O novo Ashram minimalista
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Um dia os filmes voltarão a ser assim
Este fim de semana revi "A Filha de Ryan": um filme que conta uma história, sem clichés e com uma poesia visual inultrapassável. Este estilo sublime, atmosférico, perdeu-se. Espero que não para sempre.
domingo, 28 de novembro de 2010
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Para o caloteiro todo o mundo é agiota
Sabe-nos bem que os mercados tenham assegurado, e continuem a assegurar, um nível e um padrão de consumo e de endividamento não-reprodutivo que está vincadamente acima das nossas possibilidades.
Mas como nunca nos ocorreu que teríamos que pagar tudo (e até pode bem vir a verificar-se que não teremos mesmo que pagar tudo), acordámos indignados com a insistência de que paguemos, e pretendemos ter ficado admirados com a má impressão que causou nos nossos credores essa manifestação da nossa indignação.
Entrámos no plano inclinado do credit default. E o próprio Estado português, que há bem pouco tinha entrado na jogatana dos credit default swaps (CDS) relativamente à dívida soberana de outros Estados, e que tinha consentido que a banca portuguesa se lambuzasse nesses CDSs, protesta como uma virgam inocente que outros – outros bancos, outros Estados – estejam agora a investir em derivatives que apostam no credit default da dívida soberana do Estado português.
Papalvos e caloteiros dão-se as mãos e por uma vez unem-se na denúncia comum: a culpa é dos mercados, a culpa é de insistirem em que paguemos, a culpa é de desconfiarem da nossa vontade e capacidade para pagar.
Ou noutras palavras: estamos a perder? a culpa é do jogo, está na altura de se lhe mudar as regras.
Chega por hoje
Hoje tive que atravessar a cidade duas vezes, e de ir a Leiria uma. Vi três acidentes. Para um dia já basta.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Contrição de um fura-greves
Em tempos dava-me gozo furar greves, julgava que com isso fazia uma afirmação ideológica qualquer. Já me deixei disso.
Hoje não faço greve porque me perturba as rotinas, mas de resto entendo perfeitamente quem as faz, e quem já só acredita em manifestações de força para lidar com aqueles que vivem numa cínica indiferença a valores e vivem e mandam encostados à latência da força. Entendo que não queiram domesticar-se, aqueles que têm fome e sede de justiça.
Moment proustien
Mon fils a perdu son manteau à la cour de récréation. Ça m'a fait reculer dans le temps, vers un couloir plein de rêves et de peurs et d'oublis et de retrouvailles. Heureusement, il n'a pas compris combien j'étais ému.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
O Papa é cruel (2)
Pessoas que nunca perceberam qual era a posição da Igreja Católica em relação ao preservativo agora acham que a Igreja Católica NÃO mudou de posição (o Papa acaba de encontrar uma nova Congregação da Fé / Santo Ofício no blogue Blasfémias).
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domingo, 21 de novembro de 2010
O Papa é cruel
Lê-se que o Papa terá emendado o entendimento sobre o uso do preservativo, o que lhe fica bem, denota que é inteligente e que sabe fazer uso judicioso da sua (consabidamente infalível) prerrogativa de guiar a ética da grei (do rebanho).
Eu desinteressei-me há muito dessas proclamações eclesiásticas sobre "política do baixo-ventre", porque me soam a mau legado do lado pior de São Paulo (preferindo eu os momentos em que São Paulo deixa a obsessão com a concupiscência e se dedica mais ao lado construtivo e agregador do amor-caritas). Mesmo assim, assinalo e aplaudo o bom-senso tardio.
Mas é cruel, porque tira o tapete de debaixo dos pés daqueles que ardorosamente se encrespavam na defesa da mais absoluta ortodoxia anti-anticoncepcional e juravam não admitir, nunca admitir, a legitimação do uso do preservativo.
Pobre grei, habituada às ervinhas do passado, quando o pastor a empurra, mesmo que suavemente, para as ervinhas do futuro! O que hão-de fazer as ovelhas que tinham as ervinhas do passado pelas únicas possíveis? E que resta às que asseveravam que, viesse o que viesse, nunca mudariam de dieta?
NATA
Nada sei do que se passou na cimeira da NATO mas sei da oportunidade que os jornalistas portugueses tiveram de evidenciar que são umas baratas tontas. Passei diante da TV e um, como quem enche de comentários um intervalo da bola, observava que pouco sabia de muitos dos líderes presentes, o que alegadamente demonstraria a pequenez deles e o facto de não estarem a trabalhar para a História (à qual, depreende-se, o jornalista julgará presidir); outro falava da comida e bebida disponibilizada aos jornalistas, e pela imagem eram sandes de fiambre e sumo de laranja Alsa (aquele que tem a cor dos coletes reflectores). Tudo afirmado com a paixão e a fúria que habitualmente reservam para os comentários aos estágios da selecção nacional de futebol.
Por mim, dois modestos contributos fotográficos com momentos altos do evento:
Por mim, dois modestos contributos fotográficos com momentos altos do evento:
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Mais uma razão para continuarmos a viver (2)
Deus, se existe, é uma aposta nas crianças e na relativização, através da inocência delas, das razões para sofrermos. Elas são capazes de se apegarem à vida e de rirem ao mesmo tempo, antes do grande divórcio que as transporta à idade adulta: quando lá chegam o riso passa a alienação, e o regresso à consciência plena do que a vida significa transforma-se no próprio sofrimento.
Mais uma razão para continuarmos a viver (1)
Imaginemos que Jaco Pastorius tinha reincarnado numa jovem de 26 anos com a voz e os blues de Etta James (e aqui os devaneios de Flora Purim), e que num rasgo de inspiração se lançava nos píncaros da composição de jazz, com a frescura dos tempos do fusion jazz dos Weather Report (conjunto no qual, como se sabe, se cruzaram os caminhos de Jaco Pastorius e de Wayne Shorter).
Juntemos a isso um swing preternatural e uma graciosidade que não víamos desde Norah Jones - e rendemo-nos à constatação de que há nisto mão da Providência.
Tínhamos que viver para ouvi-la e vê-la.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Sá Carneiro em saldo?!
Leio por aí uns panegíricos a Sá Carneiro que me enchem de espanto. É verdade que, na consabida expressão de Alexandre Herculano, as alvas cãs da respeitabilidade tudo recobrem e tudo redimem… mas no espaço de uma geração?!
Não vamos mais longe: a AD foi a mãe de todas as coligações amplamente parasitárias do aparelho de Estado, tirando proveito do fôlego recobrado no rescaldo de uma quase-guerra-civil. Um tapete de chupistas abateu-se sobre o erário público como talvez não tivesse sucedido desde meados do século XIX, e a pretexto de uma justa recuperação do enxovalho sabotador das nacionalizações e dos saneamentos, deu ao "dinheiro novo" a aparente legitimidade de tomar as dores do "dinheiro antigo" e de engordar à tripa forra à vista dos papalvos.
Conheci alguns dos ornamentos dessa vaga sá-carneirista uns anos volvidos, a festa de "feeding frenzy" terminada mas ainda as atitudes bem marcadas, em histerese de peculato. Tudo o que veio a seguir foi aprendizagem tosca desses hábitos de maioria balofa e impune, desses hábitos de se roubar com uma mão enquanto se acenava com a outra a bandeirinha da CEE – e com outra mão, se houvesse, se acarinharia os gloriosos mandantes da descolonização e do abrilismo, "domesticados" à partidocracia.
O tempo pode dourar um nadinha essas memórias, porque afinal esses que sofreram o espectáculo da iniquidade e da prepotência devorista eram mais jovens, e éramos nós. Podem mandar fazer t-shirts ou bóinas, podem querem carpir, ou mandar carpir, os "James Deans" da política portuguesa, caídos em helicóperos ou avionetes - já que, como todos sabem, é o sentido do negócio, e não o sonho, que comanda a vida.
Mas para ilustração dos mais jovens e desmemoriados, aqui fica em duas ou três frases o testemunho de quem era adulto já nesse momento, de quem viu e percebeu quase tudo e quase nada esqueceu:
Aqueles tempos da AD e do sá-carneirismo foram uma boa porcaria (sem ofensa aos porcos); não estamos melhor, mas de certeza que não estamos pior. As moscas, e os filhos das moscas, são precisamente os mesmos. Se têm saudades dos pais, fiquem com os filhos.
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