O novo Ashram minimalista

domingo, 16 de janeiro de 2011

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Eurinho


O Sr. Mourinho, modesto, apareceu a dizer que o facto de ter falado em português foi motivado pela consciência de que daria uma alegria aos compatriotas, numa altura em que há poucas alegrias por cá. Afasta-te Dom Sebastião, já tens sucessor! Magnânime o gesto, não me admirava que lá mais para a frente ainda o figurão tentasse cobrar-nos qualquer coisinha por isso.
Para já, e se é verdade o que ele disse, talvez fosse uma ideia saírmos do Euro, a raiz de todas as nossas actuais encrencas, e criarmos o nosso próprio Eurinho, uma homenagem ao nosso mister special one, uma moeda de que nos orgulhássemos, uma moeda eloquente.

Para levar para a nova casa

Lembrando Helen Hunt & Jack Nicholson


sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

De Ira


Nestes tempos de paixões frívolas e ridículas, refresca-me a releitura dos estóicos:
"Em breve exalaremos o nosso último sopro. Entretanto, enquanto perdurarmos, enquanto estivermos na companhia dos homens, cultivemos a humanidade. Não sejamos causa de medo ou de perigo para ninguém. Desdenhemos danos, injustiças, injúrias e escárnios e suportemos com grande ânimo os nossos males passageiros: porque, como costuma dizer-se, num esfregar de olhos já a morte nos alcançou."
Séneca, De Ira, 3.43.5

Serenemos


Música del Japón. Avaramente
De la clepsidra se desprenden gotas
De lenta miel o de invisible oro
Que en el tiempo repiten una trama
Eterna y frágil, misteriosa y clara.
Temo que cada una sea la última.
Son un ayer que vuelve. ¿De qué templo,
De qué leve jardín en la montaña,
De qué vigilias ante un mar que ignoro,
De qué pudor de la melancolía,
De qué perdida y rescatada tarde,
Llegan a mí, su porvenir remoto?
No lo sabré. No importa. En esa música
Yo soy. Yo quiero ser. Yo me desangro.

Jorge Luis Borges

Um regresso a Jorge Luis Borges


quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Constitucionalissimamente

m aplauso para a frontalidade de Luís Menezes Leitão na denúncia da balbúrdia constitucional que assola o país (AQUI)
Como a área temática anda atafulhada de gente verbosa e voluntariosa, nunca me surpreende que de lá saiam as opiniões mais díspares e contraditórias, todas alegadamente reportadas ao mesmo texto de referência – e nem que as mesmas pessoas digam uma coisa e o seu contrário, que isto na torrente das palavras (e das paixões que as motivam) às vezes perde-se o fio à meada.
Isso não é grave, e para isso é que serve o "speaker's corner" em Hyde Park: diz-se umas coisas em tom mais ou menos solene e o público vaia ou aplaude livremente enquanto não chega a hora de lanchar.
O que é grave – e mais de uma vez já o disse aqui – é que estes chilreios dogmáticos, estes trinados doutrinários à nossa Lei Fundamental, vão acabar no Tribunal Constitucional, vão converter-se em legitimações de actos concretos, com directo impacto na vida das pessoas: ora desse foro de comissários não se pode esperar nada de bom, e por mim ele era abolido imediatamente, as questões constitucionais voltavam para uma Secção do Supremo Tribunal de Justiça e ao menos passaríamos a contar com um pouco menos de servilismo perante os grandes da política.
Quanto ao resto, sim, estamos perante um Estado sério: um Estado que se encarniça tributariamente sobre quem não pode fugir, um Estado que desrespeita as suas obrigações contratuais exclusivamente para com os seus credores mais fracos. Sim, deve ser isso que designam por "socialismo"…

O problema de nascer duas vezes

Modesta questão: perguntar a um político o que ele fez ao dinheiro é insultá-lo? Entre muitos outros, Zédu e sua filhota empresária Isabel dos Santos aguardam ansiosamente pela resposta.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Proponho que este seja o novo hino nacional


Crise? Qual crise?

Tem razão o João Gonçalves (AQUI): a explosão das vendas de automóveis em Portugal para "antecipar" o "agravamento tributário", além de revelar uma preocupante falta de consciência do que são condições de mercado (ninguém aparentemente se lembrou da possibilidade de, retraindo-se a procura, os concessionários terem que suportar, ao longo de 2011, uma parte do agravamento tributário), revela uma alarvidade consumista e ostentativa que é um dos mais eloquentes testemunhos do nosso provincianismo carroceiro. E sim, o português médio não apenas trata melhor o carro do que a família: é na carroça que projecta o essencial dos seus valores de florescimento pessoal.

Para fiscalizar as contas do Estado... o Sr. Pinto Barbosa, que fiscalizava o Banco Privado Português!

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Lambuzamento virtual

Deve haver uma razão pela qual a febre infantiliza tantos os homens. Hoje sonhei acordado com wafers de baunilha, o que certamente não me sucedia há decénios. Ainda me passou pelo espírito pedir para comprá-las, mas não sei se no subconsciente não emergiu a ideia de transgressão, ou a consciência de que coisas dessas têm que ser pedidas à mamã.
Fiquei-me pelos antipiréticos, que não dão para abrir a meio para nos lambuzarmos com aquele creme hiper-calórico.

Retribuindo uma lembrança: Amor de Juventud, c/ Gal Costa & Pedro Aznar


Há fotografias que fazem sonhar... sonhar...

domingo, 2 de janeiro de 2011

Nec mergitur: the Kindness of Strangers

Agora que, como na 2ª Carta a Timóteo, quase só resta a consolação de se ter travado o bom combate e de se ter guardado a fé, já surpreende a regularidade do encómio que deixou de ser merecido (se alguma vez o foi), sobretudo numa hora de sabedoria crepuscular. Tomo-o por um gesto de empatia entre desconhecidos, esta coisa descarnada e arquetípica que o meio propiciou, acrescentando mais uma às nossas formas gregárias. OBRIGADO!

Boavental Sousa Santos, o paranólogo


"Acaba de receber uma bolsa de 2,4 milhões de euros do European Research Council para ajudar a Europa a ver o mundo." (daqui)
Um parasita encartado, portanto, a receber óbolos milionários a troco de fazer coisa nenhuma. O personagem, arrotando moedas, acha que os mercados cometem crimes contra a humanidade e alonga-se em pérolas como estas:
"Porque é que o Saddam Hussein morreu? Saddam, que foi agente dos EUA, que fez guerra contra o Irão a mando dos EUA, a quem quiseram passar tecnologia nuclear, começou a cometer um erro: começou a ver a debilidade do dólar e a querer pôr grande parte das suas reservas de petróleo em euros."
&
"Mas o WikiLeaks tem algumas debilidades. Uma que é conhecida é que Israel foi poupado. Toda a gente esperava que, havendo uma libertação de documentos, Israel fosse o país mais embaraçado. Suspeita-se hoje que havia um acordo entre o Julian Assange e o primeiro-ministro israelita. Por vontade de Julian Assange? Porque a Mossad é uma agência de serviços secretos que não olha a meios para destruir os seus inimigos? Nunca saberemos."
Nunca saberemos, ó Boaventura? Porquê esse súbito assomo de modéstia? Viraste céptico, camarada? Então não é a Mossad que faz tudo acontecer no mundo? Não sabes que foi ela que lançou uns tubarões no Mar Vermelho para embaraçar o turismo egípcio? Esse teu cepticismo torna-te suspeito, ó camarada! Às tantas os 2,4 milhões de euros são financiamento de Telavive…
Não sabes? Ora, ora, não sejas modesto, tu mesmo me enviaste esta fotografia do colectivo do Wikileaks:

The Joker (they call me Maurrrrice): Kurt Elling revisita a Steve Miller Band


quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Um balanço


Quando as coisas se desmoronam lentamente nós nem damos por isso, animamo-nos por pequeninas comparações optimistas de curto prazo e juntamo-las num sofisma de composição, que, tudo espremido, talvez não seja senão a projecção do nosso optimismo a recobrir o vago pressentimento da queda.
Depois vem a altura dos balanços e aí a simples comparação com o momento paralelo do ano anterior revela, assim de rompante, tudo o que corrompeu e tudo o que se perdeu.
Podia ser um exercício de catarse e sublimação, o banho lustral do eterno retorno que fica consagrado nas disposições para o ano novo: mas não, o de 2010 foi demasiado deprimente para que a sua sombra não se projecte para 2011, a comprometer a nova arrancada.
Esperemos pela primavera, ao menos esperemos com aquela hipnótica auto-sugestão das pequenas comparações sazonais, a esperança materialista e corajosa que há muitos séculos se baptizou de epicurista.
Esta queda ao "ralenti" há-de apanhar-nos a todos? Decerto, mas ao menos não convertamos a consciência disso no pretexto para uma ansiedade neurótica e inerme.

Mulheres-soldado no Afeganistão (que diz isto sobre a nossa civilização?)



quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Ronald Coase faz hoje 100 anos

O mais influente economista dos últimos 100 anos... faz hoje 100 anos!!
Happy Birthday!!
E veja-se o espectáculo da ironia aos 93: http://www.law.uchicago.edu/node/1291

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Últimos cartuchos

Para o ano pode ser que já não haja, brindemos ao ano novo com os tesouros que restam (e uma saúde ao Alberto João, que se prepara para ultrapassar Oliveira Salazar em longevidade governativa).

What more in the name of love?

Claro que todos sabíamos da burla, mas agora os números aparecem mais nítidos do que nunca. Uma ONG ligada ao cantor Bono "sacou" 9 milhões de euros de contribuições e entregou 135 mil aos necessitados em África; 8 milhões foram gastos no interior da própria organização, e a diferença... a algum bolso há-de ir ter parado. Da próxima vez que os U2 voltarem por cá vão todos, seus trouxas, ao beija-mão dessas celebridades beneméritas!

Notícias do paraíso

Depois de fazer batota desde a primeira jogada, o batoteiro fica indignado se lhe sugerem que não é bom jogador (já que confunde jogo com batota).
Andamos com o orgulho ferido de nos dizerem que não devíamos fazer parte da Zona Euro - e nem nos lembramos que fora dele recuperaríamos de imediato a desvalorização cambial, a nossa secular panaceia economico-financeira. O orgulho ferido e a teimosia vão acabar por ficar-nos muito caros...
Moral da história: mais vale jogar limpinho à lerpa num banco de jardim do que fazer batota ao bacará...

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Devo ter nascido três vezes

"É preciso nascerem duas vezes para serem mais honestos do que eu", diz aquele prognata que quer enganar o país como outrora enganou a academia (o puro acaso da morte prematura de Alfredo de Sousa não permitiu que se soubesse mais sobre o caso).
A sua honestidade dita, entre outras, que promulgue o casamento de pessoas do mesmo sexo enquanto, por entre um chorrilho de argumentos cretinos, assevera discordar da ideia; que lamente a situação do país como se fosse uma virgenzinha no processo que conduziu até aqui; que rosne contra a retirada do bolo-rei orçamental ao ensino privado, quando houve uma dependência directa perante esse mesmo sector parasitário da úbere teta das Finanças.
O tiro sai errado quando se fala do BPN, porque aí as provas são escassas (embora se saiba das suas visitas diárias, por longos anos, ali a Palhavã). Por mim, dispenso provas de desonestidade pessoal e basta-me a pública e notória desonestidade política, se me é permitida a redundância; e a impressão, há muito firmada, de que uma conduz à outra.
Como costuma dizer-se, isto não está para gente séria. No que respeita a este neo-paladino da honestidade, por mim replicar-lhe-ia, com toda a estima pessoal, que politicamente ele não nasceu nem três nem duas vezes: nasceu uma vez a mais.

The Waking


I wake to sleep, and take my waking slow.
I feel my fate in what I cannot fear.
I learn by going where I have to go.

We think by feeling. What is there to know?
I hear my being dance from ear to ear.
I wake to sleep, and take my waking slow.

Of those so close beside me, which are you?
God bless the Ground! I shall walk softly there,
And learn by going where I have to go.

Light takes the Tree; but who can tell us how?
The lowly worm climbs up a winding stair;
I wake to sleep, and take my waking slow.

Great Nature has another thing to do
To you and me, so take the lively air,
And, lovely, learn by going where to go.

This shaking keeps me steady. I should know.
What falls away is always. And is near.
I wake to sleep, and take my waking slow.
I learn by going where I have to go.

Theodore Roethke (1908-1963)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Bomba estóica


Ora, ora, Consoror:
1. O estóico vê a mulher sexy (Scarlett ou outra) e aprecia-a com deliberação, tentando apropriar-se dela (por oikeiosis), porque não é contemplativo; apenas não lhe presta vassalagem num certo sentido, no de se escravizar à paixão febril, potencialmente dolorosa, do desejo. Ele não é apático senão no sentido etimológico: está sujeito a uma terapia do desejo que lhe assegura uma vigorosa tranquilidade, uma vida bem saboreada e vivida.
2. O exemplo do Chiado é o do Asno_de_Buridano; ora o estóico não é hesitante nem contemplativo, precisamente na medida em que se foi, ou vai, libertando do tumulto das suas emoções. Tem emoções – mas não tem tempestades emotivas. Nunca perde o controlo da situação, e é por aí que alcança o gozo máximo, pleno.
3. A probabilidade de o estóico ser casado é que é diminuta (pelas razões supra)… e a de se deixar escravizar à paixão febril do consumismo alheio, via cartão de crédito, ainda é menor (id.)…
4. Ta-tá! Merry Xmas!

Arquivo do blogue