O novo Ashram minimalista

sábado, 19 de junho de 2010

Um grama de sabedoria





O Mahatma Gandhi tinha uma forma muito própria de exprimir, em tiradas breves, o absolutismo ético – aquilo que nós designaríamos por ética kantiana. Esta, lapidar, é-lhe atribuída (e merecia ser a 4ª versão do Imperativo Categórico): DEVEMOS SER NÓS PRÓPRIOS A REVOLUÇÃO QUE QUEREMOS VER NO MUNDO.

Pandemónio no Inferno: hoje o noticiário regressa à bola


sexta-feira, 18 de junho de 2010

Alvos errados (2)



Parece que o confrade Francisco José Viegas não gosta que as senhoras católicas queiram afirmar-se politicamente. Estranha forma de polícia doxástica, algo invulgar para quem vive da própria liberdade de pensamento e de expressão. Talvez por misoginia e crispação ele se tenha lembrado de crismar essas senhoras como idiotas inúteis, um qualificativo que, em boa justiça, deveria estar rigorosamente reservado para aqueles que, em nome dos outros, se têm arrogado governarem o país desgovernando-o.
Por mim, se é para entregar mais de metade do que produzo para impostos e depois ter como resultado o arrastar do Estado para a beira da bancarrota:
1) acho que podemos dispensar os actuais governantes e aqueles que, na oposição, já demonstraram não querer senão imitá-los, e remetê-los a todos para a casota dos idiotas inúteis;
2) acho que devemos parar para escutar essas senhoras que demonstram a suprema sabedoria de quererem viver mais no registo da moral e da religião do que no da política – até porque no fim, no cemitério, a morte há-de acolher do mesmo modo os que passaram suavemente pela vida, no temor a Deus e na prática do bem, e os que se consumiram na paixão e nas miragens postiças da "coisa política", oprimindo e negando os sonhos alheios, adulterando os projectos de realização individuais;
3) acho que, se essas senhoras pudessem mandar, teriam a sabedoria de nos manterem na ilusão de que seremos nós sempre a mandarmos – uma ilusão que faz de todos os homens, e em especial daqueles que ainda veneram o bezerro d'oiro da política, um misto de idiotas e de inúteis.

Alvos errados (1)



O Confrade Combustões resolveu investir contra De Gaulle. Até parece que não sobram alvos muito mais merecedores...
De Gaulle é demasiado complexo para um juízo moral ou histórico simples. Com justiça ou sem ela, com luzes e sombras, ele conduziu a França à libertação, evitando a 25ª hora da queda no comunismo ou na guerra civil.
Ninguém alcançou o seu carisma na França do Século XX – e logo na pátria mais voltaireana, a mais refractária a carismas…
Para mim ele é um roble num horizonte de pinheirinhos mansos que, na própria geração dele, se deixaram conspurcar em conúbios ideológicos e em cobardias que ficarão a manchar a memória colectiva por muitos séculos. Rico em virtudes, abastado em defeitos, um grande homem em suma.

O Síndrome de Saipan



Desde que algumas centenas ou milhares de ilhéus japoneses, militares e civis, preferiram lançar-se de penhascos a renderem-se às forças norte-americanas que não se via um gesto tão coeso de suicídio colectivo.
Um dia os advogados portugueses acordaram debaixo do karma errado e resolveram eleger um fanático para bastonário: uma vergonha, um embaraço, o remate de um Todestrieb que talvez algum spleen fin-de-siècle possa explicar.
Agora esse último avatar chavista do Abrilismo festivo consuma a ameaça de "fechar" a Ordem dos Advogados aos jovens candidatos, como forma de perpetuar privilégios e converter em "renda" (definitiva) a "quase renda" que os obstáculos tradicionais já asseguravam.
A classe vai acabar por colher os frutos do que semeou e permitiu que se semeasse; se julgam que são capazes de perpetuar a manobra corporativista, recomendo-lhes que vão rapidamente em busca de uma qualquer rocha tarpeia. Vai tudo acabar mal.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

As cartas apócrifas de Estalinegrado



Conheci um tipo que se comovia lendo as cartas atribuídas aos últimos resistentes de Estalinegrado.
Um dia dei-lhe a ler alguns textos que provavam que todas essas cartas eram apócrifas, sem excepção.
Depois invoquei juízos de plausibilidade – como haveria a censura da correspondência de deixar passar esses desesperantes veículos de derrotismo? E como é que, nas condições animalescas dos últimos dias do Kessel haveriam os sobreviventes de dispersar as energias em comunicações que disputariam obviamente espaço e tempo com a evacuação de feridos? E os textos continham relatos de que o pouco que havia fora destruído ou abandonado (uma pilha de papéis carbonizados em holocausto no Mamayev Kurgan). As famosas cartas tinham sido forjadas nos anos 50.
A certa altura ele encolheu os ombros e, com aquela resignação dos crentes no sudário de Turim, confessou-me estar velho de mais para mudar as suas crenças.
Na altura achei aquilo de uma estupidez extrema, mas desde então tenho-me interrogado se não é exactamente isso que fazemos de cada vez que pensamos na História e nos referimos à História – não o relato "wie es eigentlich gewesen", mas uma colagem de crenças que nenhuma plausibilidade vem policiar. A História é o registo diacrónico daquilo em que queremos acreditar, tenha acontecido ou não; e, pensando melhor, o mesmo faz, à nossa memória, o mitómano que habita em cada um de nós e que procede à radical triagem das nossas reminiscências.

Adão e…


De vez em quando fazemos as pazes


 

quarta-feira, 16 de junho de 2010

domingo, 13 de junho de 2010

À memória de António Manuel Couto Viana



(…)
Não nasças! Nada temos que te dar:
Mirrada a mirra, o oiro gasto
E o incenso apenas a incensar
O ladrão que roubou o rebanho e o pasto.
(...)

Excerto de um poema dedicado a Manuel Maria Múrias
António Manuel Couto Viana, Nado Nada (1977)

Estou de volta!



 

Porque será que o próprio Presidente da Autoridade Palestiniana é favorável ao bloqueio a Gaza?


quinta-feira, 10 de junho de 2010

Mar por mar, preferia…




"...this poor haunted canyon which again gives me the willies as we walk under the bridge and come to those heartless breakers busting in on sand higher than earth and looking like the heartlessness of wisdom --Besides I suddenly notice as if for the first time the awful way the leaves of the canyon that have managed to be blown to the surf are all hesitantly advancing in gusts of wind then finally plunging into the surf, to be dispersed and belted and melted and taken off to sea --I turn around and notice how the wind is just harrying them off trees and into the sea, just hurrying them as it were to death --In my condition they look human trembling to that brink --Hastening, hastening ---In that awful huge roar blast of autumn Sur wind."
Jack Kerouac, Big Sur

quarta-feira, 9 de junho de 2010

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Extrapolando de uma leitura de A.



A passagem do tempo ensina-nos duas ou três coisas sobre a vida que invariavelmente ignoramos quando somos mais jovens:
- Que a vida é sempre imprevisível, no sentido de que é muito mais o que nos acontece do que aquilo que fazemos acontecer.
- Que a vida é um exercício solitário entre intermitências de companhia, no sentido de que a identidade que transportamos é infinitamente mais próxima do que tudo o que nos é exterior.
- Que a vida nos impõe compromissos, ambiguidades e pequenos vexames, corporais e morais, no sentido de que toda ela é uma travagem num plano inclinado, sem retorno.
Por isso é que precisamos tão crucialmente de nos reimaginarmos, de vivermos ficcionadamente o que não vivemos, de impormos algum sentido e valor àquilo que irremediavelmente experimentamos sem sentido e sem valor, de deambularmos no tempo, para trás e para a frente, construindo o que é inacessível e julgando resgatar o que efectivamente está perdido.
Por isso as nossas vidas pardacentas precisam de uma demão de contra-factual a colori-las – nem que seja na insinuação risquée, no double entendre, na verbalização transgressora, na imaginação aventureira, na frivolidade, uma forma habilidosa e gratificante de, burgueses sedentários, permanecermos amarrados ao cais quando a nossa inquietação nos dita que, como nas palavras do poeta, navegar é preciso.

De regresso ao Brasil


Dois puzzles para constitucionalistas


Depois de termos andado tantos anos a pensar que o ensino obrigatório visava proporcionar às crianças e jovens o convívio com os da sua geração, a partilha de valores, a socialização do conhecimento, descobrimos agora que não, que é uma corrida – que estimula os fugitivos e proporciona até um atalho para os retardatários.
Um preclaro especialista vai ao ponto de asseverar que assim é que é, e que "as normas constitucionais estão pensadas para pessoas normais, não para as excepcionais" (MARAVILHA), sendo portanto que 1) os sobredotados não estão sujeitos aos limites constitucionais e 2) os sobredotados podem sair mais cedo do sistema, mesmo mandando às urtigas a socialização e o convívio geracional.
Dois problemas para os constitucionalistas cá da tabanca: 1) O Júlio acha-se sobredotado para o gamanço, em especial o de carteiras no eléctrico 28 – logo, as detenções pela bófia são inconstitucionais, não é? 2) O pai do Kléber acha que o catraio, que já tem 11 anos, é um sobredotado – pode portanto acelerar-lhe o ensino e pô-lo aos 12 anos a dar uma mãozinha das 9 às 6 lá na oficina, então não?

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O Vinicius tem razão (II)



Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra quê somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer

Vinicius de Moraes

O Vinicius tem razão (I)



Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...

Vinicius de Moraes

Um dia em que apetecia partir (com elegância)




DIA INTERNACIONAL DA FEBRE DOS FENOS (pelo menos para mim)


Actualidade política: ó Asdrúbal, passa aí a "golden share"!


Ashram na pradaria (relendo Louis l'Amour)


quinta-feira, 3 de junho de 2010

More than a distant land


 

Como lidar com terroristas (e não-terroristas)



Quando foi preciso defender os nossos interesses na Guiné, fomos até Conakri partir os cornos a uns quantos terroristas que por lá se abrigavam; ainda tentámos limpar o sebo ao Sekou Touré e conseguimos libertar alguns prisioneiros nossos.
Matámos sem hesitar algumas dezenas de soldados da Guiné-Conakri, e umas dúzias de civis pagaram com a vida a imprudência de estarem no local inoportuno no momento inoportuno.
Nem preciso entrar no detalhe acerca daquilo que, séculos antes, Afonso de Albuquerque fez e mandou fazer à moirama que por único pecado tinha o de pretender opor-se à expansão da cruz e do comércio – bastará lembrar que os desgraçados, acorrentados uns aos outros, se degolavam mutuamente à dentada para não terem que sofrer às mãos dos portugueses.
Não me sinto nem mais nem menos orgulhoso de ser português por sê-lo à custa de tanto sangue e de tanta crueldade. A história das nações fez-se e faz-se assim, com a crueza de entidades que, imunes ao pactum subjectionis ao Leviatão (o pacto de renúncia mútua à força), se reservam a prerrogativa de se afirmarem e se auto-preservarem usando a brutalidade e o medo como razão última.
Não sei em que é que Israel tem que ser diferente; não sei porque é que deveria deixar terroristas medrarem à sua porta, ou porque é que deveria sujeitar os meios da sua auto-preservação aos frívolos ditames da larilice ética.

O comboio O desejado



Agora que chegam notícias de que Portugal vai colaborar com Marrocos no projecto da Alta Velocidade, fico com a certeza de que um dia veremos o TGV irromper numa manhã de nevoeiro, vindo da estação de Alcácer-Quibir.

Esqueçamos a Grécia… o exemplo vem da Guatemala!


 

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