O novo Ashram minimalista

domingo, 21 de novembro de 2010

O Papa é cruel

Lê-se que o Papa terá emendado o entendimento sobre o uso do preservativo, o que lhe fica bem, denota que é inteligente e que sabe fazer uso judicioso da sua (consabidamente infalível) prerrogativa de guiar a ética da grei (do rebanho).
Eu desinteressei-me há muito dessas proclamações eclesiásticas sobre "política do baixo-ventre", porque me soam a mau legado do lado pior de São Paulo (preferindo eu os momentos em que São Paulo deixa a obsessão com a concupiscência e se dedica mais ao lado construtivo e agregador do amor-caritas). Mesmo assim, assinalo e aplaudo o bom-senso tardio.
Mas é cruel, porque tira o tapete de debaixo dos pés daqueles que ardorosamente se encrespavam na defesa da mais absoluta ortodoxia anti-anticoncepcional e juravam não admitir, nunca admitir, a legitimação do uso do preservativo.
Pobre grei, habituada às ervinhas do passado, quando o pastor a empurra, mesmo que suavemente, para as ervinhas do futuro! O que hão-de fazer as ovelhas que tinham as ervinhas do passado pelas únicas possíveis? E que resta às que asseveravam que, viesse o que viesse, nunca mudariam de dieta?

NATA

Nada sei do que se passou na cimeira da NATO mas sei da oportunidade que os jornalistas portugueses tiveram de evidenciar que são umas baratas tontas. Passei diante da TV e um, como quem enche de comentários um intervalo da bola, observava que pouco sabia de muitos dos líderes presentes, o que alegadamente demonstraria a pequenez deles e o facto de não estarem a trabalhar para a História (à qual, depreende-se, o jornalista julgará presidir); outro falava da comida e bebida disponibilizada aos jornalistas, e pela imagem eram sandes de fiambre e sumo de laranja Alsa (aquele que tem a cor dos coletes reflectores). Tudo afirmado com a paixão e a fúria que habitualmente reservam para os comentários aos estágios da selecção nacional de futebol.
Por mim, dois modestos contributos fotográficos com momentos altos do evento:


Visitámos o Monstro de Byrne (lindo, o único local de onde não conseguimos vê-lo)




sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Mais uma razão para continuarmos a viver (2)

Deus, se existe, é uma aposta nas crianças e na relativização, através da inocência delas, das razões para sofrermos. Elas são capazes de se apegarem à vida e de rirem ao mesmo tempo, antes do grande divórcio que as transporta à idade adulta: quando lá chegam o riso passa a alienação, e o regresso à consciência plena do que a vida significa transforma-se no próprio sofrimento.

Mais uma razão para continuarmos a viver (1)


Imaginemos que Jaco Pastorius tinha reincarnado numa jovem de 26 anos com a voz e os blues de Etta James (e aqui os devaneios de Flora Purim), e que num rasgo de inspiração se lançava nos píncaros da composição de jazz, com a frescura dos tempos do fusion jazz dos Weather Report (conjunto no qual, como se sabe, se cruzaram os caminhos de Jaco Pastorius e de Wayne Shorter).
Juntemos a isso um swing preternatural e uma graciosidade que não víamos desde Norah Jones - e rendemo-nos à constatação de que há nisto mão da Providência.
Tínhamos que viver para ouvi-la e vê-la.

Uma razão para regressar à Serra da Leba

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Sá Carneiro em saldo?!

Leio por aí uns panegíricos a Sá Carneiro que me enchem de espanto. É verdade que, na consabida expressão de Alexandre Herculano, as alvas cãs da respeitabilidade tudo recobrem e tudo redimem… mas no espaço de uma geração?!
Não vamos mais longe: a AD foi a mãe de todas as coligações amplamente parasitárias do aparelho de Estado, tirando proveito do fôlego recobrado no rescaldo de uma quase-guerra-civil. Um tapete de chupistas abateu-se sobre o erário público como talvez não tivesse sucedido desde meados do século XIX, e a pretexto de uma justa recuperação do enxovalho sabotador das nacionalizações e dos saneamentos, deu ao "dinheiro novo" a aparente legitimidade de tomar as dores do "dinheiro antigo" e de engordar à tripa forra à vista dos papalvos.
Conheci alguns dos ornamentos dessa vaga sá-carneirista uns anos volvidos, a festa de "feeding frenzy" terminada mas ainda as atitudes bem marcadas, em histerese de peculato. Tudo o que veio a seguir foi aprendizagem tosca desses hábitos de maioria balofa e impune, desses hábitos de se roubar com uma mão enquanto se acenava com a outra a bandeirinha da CEE – e com outra mão, se houvesse, se acarinharia os gloriosos mandantes da descolonização e do abrilismo, "domesticados" à partidocracia.
O tempo pode dourar um nadinha essas memórias, porque afinal esses que sofreram o espectáculo da iniquidade e da prepotência devorista eram mais jovens, e éramos nós. Podem mandar fazer t-shirts ou bóinas, podem querem carpir, ou mandar carpir, os "James Deans" da política portuguesa, caídos em helicóperos ou avionetes - já que, como todos sabem, é o sentido do negócio, e não o sonho, que comanda a vida.
Mas para ilustração dos mais jovens e desmemoriados, aqui fica em duas ou três frases o testemunho de quem era adulto já nesse momento, de quem viu e percebeu quase tudo e quase nada esqueceu:

Aqueles tempos da AD e do sá-carneirismo foram uma boa porcaria (sem ofensa aos porcos); não estamos melhor, mas de certeza que não estamos pior. As moscas, e os filhos das moscas, são precisamente os mesmos. Se têm saudades dos pais, fiquem com os filhos.

domingo, 14 de novembro de 2010

Os herdeiros do Tambor de Arcole

Joli tambour tu n'es pas assez riche,

Joli tambour tu n'es pas assez riche,

Et ri, et ran, ran, ran-pa-ta-plan,

Tu n'es pas assez riche.

sábado, 13 de novembro de 2010

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Dia do Armistício (e São Martinho)

Oh! you who sleep in Flanders Fields,
Sleep sweet – to rise anew!
We caught the torch you threw
And holding high, we keep the Faith
With All who died.

We cherish, too, the poppy red
That grows on fields where valor led;
It seems to signal to the skies
That blood of heroes never dies,
But lends a lustre to the red
Of the flower that blooms above the dead
In Flanders Fields.

And now the Torch and Poppy Red
We wear in honour of our dead.
Fear not that ye have died for naught;
We’ll teach the lesson that ye wrought
In Flanders Fields.

— Moira Michael

Um génio revisitado: Eric Longsworth * * * * *



Há uns dez anos fazia muita autoestrada à noite, entre Lisboa e Coimbra – e longos trechos na noite eram acompanhados de If Trees Could Fly, de Marc Johnson & Eric Longsworth, um exercício hiperintelectual e descarnado de contrabaixo e violoncelo. No vídeo acima vão duas ou três pepitas do filão extraordinário. Sinto saudades desses momentos surreais de solidão.

Lembranças de Carmel, California

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Tragam a mesa pé-de-galo (ex conimbrigae lux...)

Vital Moreira sugere remodelação nas Finanças. Óbvio, e déjà-vu. Lugar, pois, à voz da "Coimbra Espírita", a convocar uma alminha de outros tempos, a pedir-lhe orientações... LER (que seríamos nós sem estes sebastianistas coimbrões?)

Ouvindo Paredes, pensando em Pessoa


 Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -


Transeunte inútil de ti e de mim


Estrangeiro aqui como em toda a parte

Teremos sempre Lisboa

sábado, 6 de novembro de 2010

Por cá, entretanto:


Presidente desabafa no Twitter, uma espécie de batucada online. Finalmente um meio adequado à exiguidade do desabafo! Falta agora alguém explicar ao Presidente o que é que se passou no país nos últimos 20 anos –em tão poucos caracteres (dada a exiguidade da atenção).

Por cá, entretanto:


Governante vai à Patagónia encorajar a marinha. E porque não? Ao menos nos dias que lá esteve poupou-nos de fazer bostada por cá (com as minhas desculpas aos habitantes da Patagónia).

Por cá, entretanto:


BCP lidera Portugal na venda à China. E porque não? Não vamos fazer as vezes do pedinte que se dá ao luxo de escolher a esmola, pois não?

O esquerdismo tem outro sabor (e topete) no Brasil

O Brasil nota com preocupação o aumento do número de pessoas vivendo na pobreza nos EUA e a persistente diferença racial”, afirmou a embaixadora do Brasil na ONU, Maria Nazareth Farani Azevedo.

Aí faz Inverno, pá – os tiques cubanos de Chico Buarque


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Cool New Yorker




Quem disse que o nosso problema é político?

Há muitos anos, precisamente no início dos anos 70, uma revolução anestesiou-nos relativamente a "choques exógenos" e não nos apercebemos de quão perigosa era a nossa dependência petrolífera. Devíamos ter pensado nisso quando aderimos à União Económica e Monetária e ficámos sem poder de reacção a "choques exógenos assimétricos" (ou seja, a disparidades de vulnerabilidades entre nós e os demais parceiros, todos amarrados a uma política monetária única). Quando há dois anos o preço do petróleo explodiu já era tarde de mais – deixou de ser um problema de política, no sentido de que a política se tornou numa navegação à vista, a curtíssimo prazo. No futuro temos que sair da União Económica e Monetária (logo que nos seja possível) e arranjar um benemérito que nos financie a nossa dependência petrolífera.

No túmulo do sogro de Isabel de Portugal

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Soneto da separação (no posto 6)

De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.

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