O novo Ashram minimalista

sexta-feira, 4 de março de 2011

Estou a ver mal ou não ando bem da cabeça? (1)


Vi o documentário "Inside Job" e saí de lá com uma dúvida: todas as culpas são assacadas à desregulação, mas conclui-se que, onde havia regulação, os reguladores não fizeram nada. Serei eu o único a ter notado aqui uma contradição?

quarta-feira, 2 de março de 2011

terça-feira, 1 de março de 2011

Os Alemães São Loucos, ou, O Caso do Barão Trepador


Lê-se que o ministro da Defesa germânico, o Barão Carlos Teodoro, se viu forçado a pedir a sua demissão por ter sido apanhado num caso de plágio.
Um caso de fidalgo bem nascido… mas nascido na terra errada…
Tivesse o teutão sido gerado neste canteiro lusitano e a censura tinha sido aplauso. Com os fumos de plágio a sua carreira ascendente teria levado um impulso mais vigoroso do que se houvera fumos de santidade. E o Barão via-se a breve trecho, não alcandorado na Presidência do Ministério - que uma só falta, e para mais de plágio, lhe não dá currículo para tanto -, mas ao menos soprado para as gloriosas plagas de uma Vice-Presidência, de uma Reitoria, de uma comissão para eventos culturais.
Ó Barão, anda para Portugal, larga essa canalha tudesca que, invejosa, quer emporcalhar a veia latina que te aguçou o engenho! Anda, vais ver como é porreiro ser plagiador em Portugal, é título de honra e faz-te credor de todas as comedorias e prebendas.
Vais ser grande aqui, Carlos Teodoro; montas banca de consultor nessas matérias e num ápice verás rojados a teus pés mais santinhos e ex-votos do que os que colocam a Sousa Martins. Tens a vida garantida, "no público" ou "na privada".
Aqui vais sentir-te entre irmãos, e renegarás asinha esses fariseus que presumiram de censurar-te e de desdenhar o modo esforçado como procuraste subir.
Anda, Barão plagiador, ala para este couto de trepadores: aqui ninguém enjeitará baldas dessas, aqui somos solidários, aqui sabemos o que é a vidinha, aqui precisamos de mais lideranças caldeadas nessa forja!

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O que faz falta é animar a malta


No meu modesto entender, há demasiada inteligência a correr nos blogues. Digo-o sem ironia; vejo demonstrações torrenciais de poderes argumentativos, vejo argúcias descontroladas, vejo fineza analítica e agudeza crítica, vejo juízos incisivos e sentenças molares, tudo aos magotes.
Falta porém colorido e joie de vivre, aquela pulsação dos sentidos que não se encontra em palavras, aqueles raios de luz que nos rendem ao silêncio, aquelas irradiações calorosas que não assentam em qualquer demonstração.
Talvez seja mais inteligente (ou meta-inteligente) saber suspender a inteligência quando ela não é chamada ao assunto, quando ornamenta coisas que valem mais sem ornamento. Para parafrasearmos o nosso lírico, a inteligência é uma cativa que não nos deve fazer cativos; e devemos frequentemente passar sem ela para sabermos bem o que somos.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Vermo-nos cair (2)


"Confrontados (...) com o não-linguístico, perdemos a capacidade de transcender a contingência e a dor através da apropriação e da transformação, e ficamos apenas com a capacidade de reconhecer a contingência e a dor. A vitória final da poesia na sua imemorial querela com a filosofia (...) consistiria na resignação à ideia de que este é o único tipo de poder sobre o mundo que podemos esperar ter. Porque essa seria a suprema renúncia à convicção de que, no «mundo lá fora», há uma verdade a ser descoberta, e não apenas poder e dor." – Richard Rorty, Contingency, Irony, and Solidarity (1999), 40.

A sala ao lado

 

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Estou gasto

Festa muito badalada. Por imperativo moral tinha que ir, forçando o instinto e o estado de espírito. Chego, congratulo a anfitriã e sento-me a um canto, silencioso, na companhia do noivo da anfitriã. Um jovenzinho conhecido, que me trata por "tio" (a piorar o meu estado de espírito), interpreta mal o meu momento misantrópico e vem fazer conversa. Muito gentil. Entretanto cada um que vai passando cumprimenta-me e troca comigo palavras de circunstância. O miúdo ignorava que eu era velho conhecido de quase toda a gente presente. Invejei-lhe a juventude, ainda imune a estados de espírito sombrios e a momentos misantrópicos.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Os árabes não existem

Parece revolução mas não é; revolução é coisa mais ou menos exclusiva da Europa e dos seus frutos directos, e fora disso só com licença e pagando royalties.
Revolta? Talvez nem isso, é uma sedição da moirama a soldo de inconfessáveis desígnios tirânicos – que aquela gente não ama a liberdade, que é coisa nossa também, coisa de que temos a patente e que exportamos de modo muito controlado.
Quando oiço e leio os cínicos a falarem dos movimentos de rua nos países árabes lembro-me sempre da passagem num livro recente sobre o Padre Cícero em que se descreve a reacção de um Cardeal francês às notícias de milagres no Ceará: “Impossível, Deus ia lá fazer milagres no Brasil!”, que isso dos milagres também é coisa muito nossa (Napoleão III não deixara de observar uns tempos antes que o Brasil “não é um país sério”, coisa que De Gaulle teve a cortesia de repetir; Deus deve tê-los ouvido, porque Deus é dos nossos).
Estava tentado a repetir que o tempo dirá o que resulta destes movimentos de rua nos países árabes, mas o tempo não diz nada: lembro-me de discutir com um francês por ocasião dos 200 anos da Revolução Francesa, e de ele asseverar que tudo aquilo fora exclusivamente fomentado e financiado pela revanche britânica contra o apoio francês à independência norte-americana. 200 anos passados ele não conseguia alargar os horizontes explicativos para o evento; daqui a 200 anos ainda não haverá consenso quanto ao alcance desta debandada dos tiranetes árabes; daqui a 200 anos ainda haverá perspectivas a negarem a autonomia e até a existência àqueles va-nu-pieds árabes; daqui a 200 anos ainda serão outra gente, "não os nossos"; ainda permanecerão incapazes de altos sonhos e de gestos de nobreza que em nós são tão naturais, que nos assentam tão bem.

Vermo-nos cair


O momento que mais me impressionou em Les Bienveillantes, em termos literários, é aquele em que, no cerco de Estalinegrado, a linguagem do narrador começa a turvar a congruência, começam a interpor-se umas fantasmagorias, as palavras ficam mais sincopadas e vão perdendo o nexo… até que percebemos que ele foi atingido e está a perder a consciência.
Um belíssimo texto TEXTO suscita-me apenas um reparo: pode a linguagem lúcida acompanhar a resconstituição empática de uma perda de consciência? Pode uma pessoa ver-se a ela própria a cair? Retém a linguagem o seu poderio mágico – designativo, evocativo – até ao fim? Ficam estas dúvidas sobre a artesania narrativa de uma observadora finíssima.

Avisei

 

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Salut!

A celebrar a entrada em operação de um novo computador, um monstro de velocidade e capacidade muito para além dos meus requisitos (custa a imaginar que, como o anterior, daqui a 4 anos estará obsoleto).

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Enquanto arde Constantinopla





É mesmo para pagar? Esperemos que não


Um país em recessão e que, quando resolve crescer, nunca cresce acima dos 2% (e sabe Deus) anda a endividar-se a juros anuais de 6 ou 7% para quê? A situação não admite, sequer, interpretações alternativas, e resume-se a isto: ou o país não tenciona pagar o capital mutuado e renega-lo-á mais para a frente (com a reacção que se imagina), ou então está a comprometer inteiramente a viabilidade financeira de um futuro não muito distante, e por muitas gerações. Esta é a crua realidade; ou como se diria no ambiente anglo-saxónico, esta é a realidade "sine stercore tauri".

A luta continua!





quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Velhos favoritos 2 (Patricia Barber)



if i were blue
like David Hockney's pool
dive into me and glide
under a California sky
inside your mouth and nose and eyes am i
.
if i were blue
like Edward Hopper's afternoon
lift the sash to air the breeze
let my summer flush your cheek
lie supine beneath the soft and gentle season
.
would that this were that
this is more like black
dark as darkest indigo
sickly sweet and ripe
like nothing
smothering light
.
bring on the pelting rain
palpable sensual pain
like Goya in his studio
in the thick of night
absence is
dull and silent
………………….
if i were blue
a pale Picasso blue
as beauty is to sorrow
let me cover you in sleep
and in your melancholy i would give you peace
.
if i were blue

Velhos favoritos 1


"Je vais chercher la solitude et la paix champêtre au seul lieu où elles existent en France, dans un quatrième étage, donnant sur les Champs-Élysées"
Stendhal, Le Rouge et le Noir

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Walk like an egyptian

Agora que finalmente parecem ter-se esgotado as toneladas de cinismo com as quais todo o bicho careta agoirou que os egípcios não estão maduros para a democracia (uma variantezinha do argumento que alimentou a crapulice da descolonização lusa), vamos ver o que vem a seguir. Estou curioso. Claro que a democracia comporta riscos; quando deixa de os comportar é geralmente porque foi confiscada e se converteu em pura retórica de uma oligarquia – não menos geralmente cercada da "muralha de aço" do conformismo envergonhado que é a própria raiz do cinismo político.

Ao vivo e com letra


sábado, 12 de fevereiro de 2011

Mínima: desencontros

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Vejo no Facebook uma reunião das miúdas mais giras da minha geração. Algumas foram espectacularmente poupadas, outras nem por isso. Sinto nostalgia e remorso de não ter vivido os sonhos que algumas me inspiraram. Há coisas na vida a que não devia ter sido poupado.
.

Mínima: lição

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Almocei com velhos amigos. O anfitrião, o mais exuberante, observa: "estão mais calmos, passaram por muita coisa, casamentos, separações, mortes, doenças". Tudo isso, aparentemente, acalma.
.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Mínima: notícias

.
No Egipto fez-se História. Perigosa. Como toda a História.
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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Celebrámos sem ti


Mon père, ce héros au sourire si doux,
Suivi d'un seul housard qu'il aimait entre tous
Pour sa grande bravoure et pour sa haute taille,
Parcourait à cheval, le soir d'une bataille,
Le champ couvert de morts sur qui tombait la nuit.
Il lui sembla dans l'ombre entendre un faible bruit.
C'était un Espagnol de l'armée en déroute
Qui se traînait sanglant sur le bord de la route,
Râlant, brisé, livide, et mort plus qu'à moitié.
Et qui disait: "A boire! à boire par pitié !"
Mon père, ému, tendit à son housard fidèle
Une gourde de rhum qui pendait à sa selle,
Et dit: "Tiens, donne à boire à ce pauvre blessé."
Tout à coup, au moment où le housard baissé
Se penchait vers lui, l'homme, une espèce de maure,
Saisit un pistolet qu'il étreignait encore,
Et vise au front mon père en criant: "Caramba!"
Le coup passa si près que le chapeau tomba
Et que le cheval fit un écart en arrière.
"Donne-lui tout de même à boire", dit mon père.
.
[Victor Hugo]

Faria 88 anos


Lembrei-me especialmente dele há dias, por causa do aniversário, e de tudo o que ficou por dizer e fazer, e de como fiquei para aqui um pouco à deriva, no meio dos fragmentos do abandono.
Meditei se estou a ficar mais parecido com ele, como é suposto acontecer, e concluí que sim e não. Não, porque estou a divergir nalgumas paixões intelectuais, nos rumos da minha realização pessoal, na minha aceitação de um mundo novo. Sim, porque cada vez mais percebo que foi assim mesmo que ele quis que sucedesse, e que ele batalhou discretamente para que eu, seguindo outros rumos, vendo outros horizontes, chegasse ao fim um pouco menos amargo com o mundo, um pouco mais conciliado com a vida.
Eu sempre procurei a aprovação dele e ele sempre se esquivou a dá-la, e era sempre por terceiros que eu descobria o juízo que ele fazia de mim. Percebo-o agora, não quis moldar-me, não quis que eu repetisse no meu mundo e na minha geração os temas, os valores, os erros e os confinamentos intelectuais da geração dele (que ele abominava, "estranho numa terra estranha" como ele era). De tudo o que lhe devo, e que é quase tudo, talvez o que mais releve hoje, entre os sobressaltos da saudade, é o tão pouco que lhe devo – o tanto que ele, com as aparentes reservas e recusas de aprovação, evitou doutrinar-me ou conduzir-me aos seus interesses e juízos.
O problema é que acho que ele também tinha feito isto em relação ao meu avô, e por isso em última análise sim – sim, à medida que vou trilhando o meu próprio caminho estou a ficar cada vez mais parecido com o meu pai.
-
(republicado)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Sobressalto jansenista

Hoje li (mais) umas linhas sobre Paulo de Tarso, sobre o apóstata filisteu que se fez apóstolo – e fi-lo por imperativo de consolação interior, como quem busca mais elevados exemplos por entre a imundície moral que borbulha em redor. Consolou-me a distância do impiedoso Século I, perturbou-me a hipótese de a Estrada de Damasco ser apenas uma invenção de Lucas, doeu-me o contraste com a falta de rumo e de convicção da nossa idade, submersa em auto-glorificações e micro-justificações que tudo exaltam e tudo nivelam.
Já passaram pela Terra melhores seres humanos.

Tratado das crises de meia-idade

 

Fuga





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