O novo Ashram minimalista

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Devo ter nascido três vezes

"É preciso nascerem duas vezes para serem mais honestos do que eu", diz aquele prognata que quer enganar o país como outrora enganou a academia (o puro acaso da morte prematura de Alfredo de Sousa não permitiu que se soubesse mais sobre o caso).
A sua honestidade dita, entre outras, que promulgue o casamento de pessoas do mesmo sexo enquanto, por entre um chorrilho de argumentos cretinos, assevera discordar da ideia; que lamente a situação do país como se fosse uma virgenzinha no processo que conduziu até aqui; que rosne contra a retirada do bolo-rei orçamental ao ensino privado, quando houve uma dependência directa perante esse mesmo sector parasitário da úbere teta das Finanças.
O tiro sai errado quando se fala do BPN, porque aí as provas são escassas (embora se saiba das suas visitas diárias, por longos anos, ali a Palhavã). Por mim, dispenso provas de desonestidade pessoal e basta-me a pública e notória desonestidade política, se me é permitida a redundância; e a impressão, há muito firmada, de que uma conduz à outra.
Como costuma dizer-se, isto não está para gente séria. No que respeita a este neo-paladino da honestidade, por mim replicar-lhe-ia, com toda a estima pessoal, que politicamente ele não nasceu nem três nem duas vezes: nasceu uma vez a mais.

The Waking


I wake to sleep, and take my waking slow.
I feel my fate in what I cannot fear.
I learn by going where I have to go.

We think by feeling. What is there to know?
I hear my being dance from ear to ear.
I wake to sleep, and take my waking slow.

Of those so close beside me, which are you?
God bless the Ground! I shall walk softly there,
And learn by going where I have to go.

Light takes the Tree; but who can tell us how?
The lowly worm climbs up a winding stair;
I wake to sleep, and take my waking slow.

Great Nature has another thing to do
To you and me, so take the lively air,
And, lovely, learn by going where to go.

This shaking keeps me steady. I should know.
What falls away is always. And is near.
I wake to sleep, and take my waking slow.
I learn by going where I have to go.

Theodore Roethke (1908-1963)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Bomba estóica


Ora, ora, Consoror:
1. O estóico vê a mulher sexy (Scarlett ou outra) e aprecia-a com deliberação, tentando apropriar-se dela (por oikeiosis), porque não é contemplativo; apenas não lhe presta vassalagem num certo sentido, no de se escravizar à paixão febril, potencialmente dolorosa, do desejo. Ele não é apático senão no sentido etimológico: está sujeito a uma terapia do desejo que lhe assegura uma vigorosa tranquilidade, uma vida bem saboreada e vivida.
2. O exemplo do Chiado é o do Asno_de_Buridano; ora o estóico não é hesitante nem contemplativo, precisamente na medida em que se foi, ou vai, libertando do tumulto das suas emoções. Tem emoções – mas não tem tempestades emotivas. Nunca perde o controlo da situação, e é por aí que alcança o gozo máximo, pleno.
3. A probabilidade de o estóico ser casado é que é diminuta (pelas razões supra)… e a de se deixar escravizar à paixão febril do consumismo alheio, via cartão de crédito, ainda é menor (id.)…
4. Ta-tá! Merry Xmas!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

As good as it gets


"We extend to others the refusal to limit ourselves to external evaluation, and we accord to them selves like our own. But in both cases this comes up against the brutal inclusion of humans and everything about them in a world from which they cannot be separated and of which they are nothing but contents. The external view forces itself on us at the same time that we resist it."

Thomas_Nagel

Para um texto vergonhoso de Vargas Llosa em defesa das touradas

Estamos salvos do FMI ! O país sobrenada !


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O quinto evangelista



Há não muito tempo vi um documentário sobre J.S. Bach do qual retive duas observações: de que ele é o quinto evangelista; mais subtil ainda, quando se relembrou que a sua música fora escolhida pela NASA para representar o planeta num qualquer encontro no espaço, a observação de que ao ouvir a sua música por vezes sentimos que há alguém sobre-humano a ouvi-la connosco.

Maverick's de regresso

domingo, 12 de dezembro de 2010

Liberdade e aqui d'el Rei

Wikileaks? Até agora muita revelação do óbvio e do monótono, entrecortada de algumas descobertas sensacionais (os pedidos árabes de bombardeamento do Irão surpreenderam-me, confesso, ao menos pela sua insistência – não posso impedir-me de imaginar a veemência com que denunciariam a «agressão sionista» se o pedido tivesse sido atendido).
Fazer disso um movimento de classe operária ou uma cruzada parece-me ingénuo e prematuro: mas é claro que simpatizo com a irreverência aparente, e com o potencial de trazer à luz algumas daquelas pragas morais, como a corrupção e a cleptocracia, que precisam do silêncio e da obscuridade para prosperarem, manifestações que são de um qualquer arquétipo vampirista.

Neiges d'antan

Um dia o tempo passou e as fotografias passaram a ser brutais, como denúncias. Faltei ao encontro, vi apenas as fotografias, senti-me arrepiado. Fechei os olhos para recordar e julguei que conseguiria iludir-me com a convicção de não ter visto o que acabara de ver. Senti-me velho através daqueles que partilharam os meus tempos de juventude.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Economia natalícia


Every Who down in Whoville liked Christmas a lot.
But the Grinch, who lived just north of Whoville, DID NOT.
He stood and he hated the Whos and their noise
He hated the shrieks of the Who girls and boys
For fifty-three years he’d put up with it now—
He had to stop Christmas from coming, somehow.
He asked and he questioned the whole thing’s legality
Then his eyes brightened: he screamed “externality!”


He reached for his textbooks; he knew what to do
He’d fight them with ideas from A.C. Pigou
This idea has merit, he thought in the frost
A tax that was equal to external cost
At the margin, would give all the Who girls and boys
An incentive to stop all their screaming and noise
Failing that, an injunction to make them all cease
And they’d have to pay him to have their Roast Beast.


Low costs of transacting meant that if the Whos
Were the high-value users and wanted to use
All the rights to have feasts and the rights to sing songs
Then they’d have to buy them, to right their Who wrongs
They’d buy a noise easement, if they wished to sing
Until then, the Grinch could stop the whole thing.


On Christmas Eve Night, the Grinch went to town
He stole all the presents, he took their wreaths down
He stole their Who Hash, everything for their feast!
He swiped their Who Pudding! He swiped their Roast Beast!
He looked at his sled loaded up with Who snacks
‘Twas quite an efficient Pigovian tax!


Then late in the night, when he got to Mount Crumpit
For he’d taken the load, and he threatened to dump it
The Whos, with one voice crying out in the night
Screamed “bring back our stuff! You haven’t the right!
“We know that we’re noisy all through Christmas Day,
But if you don’t like it, it’s you who should pay!
“For we were here first, and homesteaded the rights
To sing, to make noise, and to hang Christmas lights
“The costs of our Christmas joy helped you to save!
They were fully reflected in the price of your cave!”
“We’ll all be good neighbors, and we’ll be polite
“But you’ve done us wrong on this Christmas Eve Night!”

The Grinch was crestfallen, he knew he had lost
For he was the source of the “external” cost
He’d come to the nuisance, and yes, he was wrong
He’d now have to live with their noise and their songs
He realized that day, though, that they could be friends
His heart grew three sizes (you know how this ends)
The Whos asked the Grinch to join them in their feast
And he—he, the Grinch—carved the Roast Beast.
The holiday season brings specials galore
They teach us that Christmas can’t come from a store
Reflect, as you watch them, as day turns to night
On good economics, and property rights.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Funny


Merapi e Vinicius (associação livre)


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —


Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:


Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

domingo, 5 de dezembro de 2010

200 anos num só gráfico


Enfim, regressei

Blogosfera, a preciosa ridícula

Tem razão o Confrade Combustões: o fascínio com a política impera, e multiplicam-se os candidatos a "pundits", a "clones marceleiros". A política e o pavoneio cortesão continuam a ser os mais poderosos afrodisíacos, entre os jardins desta Versailles virtual.

Da vida real

Advogado português para cliente brasileiro: "encontramo-nos na Baixa".
Cliente brasileiro: "desculpe Doutor, estou cá há pouco tempo não me oriento com facilidade. Como é que lá se chega saindo do Elefante Branco?".
Contou-ma o Advogado.

New Yorker wisdom




Walking in Memphis

Chego de uma Conferência numa das mais prestigiadas Universidades Brasileiras. Na sua comunicação, o Vice-Director avança com "nas palavras do imortal Drummond de Andrade, "tudo vale a pena se a alma não é pequena"", e logo de seguida cita o "britânico" Hemingway. Ok, regressei vivo.

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