O novo Ashram minimalista

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A uma leitora atenta



O Ashram nunca foi e nunca será puritano.
As jovens que se meneiam uns posts abaixo ao ritmo do "trance" são magnificamente constituídas, daí que revê-las seja a minha "revisão constitucional".
Na sua beleza são também, como todas as formas naturais de beleza, demonstrações da existência de Deus. Privarmo-nos de contemplar essas formas de beleza é que seria uma ingratidão para com o Criador – seria um desprezo pela sua obra (estou a falar a sério).
De resto, o Ashram não é puritano nem anti-puritano, não é nada – e nesse ir-se fazendo, sem baias, está todo o gozo do seu autor (como há uns anos a subtilíssima autora do Bomba notava, dizendo aproximadamente que no Ashram nunca faltam surpresas e raramente há linhas rectas).

Há 100 anos: o idílico declínio da Rússia czarista (1)


quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Praemonitio (vel admonitio?) Ashramiensis



O/a amante que resvala para a condição de manteúdo/a já sabe que está sempre a um passo do repúdio. Vive do favor da mancebia, e os frutos que saboreia têm a graça, o pétillant, mas também o desvalor, da coisa efémera.
Pode chorar quando o repúdio chega; mas chorará, se alguma moralidade lhe restar, não tanto pela ingratidão do repudiante, mas mais pela própria fraqueza de ter consentido trinar na gaiola dos favores.
A seriedade do carácter não consente inebriamentos na dependência. A seriedade repudia favores que trazem afixado o preço. A seriedade reclama a ataraxia da independência, a pobreza honrada daqueles que, por integridade da alma, repudiaram a orgia (Provérbios, 15:17).
O velho Cincinato regressou à lavoura quando sentiu a missão cumprida, e nem um mês tinha passado da sua consagração como Ditador. Tempos houve, pois, em que as luzes ainda apontavam para aqueles que serviam outros valores que não os da glorificação pessoal e do pequeno ganho hedónico da solicitude mercenária.
Como o velho Platão estava enganado! Nenhum nível de conhecimento, nenhum grau de aculturação, resgatam o carácter para a virtude. A sagesse ética tem algo de inato e de herdado, e o resto deve-se à sorte de a estátua interior que policia a nossa conduta não se ser confrontada com demasiadas tentações: foi por isso mesmo que, passada a arrogância e o deslumbramento cognitivistas, Immanuel Kant se rendeu à exaltação rousseauniana da moralidade do homem comum e sobre ela edificou a sua teoria moral – advertindo que não há verdadeira liberdade, mas mero império de paixões, a Schwärmerei partidária, fora desse espaço de contenção e disciplina.
Tenho pensado muito nesses mortos ilustres quando oiço cacarejar aqueles janotas que querem usurpar-lhes a tradição.

Ecos de Port-Royal


segunda-feira, 20 de setembro de 2010

sábado, 18 de setembro de 2010

Carrilho, o Novo Baiano



Manuel Maria Carrilho, em entrevista ao Expresso, diz que não quer acabar os seus dias (profissionais) como político ou como diplomata (o què? só porque lhe arranjaram o gancho em Paris já é diplomata?), mas sim como professor, como académico, porque é aí que está a sua verdadeira vocação.
Se está a ser sincero, cabe fazer-se-lhe a pergunta que outrora dirigiram ao Rei Pirro: o que é que está a impedi-lo de alcançar imediatamente aquilo que deseja? Peça a demissão hoje, amanhã volta a dar aulas e a fazer exames. É simples.
Parece-me antes que, com afirmações dessas, ele está a parecer-se com os proverbiais baianos que só falam da Baía, a Baía para aqui, a Baía para lá, mas o Diabo que carregue alguém que pense sequer em tirá-los do Rio de Janeiro.
E é verdade também que do baiano se diz que não nasce: estreia…

nesse céu onde o olhar / é uma asa que não voa



É um daqueles bens que raramente aparecem no mercado, e rapidamente voltam a sair dele. Desta vez talvez a crise o faça permanecer mais tempo; o preço é absurdamente alto (para um simples e exíguo T3), o prédio já não é recente – aquela magnífica fachada circular que paira sobre o Largo do Rato; a vizinhança partidária não é das mais recomendáveis. Mesmo assim, se eu fosse milionário este apartamento não me escapava. As imagens explicam a razão principal. As outras razões guardo-as para mim.




quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Estudar desenvolve o cérebro



A Setôra é o máximo, ficámos a saber que o dia tem 24 horas, e que se a gente se portou bem no ano passado este ano vamos receber presentes, ou pelo menos damos felicidade à família, e vamos ficarmos muita, muita, muita bonzinhos, e o Menino Jesus vai-nos livrar daquela gente, sei lá, que não estuda e não respeita os Setôres e até vai para o pátio fumar e falar de porcarias, e agora já sei que quando se fala de Ano Lectivo é giro esbugalharmos os olhos e dar pulinhos na cadeira porque é emocionante obedecermos aos Setôres e ficarmos a ler bem e falar bem e sermos bonzinhos no desporto do cérebro que é uma coisa que os meninos bem de todo o mundo querem, e que nos permite estarmos bem na classe e até dormirmos bem e até alimentarmo-nos bem, o que deixa de fora o Dimas que o pai é desempregado e ele não se alimenta bem e por isso só se ri e diz "porreirinho" a tudo e também esbugalha os olhos e dá pulinhos a falar de queques e galões, e a Setôra diz que se orgulha de nós porque vamos longe mas eu tenho colegas que já chegam de longe porque fecharam as escolas deles e agora para estarem bem e dormirem bem e pensarem bem e falarem bem e desenvolverem o cérebro têm que vir na carreira, mas eu sei que a Setôra nos deseja aquilo que o Pai Natal deseja a todos os meninos que conseguiram aprender e que querem melhorar e ir mais longe e estão concentrados nas aulas e obedecem muito, muito, muito, e dão esmola aos pobrezinhos, e a Setôra deseja tudo de bom para os alunos portugueses o que deixou triste a Natália, que dorme bem e come pequeno-almoço e é a melhor aluna da turma mas a Setôra não lhe deseja nada porque ela é Ucraniana.

Aí vem a regionalização outra vez!


Ouve lá, ó pá



No Estado de Nova Iorque as estatísticas anunciaram orgulhosamente que se chegou aos 650 mil residentes milionários (leram bem, 650.000). Deve certamente suceder assim porque eles têm leis laborais mais rígidas do que as nossas, e porque respeitam, muito mais do que nós, as "conquistas irreversíveis" dos trabalhadores empregados (à custa dos outsiders). Ou talvez seja porque há muito confiam em revisões constitucionais para lhes assegurarem o ganha-pão. Alguma coisa há-de ser, havemos de descobri-la e havemos de demonstrar que nós é que temos razão. Estamos bem, estamos protegidos.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Raindrops on roses and whiskers on kittens / bright copper kettles and warm woolen mittens


 

O Democrata-Cristão de Santa Comba

Anda aí a ser ferozmente promovido um livro sobre Salazar com pretensões a biografia. Talvez o leia um dia, quem sabe.
Mas para já fico horrorizado pelo facto de o autor andar a propalar a ideia de que Salazar era um democrata-cristão.
Cristão era, mas ficamos por aí; não era democrata, era anti-democrático por convicção, e só muito tardiamente revelou, e mesmo assim de forma ardilosa, alguns complexos por essa posição assumida; e, para um homem cujas convicções básicas se consolidaram (e, sim, congelaram) nos anos 20 e 30, dizer que era democrata-cristão faz tanto sentido, é tão apócrifo, como dizer que era um defensor do disco sound, da glasnost ou do Google.
Mal por mal, se é para ficarmos por essas conjecturas bacocas (de ignorância, ou de má fé, ou ambas), prefiro os novíssimos "Salazar engatatão" e "Salazar maçon", e o mais que virá ainda.
Agora essa do democrata-cristão é uma afronta ao homem – um dos poucos portugueses, aliás, que no meio de tempos ideologicamente conturbados nunca deixou de mostrar que sabia perfeitamente o que era e como pensava.
EM TEMPO: Já sei que pode argumentar-se com o CADC - mas a designação nada tem a ver com a democracia-cristã de que hoje falamos, e que nasce no rescaldo da segunda guerra. Quanto ao argumento de que a "democracia-cristã" pré-45 não era democrata... isso equivale a crismar como democrata-cristão todo o cristão que à época se dedicasse à política, independentemente das suas convicções... logo, equivale a inutilizar o rótulo. Voltamos ao mesmo.

Splash


sábado, 11 de setembro de 2010

Uma sequela do 11 de Setembro



Nove anos  já sobre um daqueles poucos momentos dos quais poderá dizer-se que inflectiram instantaneamente vários dos rumos da História.
Quero hoje lembrar apenas umas das consequências remotas em que me vi envolvido: a adesão da extrema-direita e da extrema-esquerda às mais imbecis teorias da conspiração acerca do evento (o Loose Change sobretudo, mais tarde o Zero Investigation, o Fabled Enemies, uma bateria de documentários do mesmo teor). A pose, de um e de outro lado dos extremos, era a mesma: olímpica indiferença pelos factos – até pelos testemunhos visuais acessíveis! – na medida em que eles não favorecessem os preconceitos e os credos.
Da extrema-esquerda pouco sei. Mas custou-me ver, no outro extremo, gente que eu julgava conhecer, alguma pessoalmente e outra de reputação, tão disposta a malbaratar um (já modesto, admitamos) capital de credibilidade a favor da mais crapulosa subjugação à parcialidade e ao fanatismo – mesmo em pessoas que, sei-o, profissionalmente estavam e estão adstritas à mais rigorosa objectividade na análise dos factos.
As minhas (já poucas) esperanças sobre a seriedade de ex-correligionários desmoronaram-se no meu íntimo com o ímpeto das próprias torres. A cegueira das paixões não se deixa atrapalhar nem com as evidências mais directas, e aquilo que se vê é filtrado e descartado por uma "super-narrativa" que aprisiona os fanáticos num sonho de pureza e congruência que se converte numa condicionadora "categoria do entendimento".
Ingenuidade a minha não o ter descortinado inteiramente antes do rescaldo do 11 de Setembro (embora já o vislumbrasse nas ladainhas anti-semitas, património comum dos dois extremismos). Talvez por comodidade eu tenha presumido que um mínimo de honestidade intelectual era tão sólido e confiável como as torres – antes de terem caído.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Os sete processos Casa Pia



Por efeito da chicana judiciária ficámos, não com um, mas com vários processos Casa Pia. É por isso que, de cada vez que oiço alguém falar sobre o assunto, tenho primeiro de esforçar-me por determinar a qual dos processos se faz referência.
1) Num, digamos o central, foram cometidos crimes; e, como sempre faz, a Justiça dos homens condenou quem pode e como pode (que haja quem tenha fugido da justiça não é razão para exonerar quem quer que seja). Nem tudo o que devia ter sido punido o foi; e as punições ficam aquém do que poderia esperar-se.
2) Noutro processo, alguns polícias e magistrados tomaram a "feeding frenzy" de jornalistas como se fosse a ribalta dos "famosos" nalgum reality-show, e descompuseram-se, malbaratando o pouco que restava de respeitabilidade no ofício.
3) Noutro processo, a opinião pública não se satisfazia com o facto de alguns cobardes terem cevado a sua cobardia num exercício de poder sexual sobre menores, e de com esse gesto terem demonstrado a sua absoluta impotência para cometimentos mais viris ou para outras empresas no crime – e vai de presumir, por isso, que em cada um deles habitava um Tony Soprano, capaz de afogar em sangue a quebra de presumíveis "pactos de silêncio" que obviamente nunca existiram (quem alguma vez acreditaria em vítimas menores e pobres daquilo que os próprios perpetradores possivelmente nunca consideraram um crime, mas apenas uma aberração vergonhosa, uma devassidão inconfessável?).
4) Noutro processo, emergindo do anterior, os culpados tentaram a chantagem do "passa-culpas", um esforço de diluição de responsabilidade e de vitimização que, mais do que generalizar a dúvida, permitiria relativismos e presunções de inocência junto dos espectadores do "reality-show" policial (pois, ao rodearem o Bibi de armas e ao protegerem-no com coletes anti-bala, não estavam as próprias autoridades a acusarem já os demais indiciados de terem entre eles um complot para silenciarem o "chibo"?).
5) Noutro processo ainda, tentacular este, as mesmas instâncias de recurso que se preparam para destruir o processo "central" fizeram uma triagem política, autorizando um novo tipo de chicana judiciária em torno da "impunidade selectiva" de alguns notórios poltrões, mais um factor de desautorização para todos os envolvidos (parecia poder concluir-se que tudo se resumia a mais um episódio do embate partidário, e os crimes acabavam reduzidos a pretextos nesse infindável psicodrama).
6) Numa penúltima variante, alguns chicaneiros profissionais foram alternando entre a ameaça e o choro para fazerem crer que tudo no processo era emocional, irracional, tudo era fruto de preconceitos atávicos, de velhos hábitos de delação e de infâmia, buscando novos bodes em holocausto - um isco usualmente infalível para uma sociedade piegas e carpideira e sempre a um passo da paranóia.
7) E um último processo foi o da renovada violação das vítimas, agora na mera dimensão moral, achincalhando-as, expondo-as, denegrindo e procurando confundir os "delatores", desenterrando e amplificando fraquezas humanas e sujeitando-os a um crivo de "moralidade" e de "carácter" de que tudo o resto era dispensado.
Bem urdido, este tentáculo processual.
No silêncio dos seus gabinetes, alguns juízes viram as provas, aplicaram o direito e condenaram. São seis processos contra um. O único que é, e deve ser, válido, não tem qualquer hipótese de sobrevivência, num país deslumbrado e atordoado pelos outros seis, e que verdadeiramente quase só discute esses outros seis processos, qualquer deles muito mais vibrante e garrido. Não tenho a menor dúvida de que neste momento os desembargadores se preparam para destruir o processo "central", com a mesma rapidez com que procederam à "triagem de acusações" dos políticos indiciados. E estou certo de que tudo soçobrará, como é hábito, numa babel de recriminações regateiras num país que quase já só é alarido.
Restam duas consolações, naturalmente não-jurídicas: alguma justiça foi feita, no sentido de que alguma da impunidade acabou, e acabou mesmo; e o pouco de crente que resta em mim diz-me que o pior castigo destes pedófilos está ainda por vir.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Au revoir, Alain Corneau


Tombeau pour M. de Sainte-Colombe

Desde que fui regressando ao burgo, a uma cadência hipnótica (apesar de ser a jacto, as esperas nas ligações fazem de tudo uma espécie de «limbo zen»), soube que morreram Laurent Fignon, Frank Kermode, José Torres e Alain Corneau.
Fignon lembra-me uma época de maior paixão pelo ciclismo, quando me parece que havia mais emoção e imprevisibilidade.
Frank Kermode simplificou-me muita coisa que na primeira leitura permanecera complexa, foi um inexcedível cicerone por muitas alamedas culturais.
José Torres lembra-me os meus tempos de infância, e um fascínio pela grandeza das coisas simples e eficientes que o meu subsequente cinismo foi sujeitando a erosão, e de que hoje tenho uma saudade que às vezes sinto como quase-crepuscular.
Alain Corneau foi o autor de "Tous les Matins du Monde", um filme sublime povoado por jansenistas e por música e estética jansenista – e uma das razões (não a principal) do crisma deste ashram.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A sombra de Gungunhana

O que vemos de notícias de Moçambique faz ferver o sangue, mas é claro que todas as inferências lógicas e legítimas que a análise da situação autoriza estão hoje bloqueadas pelo "politicamente correcto".
Digamos apenas que é uma sorte, uma imensa sorte, não termos que viver naquele inferno dominado pelo terror, pela iniquidade, pela ostentação – uma jaula gigante entregue à feroz territorialidade primata que demonstra que alguns séculos de esforço pouco fizeram para melhorar milenares hábitos de violência tribal e de exploração da miséria.
No fim, talvez possamos concluir que apenas contribuímos com a erradicação do canibalismo (até ver) e com as armas com que os sobas intimidam (e não tarda nada voltam a matar) os seus súbditos.
Os vencedores desta crise moçambicana serão obviamente, e uma vez mais, aqueles que souberem demonstrar a mais vigorosa crueldade. Vão celebrá-lo, como sempre, com o aprofundamento da iniquidade – ou não fossem eles vizinhos do soba Mugabe e dos sobas que engendraram a Disgrace lapidarmente retratada por J.M. Coetzee.
Pobres mulheres e crianças que têm que suportar aquele inferno. Nós, que estamos de fora, temos uma sorte infinita.

Talvez da próxima...


A fronda ortográfica (ou, como escrever nos jornais em três simples passos)

Um país que decreta como é que o seu povo escreve – aliás, que decreta tudo, devendo haver por aí algures uma portaria a decretar para que lado é que o Tejo corre – é um país que desconfia das capacidades de evolução orgânica da própria língua. Não admira que nela pontifiquem os novos "levantadotes do verbo", aqueles que, menos tendo investido na sondagem interna da evolução da língua, na captação dos seus cambiantes e das suas potencialidades, agora, menos prisioneiros da tradição, se estribam no solavanco induzido pelos bonzos da ortografia. Decretar a própria língua tem isto, presta-se a estas usurpações pelos pés-rapados da cultura.

Um despique à sombra de Django


Escolher quem não somos

Parece que o treinador Mourinho disse algures que não é o Harry Potter. Que diabo, o outro não tinha dito também que não é a Rainha de Inglaterra?
Não quero ficar atrás: por mim, não sou o Príncipe de Gales.

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