O novo Ashram minimalista

quinta-feira, 31 de março de 2011

Remédio contra a banalização da neurose


Porque é que é salutar ouvir-se e ler-se menos noticiários e comentários políticos? Por causa da multiplicação de “clichés, stock phrases, adherence to conventional, standardized codes of expression and conduct [that] have the socially recognized function of protecting us against reality, that is, against the claim on our thinking attention that all events and facts make by virtue of their existence.”
Hannah Arendt, The Life of the Mind, Part One: Thinking, NY, Harcourt Brace, 1978, pp. 4, 177

E aí vamos nós: superámo-nos ao fim de 160 anos...

A Coimbra Tiririca


A balofa solenidade académica, ainda ressumando a atavismos de batina e canelão, acharolou-se e paramentou-se para receber a fina-flor do populismo va-nu-pieds brasileiro, numa mútua comunhão de desvelos alimentada por uma mercenária ânsia de legitimação, de uma parte, e por um incontido apetite para o óbolo mediático e para o patrocínio político, da outra parte.
Borlados, capelados, agitados, os íncolas da Lusa Atenas não se continham no júbilo, e o sorriso afivelado em todos parecia até ameaçar a severa solenidade da ocasião, ameaçava fazer descambar o Canticorum em forró, com os bedéis em abre-alas e os archeiros em passistas.
Uma selvajaria, como o nosso Primeiro Ministro desabafou, num momento de sagacidade analítica (legitimada pelos seus próprios pergaminhos académicos). Uma selvajaria na Via Latina, o equivalente espiritualizado, o equivalente irónico e bamboleante, à queda de Constantinopla.
Imagino o espírito de severos mestres (que também tive) a revolver-se com a mera ideia deste sincretismo de batina e havaiana, de toque da Cabra e de reco-reco, de Minerva e Kardec – tudo em nome de uma implacável lógica de conveniências que nenhum rebate moral ousa perturbar. Depois disto, venha o que vier, pior do que está não fica.

Freitas como Iago


Raramente concordo com Alberto João Jardim, e por isso mesmo, nos meus momentos democráticos (que não predominam) acho indispensável a sua voz política.
Um dos momentos mais inspirados ocorreu quando, reportando-se ao neo-esquerdismo de Freitas do Amaral, se interrogou acerca do que poderia ter acontecido em Nova Iorque – querendo dizer que veio um e voltou outro (talvez lhe tenha subido à cabeça ter desempenhado por lá um papel puramente ornamental).
Infelizmente, um conhecimento mais próximo, mormente o resultante de uma leitura atenta dos depoimentos de Marcelo Caetano no exílio, permite determinar uma data muito mais recuada para o início dessa mudança de paradigma (hoje estou particularmente caridoso).
Não se espere uma contrição deste abencerragem abrilista que, de Trocado em trocado, sonhou cavalgar a onda cristã-nova e agora, serenamente, nela sobrenada, bóia:  FREITAS_25_ABRIL
Não antevejo um fim, uma suspensão, um abrandamento sequer, neste caminho atapetado que o conduzirá por sobre os espinhos do arrependimento. É por estas e por outras que o cristianismo remeteu questões de apuramento final de méritos e deméritos para um outro mundo, para uma outra dimensão.

O momento errado


Nada como os momentos mortos, de espera, sem distracções, que entrecortam as viagens, para nos angustiarmos com aqueles grandes problemas que latejam e que afadigadamente escondemos na nossa rotina.
Pus-me a pensar nisso num quarto degradado de um grande hotel em Copacabana, e de como sonhei uma cidade diferente, e de como teria gostado de partilhar a sua descoberta, e de como assim, na fria indiferença da viagem de trabalho, passou a contar somente o facto de estar a chover, e de eu não encontrar dentro de mim qualquer forma de redenção para esse facto.
Sei que amanhã voltarão a azáfama, o alarido, a retórica, a pose e as vénias e os aplausos, mas nada disso reporá este vazio inexplicável do viajante forçado, caído num cenário cuja beleza se perdeu, numa perda que pode ser somente a do próprio olhar, ou o aflorar de algo mais vasto e preocupante por entre as brechas da rotina.

Cenário para um filme com Greta Scacchi (e um fundo sonoro por associação livre)

 

Nós é o défice: mas há povos com problemas mais graves...

domingo, 27 de março de 2011

O amor pelo que não experimentamos


Bombardeado com questões queirosianas – e eu que não sou especialista –, apercebo-me de uma veneração que já é mais genuína e sólida no Brasil do que entre nós. Uma única vantagem nos resta, a de podermos literalmente ver e respirar e calcorrear a topografia queirosiana, preenchendo com mais vivência directa o que está sugerido e aberto no texto – mas, quem sabe, matando também um pouco, com isso, aquela cor intensa que têm os lugares puramente imaginados, aqueles compósitos de experiências purificadas, desprovidas do cheiro, do peso, do ruído, da respiração, da humidade, das distracções, das memórias, das dores, das pressas, que se acastelam à nossa passagem física por lugares reais.

Vamos aos chineses, como diz Futre


Cá pela estranja olha-se para Portugal com um misto de condescendência e de ironia – não deixa de se ler os achincalhos de artigos como o do WSJ, e as pessoas perguntam o que é que fizemos da entrada para o paraíso que dissemos a todo o mundo que seria a nossa adesão à EU. Olham para nós como nós próprios olhamos para o Paulo Futre: vêem-nos a esbracejar no meio de uma verborreia incongruente e, mal contendo o riso, perguntam-nos o que fica de concreto em conclusão de tão grandiloquente e duradoura proclamação de desígnios proto-providenciais.
Sou acometido de um sentimento que não experimentava desde os idos de 1975: sinto uma certa vergonha de ser português, de viver no meio de cafres que, ansiosos de salvação, se agitam na escolha entre velhos e novos coveiros, como se entre novos e velhos houvesse mais diferença do que a da vez na alternância com que vão assestando a sacholada, com que vão afundando a cova.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Escapismo em grande



No terraço em Seattle: para Oeste, as enigmáticas Olympic Mountains, a caminho do Pacífico. Para Sul, o imponente Mount Rainier.
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Uma maravilha.

Vitória em Estalinegrado


Não vejo motivo nenhum de celebração na queda do Governo, por mais justificada que ela seja. O eleitor mediano é tão estúpido e atordoado que vai votar em mais do mesmo.

O peculiar entendimento do Sr. Mia Couto quanto a «solidariedade geracional»


Enviaram-me por email um texto, atribuído a Mia Couto, no qual ele escarnecia da «geração à rasca», acusando-a de ela ser privilegiada e nada mais andar a fazer do que a reclamar a perpetuação desses privilégios.
Era suposto o país ter evoluído, mas pelos vistos a cabeça pensante acha que a evolução é um «privilégio» cuja protecção não se justifica. O Sr. Mia Couto entende, portanto, que deveríamos permanecer destituídos e boçais para sempre, porque isso é que, presume-se, é para ele a nossa natureza de base, a autêntica, «sem privilégios». Pior, entrevê-se na argumentação algum laivo do pior platonismo político – o repúdio da ideia de que os filhos possam ser diferentes ou melhores do que os pais, a mesma ideia que amarrou por milénios algumas sociedades retrógradas à lógica hereditária das «castas» (és filho de sapateiro? sapateiro serás! Pergunta-se: o Sr. Mia Couto não viverá melhor do que os seus progenitores? Isso ele não revela...)
Percebe-se ao que vem o «intelectual», e o que o angustia. Uma sociedade que progride, que se educa, que reclama o «privilégio» de mais prosperidade e educação, uma sociedade que retira os espinhos e sacode as brenhas do embrutecimento, é uma sociedade menos susceptível de se embasbacar com as «geniais criações» do Sr. Mia Couto, é menos clientela a despachar-lhe os livrinhos, é menos dinheiro em caixa...
Nosferatu também não suportava iluminações e tinha que recolher antes da alvorada. Estranho que não lhe tenha ocorrido definir a luz diurna como um «privilégio» que as suas potenciais vítimas não teriam legitimidade para reclamar. O vampiro tinha, em matéria de parasitismo e descaramento, algo a aprender com o nosso opinativo «escritor».

EM TEMPO: Parece que não é de Mia Couto. Pouco importa, põe-se aspas e aplica-se àquele que usou o nome (tanto me faz que seja o genuíno ou que seja a imitação): LER

De Freud a Newton e à cosmogonia ambientalística: o novo Doutor «Honoris Causa» de Coimbra


terça-feira, 22 de março de 2011

Um final arrebatador


Come, my friends,
’Tis not too late to seek a newer world.
Push off, and sitting well in order smite
The sounding furrows; for my purpose holds
To sail beyond the sunset, and the baths
Of all the western stars, until I die.
It may be that the gulfs will wash us down:
It may be we shall touch the Happy Isles,
And see the great Achilles, whom we knew.
Tho’ much is taken, much abides; and tho’
We are not now that strength which in old days
Moved earth and heaven, that which we are, we are;
One equal temper of heroic hearts,
Made weak by time and fate, but strong in will
To strive, to seek, to find, and not to yield.

Ulysses
(Alfred, Lord Tennyson)

domingo, 20 de março de 2011

O Teorema de Coase

Um filme genial


Hoje vi um filme genial, o britânico Four Lions. Um filme que trata do fundamentalismo islâmico e é capaz de ser alternadamente trágico, cómico e ternurento, de cair em clichés e de gozar com eles – tem que ser um filme extraordinário. Aliás, quase bastava, para isso, ser imprevisível e fugir do marasmo no qual caíram 99,9% dos filmes actuais.

sábado, 19 de março de 2011

Posso escolher a prenda para o dia do pai? (3)

Posso escolher a prenda para o dia do pai? (2)


 

Posso escolher a prenda para o dia do pai? (1)



Ofício de comentador


Curioso o pânico contido dos comentadores habituais perante a manifestação «demagógica» dos «à rasca». Tudo o que não venha já «enlatado» e «entalado» pelo espartilho oligárquico, pela disciplinazinha partidocrática, pelo respeitinho pela marca registada, merece a mais viva repulsa, que a ordem estabelecida à sombra dos «idola fori» estrebucha quando se sai fora do figurino.
«Espontaneidade», essa, só a encomendada pelos monopolistas da coisa, os detentores do alvará «revolucionário», que vão tocando a carneirada por praças e avenidas ao rufar saudoso dos tambores de há 35 anos. Coisa de mor espanto - não é? -, que não se protesta já como soía!
Ocorre-me a ideia de «wohlgeordnete Freiheit», a liberdade bem-ordenada a que aludia Kant - o mesmo que venerava Jean-Jacques Rousseau e ironicamente reconhecia que a paz perpétua pode designar tanto um projecto nobre e remoto como as campas de um cemitério, desenhadas na tabuleta de um albergue.

Libertações

Durante uma época terrível morreram-me diversos amigos. Agora, felizmente, só perco aqueles que não me reconhecem o direito de trabalhar, ou seja, aqueles que têm ciúmes do meu trabalho e do meu tempo. Antes assim, ninguém sofre, e eu continuo a trabalhar livre deles, que para o trabalho não tenho, infelizmente, uma alternativa disponível.

Cachaça não é água, não

A Lusa Atenas, sempre atenta aos desígnios do mundo,vai conceder o "doutoramento honoris causa" ao ex-presidente Lula. Dos méritos científicos do agraciado só conhecemos a perícia etílica, pelo que nos perguntamos se não seria de atribuir o galardão um pouco mais para norte, na Bairrada, sob o alto patrocínio de Luís Pato e com abundantes saúdes ao deus Baco.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Nem tudo é mau

Nussbaum e o otium cum dignitate


Martha Nussbaum reflecte sobre o empenhamento dos académicos na política, e remata com uma corajosa objecção. Sim, há Cícero, mas há também Platão em Siracusa e Heidegger em Freiburg. Há uma outra dimensão de realização pessoal e colectiva que não tem que ficar presa ao registo dessa servidão glorificada que inebria os «clercs» no caminho da «trahison». LER

Subsidiar a formação de Cartéis (bailinho jurídico)


Sempre imaginei que a lei comunitária, tanto ou mais do que a lei portuguesa, fosse oposta à formação de cartéis, ou seja, àquelas combinações que visam repartir zonas de distribuição ou restringir a produção total para alcançar, com isso, algumas rendas monopolísticas.
Sempre imaginei que era em larga medida o combate aos cartéis que animava o direito europeu da concorrência e justificava a existência de Autoridades da Concorrência.
Erro meu: os cartéis existem às claras, são apoiados pelos governos da zona PIGS e pretendem até ter o apoio comunitário – é o que sucede com a produção de azeite, que pelos vistos todos apoiam que deva ser cartelizada, e deva sê-lo de forma subsidiada.
Melhor, duplamente subsidiada: primeiro pela UE, depois pelos consumidores, que suportarão a subida de preços. Não é em vão que, no norte, «azeiteiro» tem outro sentido... LER

Muitos anos de inalação de pó branco deram cabo dos neurónios de Benicio del Toro


Foi para Cuba enaltecer as virtudes concentracionárias daquela cloaca caribeña: LER

Um sonho realizado

Não é todos os dias que realizamos um sonho há muito alimentado. Hoje (ontem) vi Kurt Elling ao vivo, num concerto absolutamente fantástico, delirante, triunfante. Não me lembro de ter visto melhor do que isto; melhor do que o sonho.

quarta-feira, 16 de março de 2011

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