O novo Ashram minimalista

sábado, 31 de julho de 2010

Rufus, "Sans peur et sans reproche"



Sgt. Christopher Duke and wife Lauren Duke greet Rufus at PetAirways on Thursday, July 29, 2010, in Atlanta, Georgia. Rufus and two other dogs saved Duke's and other soldiers' lives while serving in Afghanistan when on the evening of Feb. 11, 2010, the dogs attacked a suicide bomber trying to enter their barracks, forcing the bomber to detonate his explosives in the entry corridor. Though five of the 50 soldiers present sustained injuries, none died that night thanks to the three dogs. One of the dogs was killed, the other two later recovered from their injuries. Sgt. Duke wrote to a veterans assistance group called "Hope for the Warriors" asking for the dogs to be brought to the United States, and $21,000 was raised in less than 3 months enabling the dogs to leave Afghanistan.

Agora disponíveis na Net: Gottlieb Jazz Photos



 

Um raio de Sol na água fria (3): lembrando a chegada ao Ashram da velha Pikasso Guitar


Um raio de Sol na água fria (2): lições de swing contido, com um soupçon de bossa


Um raio de Sol na água fria (1): envelhecer com classe, Taylor-style


sexta-feira, 30 de julho de 2010

Ironias do anonimato



Um leitor atento manda-me… ler-me a mim próprio!

Ainda não é desta…


Novo sótão no Ashram



Afinal, proibir o sofrimento é que é "pisar o risco"



O plumitivo Fernandes acoita-se agora, aparentemente sem qualquer ironia, numa noção peculiar de "liberdade marialva", contra a qual, confesso, se torna penoso argumentar. Mas aqui vai:

Sr. Fernandes:
Deixe lá o espectáculo da auto-comiseração. Já percebi que acha que na origem disto tudo estão os animais e o seu “sofrimento”, e os “imbecis analfabetos” são os pobres jansenistas preocupados com a saúde dos touros. E o outros são uns selvagens e bla, bla, bla. Nem sabe quantas vezes já ouvi isto. Mas também conheço muita gente que, mesmo rejeitando as corridas de touros e desejando o seu fim, não pisam o risco da proibição. Por isso, condoa-se à vontade com o sofrimento dos touros. Não venha é com proibições…
Ah, e em Espanha não há essas “mariconadas” das limonadas. Na praça, puros e gin tónico (lamento, mas tenho que que manter a pose e ostentação, não é? Sibarita até ao fim…). É um oásis numa Europa de meninos.

Sr. Jansenista:
Sr. Fernandes, onde está a auto-comiseração? De eu ter adoptado para mim os epítetos que o Sr. tão alegremente bolsou sobre quem não alinha em cevar os seus apetites sanguinários?
O Sr. entende que “proibir” é “pisar o risco”? Ó libérrimo Sr. Fernandes, agora é que se erguem em aplauso os sádicos, proxenetas, negreiros, torcionários e algozes do mundo! É verdade, eles também não querem ser proibidos! Eles acham que o Direito Penal é um recuo civilizacional, é um “piso no risco”.
Causar sofrimento não é pisar o risco: proibi-lo é que é! Átila o Huno teria delirado com o Sr. Fernandes. Até a banda pedófila arrancaria em pasodoble com essa defesa das “liberdades”!
Quanto às limonadas e às orchatas, lamento Sr. Fernandes mas a sua propensão sibarítica entra no delírio – porque manifestamente nunca se aproximou de um redondel andaluz ou castelhano (deve imaginar que são postos de venda do Gin Larios…). E a sua fanfarronada quanto à “mariconice” das bebidas não-alcoólicas diz volumes quanto às carências e pulsões que as suas sublimações toireiras procuram resolver. Mas não me atrevo a citar Freud, não vá aparecer outra vez o cabresto “jóia magnética do norte” a dizer, sei lá, que Freud nunca existiu, ou que é outra fraude…
Ah, e quanto à “Europa de meninos”: novamente cuidado com expressões dessas, depois de ter asseverado que “proibir” é que é “pisar o risco”…

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Outra vez o anonimato



O autor do blogue Portugal dos Pequeninos, entre palavras simpáticas para o Ashram, avança com a opinião de que fui "lamentavelmente arrastado pela facilidade do anonimato" (LER).
Seria contraditório dar razões particulares tão específicas que redundassem na quebra desse anonimato.
Digamos apenas, por isso, que já várias vezes me pronunciei a esse respeito (VER).
Por consideração para o Confrade, retomo uma defesa de princípio que já enunciei há dois anos (AQUI), e que em geral continuo a subscrever:

+++

"O nome que nos é dado, em sociedades de reduzida mobilidade social, investe-nos num estatuto de privilégio ou de privação que nos engaiola – e o faz com um peso colectivo tão determinante que não hesitamos em atribuir ao destino aquilo que não passa de puro corolário da convenção social.
Essas sociedades policiam, não raro ferozmente, a criação e a perpetuação desses papéis e estatutos – e só não o fazem mais porque contam com a interiorização espontânea dos valores que representam, o auto-policiamento por parte daqueles que vêm em tudo isso uma fatalidade, um sentido, um interesse até.
Mais ainda, essas sociedades não toleram surpresas no jogo, e por isso reclamam de cada um o aval do seu pedigree, para saberem quem privilegiar e quem humilhar e excluir, independentemente daquilo que as pessoas façam. Todos nascemos com a herança dessa marca, e muitos com esse estigma.
Por isso essas sociedades desconfiam do anonimato.
Não importa se o «Nuno» tem nobreza de carácter, se tem talento, se tem ambições: interessa é saber se nasceu para servir ou para ser servido, para mandar ou para ser mandado, para abrir caminho ou para seguir os outros; e para isso é determinante tratar-se do «Nuno Nunes», constituir o último elo, visivelmente marcado e facilmente identificado, de uma cadeia de castas superiores ou inferiores.
Na simbiose da sociedade rígida e fechada, a ninguém é, no fundo, consentida a autoria do papel que a sua existência total representa – e não admira que as mais gratificantes formas de auto-realização e transcendência pessoal tenham que ocorrer, dado o contexto, no reduto da privacidade, na invisibilidade e no silêncio, para lá das remotas fronteiras até às quais se estende a grilheta da alienação.
O anonimato é, nestas ocasiões, a máscara com que assomamos à janela desses redutos. Quando a sociedade vai longe de mais no tributo que nos pede e na marca que nos impõe, ressurge espontaneamente um sentido nobre de anonimato, que é a recusa de uma «regra de jogo» que sabemos viciada. Uma recusa que se converte num acto de libertação privada."

Diálogo do letrado Fernandes com o taberneiro Jansenista (continua o repartee callejero):



Diz o Sr. Fernandes:
Há quem diga que no caminho para, e no próprio matadouro, o animal “sofre” ao ponto de a carne perder qualidades. Não sei, não sou especialista em “sensibilidade ecologista”, mas é o que dizem os mesmos – os mais militantes, pelo menos – que se indignam com as touradas. Talvez não seja verdade. Pode comer a sua costeleta de novilho descansado. Longe da vista, longe do coração.

Diz o Sr. Jansenista:
Não é necessária qualquer “sensibilidade ecologista”, basta ver o quadro normativo que enquadra as actividades do abate. Os veterinários (e um batalhão de funcionários que têm por única função zelarem pelo cumprimento das leis e das directivas e regulamentos comunitários) encarregam-se de que nada se passe “longe da vista”.
Mas o que importa é que, por maioria de razão, acaba de admitir que há sofrimento, extremos de sofrimento (porque nada lá se encontra a mitigá-lo), na arena.
Gostaria de ouvi-lo dizer expressamente que infligirmos sofrimento por pura diversão é um exercício de liberdade. Os sádicos de todo o mundo vão agradecer-lhe a solidariedade.
E mesmo o espectro de gerações de proxenetas, algozes e negreiros virá agradecer-lhe em sonhos essa glorificação do sofrimento “tradicional”, essa defesa estrénue da “liberdade” de oprimir e impor sofrimento.

Diz o Sr. Fernandes:
(Por muitos funcionários e veterinários que existam, os militantes da causa animal continuam a dizer que os animais sofrem de stress a caminho do matadouro, e no matadouro. Não sou eu que o digo. E também se sabe que bicho de “aviário” não tem uma vida muito…vamos lá ver como explico isto…agradável?)
Pronto, só faltava misturar animais e seres humanos.
“E mesmo o espectro de gerações de proxenetas, algozes e negreiros virá agradecer-lhe em sonhos essa glorificação do sofrimento “tradicional”, essa defesa estrénue da “liberdade” de oprimir e impor sofrimento.”
Isto também deve um nome qualquer, e até em latim ou em grego, antigo e tal, com ou sem equivalente moderno, eu é que agora não estou a ver qual é.
“Gostaria de ouvi-lo dizer expressamente que infligirmos sofrimento por pura diversão é um exercício de liberdade.”
Confesso: gosto muito de comer um belo naco de foie-gras, de preferência com um Tokaji 5 Puttonyos. Conta como pura diversão? É que dizem que o pato e o ganso passam um mau bocado

Diz o Sr. Jansenista:
Que o Sr. Fernandes vá multiplicando, de post para post, as suas confissões (não contritas) acerca das suas práticas que acarretam sofrimento para não-humanos, eis o que não sei que prova em termos dialécticos – mas sei bem o que mostra.
Quanto a renegar paralelismos, é o velho repúdio do contínuo entre espécies, o argumento das almas descarnadas no ápice da “grande cadeia do ser” (remeto-o para A.O. Lovejoy, lá verá o latim que reclama) – parecendo portanto que renega a sua condição animal, e que desligou a sua empatia para o sofrimento alheio (a menos que queira sugerir que a) há uma qualquer incomparabilidade entre o sofrimento dos não-humanos e o dos humanos, b) que nos humanos não é a pura animalidade que sofre).
Para lhe facilitar a meditação, há uma forma de sofrimento que é quase exclusiva dos humanos, que é a humilhação (entre chimpanzés e bonobos ela já foi observada, mas não quero beliscar o seu argumento da “superioridade” entre espécies).
Seja sibarita à vontade e continue a devorar foie-gras de pleno borco. Um dia quando o seu corpo lhe apresentar a factura de tanto excesso há-de esperar, legitimamente, que os outros tenham empatia pela forma puramente animal(esca) como experimentará o seu sofrimento físico, a sua dependência e a sua vulnerabilidade – que obviamente, coerente como sou, não lhe desejo.

Diz o Sr. Fernandes:
“a) há uma qualquer incomparabilidade entre o sofrimento dos não-humanos e o dos humanos”
Até pode haver, não sabia? Chama-se “noção do passado” e, até ver, só os humanos (e talvez alguns primatas superiores) a têm. Já dizia Borges, os animais vivem no presente…
Preocupe-se com o seu corpo, que eu preocupo-me com o meu, vale? (só me faltava esta…)

Diz o Sr. Jansenista:
Que a maior parte dos animais não-humanos tem noção do passado é evidente – faz parte do processo de aprendizagem com o qual eles apuram a sua capacidade darwinista de sobrevivência. Já pensou porque é que os animais na selva e na savana fogem dos seus predadores antes de qualquer ataque? Será porque “vivem no presente”? Coitado do Borges, deixe-o lá em paz, com liberdade poética a ideia de “noção do passado” passa a significar qualquer coisa.
O Sr. Fernandes já ouvi falar da gorila Koko que narrava o seu passado através de linguagem gestual?
Mais grave: o Sr. Fernandes quer negar a natureza humana, ou os direitos humanos inerentes àquela natureza, àqueles da nossa espécie que, por um qualquer infortúnio, não chegaram a adquirir, ou entretanto perderam, a sua “noção do passado”?
Quanto ao seu corpo, não me preocupo demasiado (embora a minha empatia pela animalidade dos outros não me torne indiferente – e aqui está o cerne do que nos distingue) – apenas estava a adverti-lo para as consequências “hubrísticas” daquilo que o Sr. Fernandes, com uma certa dose de ostentação, andava a reclamar que fazia com ele. Deixe de referir as suas proezas gastronómicas como argumento, e eu deixo de usá-las como premissa, vale?
Podemos nós admitir que o Sr. Fernandes esteja disposto a reconhecer que os toiros também têm o direito de se preocuparem com o corpo deles? Ou o seu gozo sanguinário dá-lhe a si a prerrogativa de lhes negar o direito de não sofrerem na arena?

Diz o Sr. Fernandes:
Sim, muito evidente…Poupe-nos às tergiversações darwinistas de Reader’s Digest. Estas coisas são um bocadinho mais complicadas (ou mais simples como a resposta a:”…porque é que os animais na selva e na savana fogem dos seus predadores antes de qualquer ataque?”).
Quanto às advertências para as consequências do que faço na minha esfera privada, dispenso (deixemos passar essa de “referir proezas gastronómicas como argumento”; foi levado pelo entusiasmo, certamente). Mas é livre de as fazer, claro. Já sobre imputar-me “gozo sanguinário”, olhe, não sei o que lhe diga. Dá-lhe jeito para a tese? Força.

Diz o Sr. Jansenista:
O Sr. Fernandes está a ficar algo obscuro na sua argumentação. Parece que leu Darwin no Reader’s Digest, porque o nome daquele evoca esta publicação. E porque não?
Assumindo que está a falar com um daqueles “imbecis analfabetos” que se condoem com o sofrimento dos toiros, adverte para o facto de estas “coisas” serem “um bocadinho mais complicadas”, e logo de seguida “mais simples”.
Na minha inocência de “taberneiro” “provinciano”, sigo alegremente o seu paternalismo de cicerone pelos labirintos da cultura, mas ó homem decida-se, vá buscar o fio de Ariadne, não vá sair-lhe outro célebre e possante toiro ao caminho!
Peço já desculpa de ter designado por “proezas gastronómicas” a ostentação de que gosta de rabo de boi à cordobesa, de foie gras e de vinhos de difícil pronunciação: manifestamente para o Sr. Fernandes não são proeza, são rotina.
A obscuridade adensa-se quando parece rejeitar o “gozo sanguinário” como o móbil do seu deleite com a fiesta. Se o Sr. Fernandes já foi a uma tourada, como eu já fui, terá visto sangue, não? Ou será que só esteve em touradas na Califórnia, com aquela mantinha de velcro a que aderem os ferros?
Quando o touro começa a esvair-se em sangue depois de uma sorte de varas ou do tércio de bandarilhas o Sr. Fernandes levanta-se e vai tomar uma limonada cá fora? O seu íntimo protesta contra o espectáculo cruento? A sua empatia interpela-o?
Não? Então assuma, que raio, assuma! Não bata contrito no peito que é contra o espectáculo do sofrimento ao mesmo tempo que o defende! Assuma! Não hesite! Não obscureça! Não fuja às questões! Eu debato as que o Sr. quiser, com ou sem o Reader’s Digest!

Vamos a isto, Sr. Fernandes



Chamaram-me a atenção para as chicuelinas e verónicas argumentativas, de mescla com adjectivação roncante, com que um tal Sr. Fernandes sai em defesa da corrida taurina.
Brande lesto o pampilho, e mesmo antes de eu prestar atenção aos argumentos sou logo ferroado de "taberneiro", "provinciano", membro de uma "trupe de imbecis analfabetos". (ALI e AQUI)
Para minha infelicidade, parece que na cernelha participa também, com entusiasmo, um querido amigo de infância (vamos esperar que seja pseudónimo).
A ideia é a de que proibir a fiesta é atentar contra as liberdades, e o libérrimo plumitivo louva-se até num congénere castelhano, o façanhudo Camacho (só o nome intimida, com as suas evocações de outros tercios, os dos legionários – j'en passe).
Aqui vai uma simpática troca de opiniões:

"A liberdade, no caso, consiste em só ir à tourada quem quer – se exceptuarmos os toiros e os cavalos…" Comentário por O Jansenista

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"Da próxima vez que me apetecer comer rabo de touro à cordobesa vou perguntar antes ao touro se quer ir ao matadouro. Ele é capaz de dizer que não e lá vou ficar sem o jantar." Comentário por Carlos M. Fernandes

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"E eu que supunha que nos matadouros os bois tinham que ser primeiro atordoados, de forma a morrerem sem sofrimento. Mas se o Sr. Fernandes sabe que eles são picados, bandarilhados e estocados para depois serem esquartejados e ingeridos, compreendo que propenda para o vegetarianismo.
A questão é do sofrimento, não é a da morte – e portanto também não é a do abate.
Saberá o Sr. Fernandes que os animais humanos também morrem? (lamento ser eu a dar-lhe a notícia, caso não soubesse) A inevitabilidade dessa morte justifica a sujeição deles ao sofrimento? (de qualquer modo vão morrer, e a maior parte morre involuntariamente…).
Aqui tem, com ênfase e insistência: a questão é o sofrimento, não é a morte.
Agora confunda os argumentos à vontade. Antigamente chamava-se a isso “ignoratio elenchi”; vou deixá-lo à vontade para encontrar o equivalente moderno." Comentário por O Jansenista

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O Sr. Fernandes vai ter que se aguentar nesta faena. Vou voltar lá as vezes que forem necessárias até que ele se arrependa de meter-se com taberneiros provincianos de uma trupe de imbecis analfabetos que têm esta teimosia de sentirem compaixão pelo sofrimento, seja no animal humano seja nos outros animais que partilham connosco o planeta, que bebem a mesma água, que respiram o mesmo ar, que aqui nascem, aqui vivem e aqui morrem.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Bolonha, o Leblon universitário



Na Zona Sul, nada há mais agradável do que curtir uma prainha no Leblon, caminho de São Conrado.
Problema mesmo é quando o pessoal do morro resolve aparecer (pessoal da Chácara do Céu, sobretudo do Vidigal). É o pânico dos turistas, e mesmo o carioca mais couraçado se afasta, recolhendo os pertences e saltitando em sunga para o mais próximo ponto de ônibus.
O pessoal do morro tem todo o direito de ir à praia. O pessoal que não é do morro tem todo o direito de sair da praia, de não querer permanecer na praia quando os favelados aparecem.
A aflição é que o pessoal do morro precisa do outro pessoal para viver; e precisa que o outro pessoal continue indo à praia, e que o dinheiro não fuja para lá do Jardim de Alah (ali onde a Delfim Moreira vira Vieira Souto e Ipanema começa).
+++
Lembrei-me destes dois Rios em tensão e simbiose quando li as judiciosas observações do Confrade COMBUSTÕES acerca daquilo que ele designa como o "compacto bolonhês". Há uma universidade que não pode, ou não quer, excluir o morro, mas o morro que desembarca em massa na universidade acaba por degradá-la, ou seja, por submetê-la a denominadores comuns que são muito, muito baixos.
E o paradoxal é que não é essa universidade degradada que atrai o morro – o morro que é autor e vítima desse "efeito de miragem" que, apesar dos solavancos e das inércias e do "compacto bolonhês", continua ainda a associar alguma aura ao Leblon universitário.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Calafrios num dia de calor (3)



Viver, gozar a vida, exige sorte.
Quando reclamamos da vida que ela seja justa, ela esmaga-nos com a sua majestática indiferença pelo bem e pelo mal, e devolve-nos somente a sorte, a boa e a má; não a justiça, que seria sempre boa.
Podemos revoltar-nos, mas a revolta não nos ajuda a viver, apenas nos indispõe para o tempo que passa, bloqueia-nos o gozo da vida que só a sorte propicia.
A vida é cruel, porque nos anima a pensar que ela é presidida por uma redenção justiceira, e dessa ilusão faz jorrar a energia para prosseguirmos, para nos afadigarmos, para sonharmos – para depois distribuir, totalmente ao acaso, benesses que não são prémios e sofrimentos que não são castigos; para depois nos ir eliminando, um a um, independentemente dos nossos sonhos, das nossas fadigas, do nosso ânimo – até do nosso apego ao gozo pretérito que nos faz doirar, recobrindo-a de valor, a distância em que éramos tudo sem pensarmos nisso.
A vida ser-nos-ia insuportável sem essa ilusão; mas é essa mesma ilusão que torna ainda mais insuportável a descoberta do infortúnio em que se alicerça a pouca fortuna que ao acaso nos foi sendo outorgada (no momento em que deixa de o ser).

The Fragility of Goodness (p. 8), The Therapy of Desire (p. 3)



Calafrios num dia de calor (2)


Calafrios num dia de calor (1)


 

sexta-feira, 23 de julho de 2010

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