alemanha a coisa é bem pior, e os pedigrees aparecem incorporados no nome, com arte e panache: as pessoas anunciam-se a elas mesmas com os títulos de nobreza de sangue ou noblesse de robe, e transbordam de vaidade com isso.
b) Na tradição anglo-saxónica predominam efectivamente (com excepções) os nomes curtos e a igualização do "Mr.". Mas que ninguém se iluda com a forma: tentem alguma familiaridade com esses ornamentos da nação de "windbags" e de "arrogant pricks", e verão o que vale o tão republicano "Mr."…
Por mim, uma nação de "Drs.", agora arvorados em "mestres bolonhenses", serve-me perfeitamente: se isso os alegra, se isso lhes incute algum sentido de civilização, tanto melhor, é preferível a cuspirem na sopa ou a baterem na patroa e nos catraios. Quando acabarmos de sair do século XIX, coisa que ainda não conseguimos alcançar, talvez nos lembremos de prestar menos atenção à ostentação de privilégios – sobretudo quando, vencido o analfabetismo maciço, eles deixarem de ser verdadeiros privilégios.
domingo, 26 de junho de 2011
Eu hoje acordei no Índico…
… a concordar com mais uma verdade incómoda, daquelas que só são proferidas por pessoas livres: o que nós compramos na instrução básica dos nossos filhos não é tanto educação como segregação (ANA).
Pensar que se muda isto é puramente utópico: isto nunca mudará. Pior ainda, países mais "evoluídos" do que o nosso prolongam essa segregação até ao ensino superior (e o mesmo sucederia por cá, se o ensino superior privado não fosse o que é).
sábado, 25 de junho de 2011
DNA, FHC e Tragédia (ao modo Burlesco)
Quiçá para enfunar as velas da sua visibilidade, decaídas na calmaria do seu ocaso, Fernando Henrique Cardoso deve ter-se lembrado de Agamemnon em Áulis e resolveu também ele sacrificar propiciatoriamente a prole, no caso um filho "fora do casamento", no holocausto da opinião pública (felizmente, hoje as vitimizações tendem a ser menos literais).
O paralelo não termina aqui, curiosamente: tal como o velho Agamemnon encornado, e depois morto, em Micenas, por Clitemnestra – "hubris" ou vingança da filha Ifigénia? – também o nosso patusco FHC acaba de saber que o filhote, o mesmo que ele vergonhosamente arrancara do anonimato… afinal não era dele!
A moderna Cassandra foi rebaptizada DNA, e a ela os méritos do dénouement: LER
Próximos episódios: outro filho de FHC (Orestes ou o seu equivalente) sai a vingar esta morte simbólica da masculinidade paterna, para por sua vez sair de cena acossado pelas fúrias benevolentes (na sua versão moderna, os jornalistas)?
Esperemos um Ésquilo brasileiro à altura para relatar tudo isso (com uns pozinhos de Petrónio, comme il faut para os tempos que correm).
Uma nova frente de resistência?
Muito judiciosas as observações de Ferreira do Amaral sobre a inevitabilidade da saída do Euro, e em especial a referência a uma crónica indecisão, uma dificuldade em tomar-se atempadamente as decisões, quando elas têm ainda custos e impactos colaterais limitados, quando ainda é possível manter uma margem de decisão e razoabilidade.
Adaptando a velha boutade, ao contrário dos Bourbons esquecemo-nos de tudo; mas, como os Bourbons, obstinamo-nos em não aprender absolutamente nada.
Vamos acabar por beber o cálice do Euro quando ele já se tiver tornado venenoso. É melhor contarmos com isso.
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Xylofene político; ou, no fim sou eu que não presto
Na viradeira dos últimos dias temos visto entrar em transe, como sempre entra, muito "Adventista da 23ª Hora" e muita "Virgem Refeita". E mesmo os ícones mais encardidos têm sido desinfestados, desempoeirados e polidos ao seu pristino fulgor – como também invariavelmente sucede. O fervor predomina.
Na voragem tropeça-se na memória, contudo, e essa às vezes é embaraçosa.
Há uns anos uma pessoa dirigiu-se a um serviço que eu mais ou menos ordenava, a oferecer os seus préstimos. Como essa pessoa era jubilada, estava entendido que ofereceria gratuitamente os seus talentos. Antes de sair pede para dar-me uma palavrinha, e a palavrinha era a ver se arranjávamos um meio de lhe pagar por debaixo da mesa. Como eu gosto muito de situações dessas, comecei logo a gozar o prato e disse que tinha que haver papelada; sugeriu então a venda de bens inexistentes, digamos assim o equivalente a uma facturação falsa. Pessoa inteligente, a certa altura alega pressa e sai; até hoje, e já lá vão mais de dez anos, estamos (melhor: outros estão) à espera do brinde dos seus talentos.
Nos últimos dias vi que aspergiram Xylofene nesse ícone outrora carunchoso, e vejo-o agora a brilhar imensamente por sobre a Grei.
A democracia é assim: renova, releva, refaz, redime, repristina.
Mais uma razão para, durante a viradeira, estarmos todos compelidos a não dizer mal dos novos santinhos, fresquinhos e engomados que surgem nos altares da devoção popular.
Todos, não, que há sempre um ou outro como eu: que não presta, que diz mal, que só se lembra de inconveniências.
Haverá forma mais simples de dizê-lo?
Had I the heavens' embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.
W.B. Yeats, 'He Wishes for the Cloths of Heaven'
domingo, 19 de junho de 2011
Questionário literário
Interpelado por Carla, aqui vai:
1. Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
A Recherche, de Marcel Proust. Da próxima vez, vou relê-lo acompanhando a leitura gravada dos primeiros livros (uma gravação que obtive há pouco tempo).
2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Inúmeros. Destacam-se o Ulysses, de James Joyce, por desfocado e chato; e Alexander to Actium, de Peter Green, por fascinante mas demasiado denso.
3. Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Da capo (i.e., vide # 1).
4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Muitos. Exemplos: Felix Krull, de Thomas Mann; O Milagre Segundo Salomé, de Rodrigues Miguéis; Manuscrit Trouvé à Saragossa, de Jan Potocki.
5. Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?
Possession, de A.S. Byatt.
6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
BD, Henry de Monfried, Alphonse Daudet – estilo pictórico-onírico-bucólico, variações sobre o escapismo, portanto, sem grande propósito de edificação moral (felizmente).
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Amor de Perdição, Camilo. Porque sou português.
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Os que fazem sonhar, que arrebatam, que acompanham. Os que o fazem mesmo, não os que a reputação e o comércio dizem que fazem (detesto modas literárias, abaixo Bolaño!).
9. Que livro estás a ler neste momento?
Estive a ler no avião o 1822 do Laurentino Gomes. Divertiu-me mais o 1808. Nos próximos dias não vou ler nada de livros.
10. Indica dez amigos para responderem a isto.
Os amigos dos meus amigos meus amigos são. Indico portanto a Miss_Pearls e ela que indique 19 amigos, que os tem (9 por mim + 10 por ela). Fico-lhe desde já agradecido.
sábado, 18 de junho de 2011
Eu e Yeats
Com um grupo de sofisticados e divertidos paulistanos, falámos de Yeats, e a conversa interpelou-me, genuinamente.
Transportei-me mentalmente para o paralelo de
The children learn to cipher and to sing,
To study reading-books and histories,
To cut and sew, be neat in everything
In the best modern way - the children's eyes
In momentary wonder stare upon
A sixty-year-old smiling public man.
Uma passagem que vivo subliminarmente, mutatis mutandis, quase no dia a dia, na sua literalidade e no simbolismo de me sentir envelhecer – contra os meus desejos, como Yeats.
O who could have foretold
That the heart grows old?
Lembrei-me das verdades telúricas de Crazy Jane, e do florescimento dialéctico da liberdade através da rebelião das nossas servidões:
'Fair and foul are near of kin,
And fair needs foul,' I cried.
'My friends are gone, but that's a truth
Nor grave nor bed denied,
Learned in bodily lowliness
And in the heart's pride.
Lembrei-me da resistência do amor e da saudade por entre as fibras da nossa decadência e do que significa a conspiração de saudade e fidelidade e tristeza.
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face
Yeats? Tomo-o por arauto da alienação indesejada que nos vai fazendo sair de cena, um a um, num processo que não dispensa a submissão individual, a subida ao patíbulo; que não nos permite, passada a fronteira em que enfunámos as velas, regressar da Bizâncio em que os pássaros dourados chilreiam sem se cansarem porque na verdade estão mortos, exalam já (sempre) a dimensão eterna da fatalidade:
Consume my heart away; sick with desire
And fastened to a dying animal
It knows not what it is; and gather me
Into the artifice of eternity.
Um bardo para almas empedernidas pela resignação, mas reconditamente inconformadas. Lê-lo perturba cada vez mais, quanto mais envelheço (envelhecemos). Lembro-me de tê-lo dito ontem. O resto consigno-o aqui, numa pausa do meu regresso.
domingo, 12 de junho de 2011
Partida
Vou andar uns dias por fora, e já sei que a cidade vai parecer assim, à distância (tão sofisticada como Sassetti & Lins).
Saio com Sol e numa tempestade, no meio de notícias lancinantes. Imagino já todo o sofrimento acabado e pregunto de que é que ele valeu. Ficarei ao longe, ansioso com ecos, com uma resignação cansada, vendo desfilar imagens e sons numa cruel indiferença. Ninguém merece ser devorado assim, lentamente, num crescendo de dor. É tão brutal que se esfuma o próprio conceito de mérito.
sábado, 11 de junho de 2011
No paraíso da misoginia
Não bastava toda a porcaria antecedente: era possível ir mais baixo ainda, e o Sr. Strauss-Khan não hesitou. Aí andam fotografias dele a sair do tribunal e arrastando pelo braço a esposa. Não se contentou com as humilhações consumadas na penumbra dos quartos e alcovas: quis exibir a Senhora em parada, como um troféu cavernícola, talvez para ostentar, com a presença da desgraçada, fosse o perdão dela, fosse a contrição dele.
A pobre mulher até é possível que tenha perdoado, e até que o tenha feito com um nível convincente de voluntariedade.
Agora qualquer homem com um mínimo de educação, de respeito, de dignidade, teria proibido – insisto, teria proibido – que a mulher aparecesse em pública ostentação de uma desmiolada solidariedade para com alguém que acabara de admitir ter-lhe faltado ao respeito de modo objectivamente imperdoável. Em circunstância alguma poderia ela ter sido exibida desta forma – por mais que ela consentisse, ou quisesse.
Eu sei que essas ostentações chifrudas vão muito ao gosto do público americano, e parece que todo o pulha e violentador acaba por arrastar para a ribalta essas pseudo-esponjas morais duplamente vitimizadas, a tentar uma derradeira prestidigitação de valores a partir da afronta: talvez exibi-las seja o "ultimate power trip", a inebriante sensação de um género de impunidade ilusória que assenta na não menos ilusória convicção misógina de que a estupidez feminina, sendo ilimitada, tudo perdoa e apaga.
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