O novo Ashram minimalista

sábado, 14 de agosto de 2010

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Illic sedimus et flevimus: um momento órfico



Já outrora exprimi por aqui a minha dívida de amizade para com Domingos Duarte Lima. Pela sua liderança entrei nos domínios mágicos que iam de Palestrina a Bruckner, e entre nós desenvolveu-se uma fugaz mas intensa amizade – que poderia ter-se tornado uma sociedade duradoura se ao menos eu tivesse aderido ao PPD, coisa de que não fui nem seria capaz. Estive no primeiro casamento dele, e relatei já em tempos a pitoresca viagem até Fátima com o velho Prof. Cavaleiro de Ferreira. Depois fomo-nos afastando sem qualquer motivo, pela inércia própria do destino e da rotina.
Vi-o subir muito alto e cair de muito alto, como o camoniano "perdigão", e é sempre com o coração pequenino que vejo o nome dele regressar à ribalta, a arrostar todas as fúrias do burgo.
Desta vez as insinuações foram longe de mais, e só espero que ele, inteligente e hábil como é, não se escude naqueles artifícios amaneirados com que os patifes deste mundo aprenderam a viver na impunidade. No lugar dele prescindia de garantias e presunções e segredos profissionais e trazia tudo a público, tudo ao detalhe, com todos os nomes e todas as implicações; acossado que está, receio que não disponha de muito mais opções ou de espaço de manobra para se livrar da ignomínia mais sórdida e concertada que novamente se acastela contra ele – as fúrias farejam o medo, segui-lo-ão impiedosamente pelas vielas desta babilónia meretrícia da maledicência e do espírito de matilha (a mesma de que fugíamos musicalmente, soerguendo-nos colectivamente aos acordes divinais do "Super Flumina" de Palestrina).

A santificação da cena literária contemporânea

A cena literária "high-end" julga-se prisioneira da esquerda, mas isso só pode ser ou um equívoco (daqueles que alguma idiotice paranóica de extrema-direita costuma cometer quando toma tudo por comunista) ou uma vontade de ofender uma tradição de esquerda que, por um breve momento histórico, ainda nutriu ideais e se guiou e sacrificou por eles.
Essa cena está antes refém dos seus gostos "radical chic", a convicção "cristã-progressista" de que é possível o melhor dos dois mundos, o coração à esquerda e a carteira à direita – uma aparência de que se é capaz de combater por ideais quando se tem garantida a classe executiva e a suite num cinco estrelas, o contrato milionário e o paraíso fiscal nas Canárias a apoiarem a aparência de desprendimento, de solidariedade, de desprezo pelo dinheiro.
A cena literária tornou-se tão acomodada e decadente e hipócrita como a cena das "estrelas do rock" com os seus "Live Aids", antes de a tecnologia "peer-to-peer" minar todo esse mercenarismo complacente e traficado. Tornou-se cobarde, agitando os pendões da liberdade e da contestação apenas quando constatou que isso era seguro e lucrativo – respondendo à amnésia romântica de um público lorpa e ávido de "lideranças culturais", e arregimentando em seu apoio um panteão de pensadores genuinamente independentes e corajosos – mas todos convenientemente já mortos.
Nalguns oportunos (comercialmente vantajosos) momentos de auto-crítica, a cena literária remete ainda para um saudosismo postiço, lamentando os tempos presentes e procurando autoentrincheirar-se com fogo nutrido contra a nova concorrência – invariavelmente crismada pelos bonzos "incumbentes" como literatura "light", "low-end".
Evoca-se uma "época dourada", de preferência não muito distante (para se poder tirar ainda proveito dos direitos de autor), reescrevendo a história cultural à custa da tal "amnésia romântica": nas vestes de profetas irreverentes aparecem aqueles que a memória recorda ainda como fariseus petulantes invariavelmente dedicados ao servilismo e à auto-promoção, as obras-primas de agora são encomendas de "nesca-literatura" que monotonamente exploraram a "short tail" do "star-system", ou seja a visibilidade de nomes "consagrados" (esta é a palavra-chave) junto de leitores acríticos e acarneirados, e tudo ressuma, a observadores não-desmemoriados, à "via dolorosa" que levou à presente confusão circense entre o genuíno e o berrante, à confusão entre mérito e celebridade.
Mas o pior de tudo é que, em jovem, conheci uma outra geração de "cena literária" que ao menos gozava com a sua própria hipocrisia "highbrow", que jogava a cartada da "esquerda-caviar" com deleite, com ironia, com genuíno desprezo pelas massas – com perfeito "tacitismo ironista", tudo rematado em cocktails repletos de subentendidos cúmplices e de "insider jokes". Parece que a ironia se perdeu, e o gozo com ela, e que os sumos-sacerdotes da nova cena literária são tão crédulos que se tomam infinitamente a sério e caíram na armadilha da auto-mistificação, infinitamente replicada e reverberada nos seus fóruns e nas revistas de especialidade com que legitimamente procuram glorificar o seu mester. Uma qualquer "Lei de Gresham", ou uma "entropia de ruído", ou a "long tail" da democratização cultural, privou-os aparentemente da capacidade de detectarem como plástico o plástico que vendem.
É isso que aprisionou a cena literária, e não a esquerda – são quando muito companheiros de calabouço, perdida que está em ambos essa capacidade de distanciamento irónico, entregues que estão ambos às limitações de crentes sinceros na sua idolatria auto-poiética.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

"Iliteracia" económica: um exemplo gritante

As despesas em saúde em Portugal (8% do rendimento) são as mais altas da EU. (LER) 
Ninguém é obrigado a dominar conceitos básicos de economia, mas acho que alguma "literacia" nestes domínios deveria ser requerida a candidatos a jornalistas. No caso, o singelo conceito de "elasticidade" (tanto a elasticidade-preço como a elasticidade-rendimento).
As despesas em saúde são muito inelásticas: logo, se o PIB per capita português fosse o dobro, as nossas despesas seriam provavelmente 4% do rendimento. Get it? Podemos estar a gastar proporcionalmente mais. A questão é se estamos a gastar absolutamente mais.

Speak Low, o "Bent Remix" de Billie Holiday cantando Kurt Weill: hipnótico!


quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A realização de um sonho


Tinha que ser inventado: ao cinzentismo passivo dos Guides Michelin sucede agora o luxuriante e user-friendly "Guia American Express", Rotas por Descobrir / França.
Um sonho para o "armchair traveler", como eu gosto de ser. De Albi a Rocamadour (passeio # 16) e de Carcassonne a Montségur (passeio # 19) encheram-me logo as medidas - e as recriações pictóricas, literárias e historiográficas dos dramas de Albigenses e Cátaros, respectivamente. Mas a crème de la crème é o passeio # 18, sete dias de Collioure a Saint-Jean-de-Luz, correndo de ponta a ponta os Pirenéus, com direito a pernoita no Pic du Midi, devoção peregrina em Saint-Jean-Pied-de-Port, momento ecologista no Lac de Gaube e momento ciclista no Aubisque e no Tourmalet. Um gozo indizível.
Os grandes livros são os que fazem sonhar, não têm que ser os escritos por uma clique literária.
Por mim, imagino-me já na estrada, num descapotável de quatro lugares à saída de Collioure, rumo ao poente…

Conto moral

Tinha que acontecer: o trabalho da algumas semanas guardadinho numa hard drive externa, uns dias fora sem um backup decente, a hard drive cai ao chão… e não há remédio, dizem os especialistas.
Há remédio, que é o da resignação. Vamos lá voltar ao ponto em que estávamos há umas semanas (ou, como diz a bimbalhada regurgitante de redundâncias, "umas semanas atrás").

domingo, 8 de agosto de 2010

Da PVDE, orgulhosamente

Há uns dias uns bloguistas acusavam outros de representarem a nova PVDE.
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Lembrei-me imediatamente do meu avô materno, que foi da PVDE, um santo homem de que conservo as mais doces memórias.
Fora combatente na Flandres com o CEP (aos 18 anos!) e ao regressar enveredou pela carreira das armas.
As incursões monárquicas tomaram em Chaves, a sua terra, tonalidades de guerra civil, reforçando nele as convicções republicanas (as clivagens e ódios em torno desses episódios perduraram muitos decénios, e ainda há hoje localmente historiadores "revisionistas", a remexerem nesse capital de ressentimento). Depois seguiu-se a bandalheira que é sabida, e que nem poupou, em sinistras vendettas alfacinhas, a vida a alguns dos políticos transmontanos.
Imagino o júbilo com que o meu avô aderiu ao movimento do 28 de Maio – um movimento que não apenas se apresentava como regenerador e redentor, visando pôr termo à bandalheira "democrática" (sem questionar o ideário republicano), como ainda era liderado por camaradas de armas, "veteranos da Flandres" como ele.
Não recusou ao Estado Novo nenhuma das tarefas de que o incumbiram, aqui e no Ultramar. Viveu honradamente; não enriqueceu; morreu no amor dos seus e no temor a Deus, que o poupou, por quatro anos, de assistir ao 25A, o desmoronamento de tudo em que ele acreditava, de tudo aquilo que ele modestamente ajudara a edificar.
Lembro-me de um primo meu, herói de guerra, ter saído directamente da cerimónia em que recebera a Torre e Espada para casa do meu avô, a receber a bênção dele.
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Os anos da PVDE consistiram na patrulha da fronteira transmontana, numa época especialmente melindrosa dada a situação em Espanha e dada a carência económica nos dois países. Não sei que género de violências anti-democráticas o meu avô terá cometido, se é que as cometeu; algumas chibatadas e coronhadas em contrabandistas mais ousados, certamente; creio que nada com que encher de esqueletos o armário familiar. Sei que eram patrulhas a cavalo que duravam semanas, e que companheiros de jornada evocavam, muitos anos depois, como à noite se retemperavam, nas aldeias em que se aboletavam, com opíparas pratadas de batatas cozidas (pouco mais havia nesses tempos difíceis).
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Era muito mais patriota do que eu alguma vez serei, e nunca colocou em dúvida que travava o bom combate, que agia pelo bem comum, que servia desígnios históricos colocando as suas forças ao serviço da Lei, e contra aqueles que, no seu espírito, queriam por palavras ou actos (voltar a) comprometer o futuro da Nação. Nunca teria percebido, estou certo, este distanciamento cínico com que um neto dele despreza, ou é indiferente a, quase tudo o que é português (com honrosas excepções). Talvez só me perdoasse tal degeneração aparente como reacção ao rescaldo do 25A.
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Foi da PVDE.
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De vez em quando buscamos no sedimento do nosso impudor congénito alguns pedregulhos para arremessarmos, e esse da culpa colectiva e retroactiva por pertença a uma organização policial, uma monstruosidade jurídica com que o revanchismo abrilino ornamentou a própria Constituição, é decerto o mais acerado e fétido dos pedregulhos – é uma vergonha jurídica e moral.
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Um dia um Daniel Goldhagen qualquer explicará que essa demonização da PVDE, e da PIDE/DGS, não passa de uma ínvia forma de exoneração colectiva, por atribuição "concentrada" de males que não podiam senão residir em todos nós, bem arreigados em "familiares do Santo Ofício" que nunca deixámos de ser, por mais que, terminado o "passa-culpas", protestemos a nossa devoção à liberdade e à tolerância política e cívica.
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Um dia alguém, sem pré-aviso, esgravatará mais fundo do que a lia da memória lusa e soerguerá o espelho dessa nossa identidade "bufa" (em mais de um sentido). A imagem será horrível.

sábado, 7 de agosto de 2010

Um bocadinho de gozo privado depois de uma indigestão de noticiários (vai minha tristeza...)


O Fortuna



As desgraças são como as ondas do mar, aparecem ciclicamente, compactas, alternando com momentos de calmaria e alívio.
Às vezes penso que as pessoas mais velhas do que eu possuem um qualquer detector dessas cadências, e é por isso que encaram com menos ansiedade as calmarias e com mais resignação a turbulência. Às vezes penso que um dia acertarei com o ritmo (será isso que se designa por biorritmo?), não baixarei a guarda tanto nuns casos, não serei tão inconscientemente feliz, e não sofrerei tanto, não experimentarei o sentimento de desorientação e de afogamento nos outros – e não envenenarei tanto a existência com esta suspeita diabólica, esta ansiedade, de que posso estar exposto, eu e quem eu estimo, a uma acumulação descontrolada de infortúnios que podem estar a avançar – e de que desgraçadamente se multiplicam já tantos prenúncios em redor.
Curiosamente, não creio que nada disto possa resolver-se por uma capitalização de sabedoria, por um serenamento induzido por leituras ou exemplos. Há algo de misterioso neste acaso, e não deve ser menos misteriosa a forma como se adquirem as necessárias defesas. Deve ter algo a ver com fé.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Reflexões twitterianas (10 / 10)

Ao tom da Helena Matos: Michelle Obama mandou fechar Marbella para lá se festejar o encerramento de Guantánamo?

Reflexões twitterianas (9 / 10)

Portugal é o 3º da EU em precariedade. Somos grandes! Mas ainda havemos de arranjar maneira de fazer com que os precários sustentem, através do admirável "pay-as-you-go", a reforma dos efectivos que se entricheiraram nos seus "direitos adquiridos" para lixarem os precários (uma reforma que, por sua vez, novamente discriminará contra os precários).

Reflexões twitterianas (8 / 10)

A Rainha de Inglaterra tem um legião de podengos que larga aos faisões e aos patos lá nas charnecas de Balmoral. Por cá o Sr. Procurador Geral larga o lobby coimbrão quando se sente acossado.

Reflexões twitterianas (7 / 10)

CMVM vai supervisionar (eufemismo para "tentar calar") as agências de "rating". Engraçado seria se pudesse mesmo fazê-lo. Lembra a Nova Zelândia e o seu pioneirismo na abolição da experimentação laboratorial em primatas – coisa que não existia na Nova Zelândia…

Reflexões twitterianas (6 / 10)

Sou a favor da abolição dos chumbos nas escolas. Só assim as adequamos a uma sociedade em que o mérito é raramente critério. Mais precisamente: ter-se sido bom aluno tornou-se uma irrelevância em Portugal, uma bizarria de tom narcísico.

Reflexões twitterianas (5 / 10)

UNESCO classifica mais 21 bens como "património mundial". É aos magotes! Desde já declaro o desinteresse do Ashram em tornar-se mais um membro desse património "descarrilhado".

Reflexões twitterianas (4 / 10)

Um jovem representante de uma organização imaginativamente designada por "Passmúsica" assevera que "tem que haver respeito pelas pessoas que fazem música". Eu concordo, e começaria pela abolição destas organizações parasitárias ditas de "gestão colectiva de direitos"…

Reflexões twitterianas (3 / 10)

Portugal vai proibir a expansão do Street View do Google Maps? Além de darmos uma bela imagem ao mundo, vamos pôr toda a gente a imaginar o que é que andamos a fazer que não queremos que se saiba (e que se veja)…

Reflexões twitterianas (2 / 10)

Vai acabar o desemprego? Se vingar a proposta de se garantir emprego às vítimas de violência doméstica, desata tudo à porrada lá na barraca e temos o problema resolvido!

Reflexões twitterianas (1 / 10)

Como deixei de seguir as notícias (o Ashram tornou-se uma zona livre de notícias, como outrora Alhos Vedros era uma zona livre de armas nucleares), hoje compraram-me dois jornais e eu empanturrei-me.

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