O novo Ashram minimalista

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Sobre a parvalhização


O Confrade Combustões arranca hoje, da sua pluma talentosa, um manifesto de pessimismo antropológico, daqueles que a gente tem relendo «Sôbolos Rios»:

Aqueles que tintos vão
no pobre sangue inocente,
soberbos co poder vão,
arrasai-os igualmente,
conheçam que humanos são.

Mas não está o Confrade, literalmente, na «outra Sião»?

Ditoso quem se partir
para ti, terra excelente,
tão justo e tão penitente
que, depois de a ti subir
lá descanse eternamente.

Palais Garnier (a velha Ópera)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Vademecum existencial. I- Espíritos (3, XO ou VSOP?)

Hoje trazia uma receita de «liqueur de mirabelles au rhum», que quer dizer uma bebedeira laxante com ameixas enquanto se trauteia a toada "En passant par la Lorraine avec mes sabots", mas depois hesitei entre essa e uma «liqueur vieux garçon», para ir beberricando aos acordes de Jacques Dutronc, "Il est cinq heures Paris s'éveille".
Quem não tem 60 milhões para resgatar o Palais Lambert (Île Saint Louis) das mãos de caterpillar do irmão do Emir do Dubai pode sempre alhear-se da sorte plutocrática do mundo e cultivar o seu jardim (de preferência no seizième, "aux abords de Chaillot, avec vue imprennable sur la Tour Eiffel").
Não ouso sequer entrar no sacrário dos Cognacs, nem mesmo dos Armagnacs, e nem uma funda reverência por Proust me leva a ousar um esboço sobre as virtudes espirituosas do Calvados.
Deve ser em homenagem à pátria de Voltaire que as bedidas alcoólicas foram crismadas de "espirituosas".
O palato com discernimento rende-se à inefabilidade e confunde, na noite dos sentidos, a grandeza circundante com o gozo irónico da sagesse.
Deixem os bárbaros esventrarem com jacuzzis e elevadores e garagens e parquets o Palais Lambert – ainda sobram a Paris muitas e muitas e muitas "longueurs d'avance", que não dão qualquer chance ao resto do mundo…

Fiéis Defuntos em Mazatlán, México


Secrets de la cuisson

Un blog se veut comme un tournedos: à_point
(Sois la bien(re)venue!)

domingo, 1 de novembro de 2009

António Sérgio, RIP

Soube há momentos que se extinguiu aquela que, para mim, foi a mais marcante "companhia" da rádio. Pela sua mão descobri mundos musicais fascinantes num determinado período da minha vida, e só deixei de fazê-lo quando a idade adulta reclamou que eu cristalizasse no tempo os meus gostos e referências musicais, englobando-os naquilo que cada um designa por «música do seu tempo». Ele seguiu em frente, sempre em frente, com outras gerações e tendências que, imagino, lamentarão em uníssono o António Sérgio como um dos "seus".
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À 1:28 da manhã de 14/5/2005 escrevia eu este "Noites da Rádio" no Ashram:
"Faço um intervalo nestes trabalhos nocturnos e de repente tenho um flashback aos meus tempos de adolescência, a grandes noitadas de leitura ouvindo o "Rotação" do António Sérgio na Rádio Renascença, deixando a imaginação voar na solidão meditativa do meu quarto... Lembro-me de o meu pai aparecer às vezes a meio da noite, intrigado pela luz debaixo da porta, a saber se tudo estava bem... Lembro-me de fugir a combinações com amigos – e até a "flirts" – para ficar ali lutando contra o meu sono, cavalgando os meus sonhos, remoendo os meus medos: eu, o António Sérgio, uma pilha de livros de um lado, uns sumos e umas bolachas de outro, eu viajando no Cambodja na companhia de Malraux, embalando-me nos arabescos góticos dos Cocteau Twins, as costas já doridas da posição nas almofadas, lendo para um lado (as histórias de Sven Hedin ou de Francis Younghusband), decorando subconscientemente as letras dos sucessos da New Wave, lendo para o outro lado (as proezas de Cesare Maestri no Cerro Torre, ou as desventuras de Heinrich Harrer, depois sublimemente recriadas por Brad Pitt). Que me lembre, só algumas paixões mais fortes quebraram o encantamento desta rotina, e foram as noites da tropa que a enterraram definitivamente (por muitos anos passei a detestar a solidão nocturna, lembrava-me provas topográficas entre a Murgeira e o Sonível). Penso que os alicerces poéticos da minha forma de pensar na vida se consolidaram todos ali, em momentos mais simples, mais disponíveis, mais abertos – longas noites de "curtição" egocêntrica, de abandono hedonístico a letras, a sons, a sabores benignos. Não reviveria hoje esses momentos, de medo de perder tudo o que de bom se lhes seguiu, numa qualquer das muitas bifurcações de que se compõe o passado; não me reviveria, em suma, e é agridoce este flashback, faz-me sentir tanto a distância como o orgulho, e deixa-me rever, num relance de segundos, um outro eu que, não sendo já eu, conduziu até isto que sou, e por isso se encontra embebido em mim, algures numa gaveta profunda na qual ressoa, a horas mortas, o jingle com que se abria o "Rotação" do António Sérgio."
+++
São coisas a mais para se poder agradecer. És dos "meus". Fico orgulhoso da dívida.

Para o António Sérgio

O povo de San Francisco CA

Novembro

sábado, 31 de outubro de 2009

O cantinho


Interpelado por Charlotte acerca do problema da velhice, ocorreu-me dizer:

"O problema da velhice é um problema individual que se converte num problema social que não deveria converter-se num problema político – se não existisse essa miopia colectiva que nos faz descontar desproporcionadamente a nossa própria velhice, se não houvesse problemas de descoordenação que tolhem os movimentos de solidariedade, e se não existissem os azares da fortuna que se conjugam para tornar algumas velhices em verdadeiras catástrofes.
Há uns anos um ex-boxeur, um mauzão e homem de muitas vidas (e todas nebulosas) resolveu tomar conta dos Alunos de Apolo – diziam as más-línguas que os ingressos facilitariam o branqueamento de algum dinheiro. Mas foi com ele que se generalizou, por todo um bairro envelhecido e empobrecido, a prática das refeições gratuitas. Quando se descobriu que alguns dos velhotes já não conseguiam subir as escadas para a sala de refeições primitiva, ele arrendou uma casa térrea por perto, na qual qualquer velhote, sem burocracia, sem devassa e sem alarido, consegue matar a fome.
O Mauzão não esteve à espera de ninguém, limitou-se a observar e terá dito a si mesmo que um dia podia acabar também assim. Não sei se houve lavagem de dinheiro – mas vejo frequentemente, num vaivém de sombras recurvadas, que houve vidas e dignidades salvas.
"

Ao vivo na NYPL

Série interessantíssima de discussões de alto nível:

A minha escolha: John Richardson & Robert Hughes falam sobre Picasso
AQUI

2º Lugar: Mary-Louise Parker entrevista Ryan Adams (downloadable!)
AQUI

On the road

Tudo sobre a Route_66

Quando oiço falar das relações Brasil-África…

Au creux de mon épaule

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O estranho caso do Zepelim Antunes que faz sombra no mar


Ontem, na TV, Lobo Antunes fez um esforço heróico para esboçar um sorriso.
Pareceu mesmo, por momentos
(Ó pá, Lobo Antunes, as vendas estão a ir pelo ralo, faz qualquer coisa!)
que ele ia ironizar consigo mesmo
(o ar nefelibata-dispéptico com um soupçon de tédio incurável pareceu vacilar)
mas acabou por triunfar o mesmo peso irremovível de queque caduco e brasonado das hortas de Benfica
sabe», «sabe» – e a muleta démarreuse já tempera o mais irritante «percebe», «percebe»)
(zzzzzzzzzzzzzzz, "eu comovo-me sempre que percebo que ninguém me compreende")
(zzzzzzzzzzzzzzz, "acho, sabe, que só me compreenderão daqui a uns séculos")
Mas o momento alto foi quando, conseguindo eu desviar os olhos de uma figa adolescente que lhe pendia da barbela
(Ó pá, Lobo Antunes, tenta captar os leitores do Paulo Coelho – imaginamos o editor, todo engomado, a sussurrar-lhe)
ele disse, nonchalant, que durante muitos anos teve dificuldade de descer à terra, e usou uma imagem obscura (Ó pá…) de uns flutuadores de hidroavião.
Sabe, Lobo Antunes, dificuldade de descer, e durante tanto tempo, isso não será antes coisa de zepelim?

Bem prega Frei Ernâni

Há uns instantes o Prof. Ernâni Lopes (batalhando ingloriamente com uns restos de bolinho de bacalhau que se lhe enfiaram nos dentes) veio dizer na TV que a solução para a economia portuguesa (põe-te na fila, mais um treinador de bancada) é aumentar o PIB potencial, vulgo produzir coisa palpável e deixar capacidade para produzir ainda mais.
Depois rematou com uma frase lapidar que não fixei, mas que se resumia mais ou menos ao seguinte: isto (da economia portuguesa) não vai lá só com palpites.
Aí concordamos com o palpite do Prof. Ernâni Lopes.

Nem sempre o que parece…


Nestes anos todos de Ashram, houve duas tentativas de emenda que retive na memória, porque pareciam evidentes quando não o eram.
A primeira foi com Voodoo Chile, que uma leitora insistia que fosse Voodoo Child – como parecia (mas não era) óbvio.
A segunda foi, recentemente, com Torna a Surriento, que um leitor insistia que fosse Torna a Sorrento – o que novamente parecia, mas não era, óbvio.
Junto provas.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Bentinho e Capitu

Vinha hoje relendo no trem o imorredoiro Dom Casmurro, o romance que melhor me faz «juntar as pontas da vida», e à memória subiam, borbulhando, os acordes de Begin the Beguine – percebe-se por qual fácil associação de ideias, e por qual sinestesia (obras-primas que são).

A maldição do Millenium


Desde que mudou de BCP para Millenium, aquela simpática instituição cambista do Eng. Jardim só tem tido azares. E convenhamos que neste momento precisava tanto de um escândalo como cada um de nós precisa de uma dor de dentes.
Como os tempos são de crise, temos agora administradores a alinharem em falcatruas por 10 mil euros. Onde é que isto vai parar? Burlas a troco de um maço de tabaco?
Fica-se varado com a rasteirice…

As tomadas de posse não alteram a rotina do país


Ao jantar, evocámos o Disco Sound

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Quadros sobre quadros


Dois contributos de Frédéric Bazille para a série Charlottiana.
(O Atelier do escandaloso Courbet também conta')

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Vademecum existencial. I- Espíritos (2, Reconciliação com Itália)

Esqueçam a grappa, dizíamos, mas não esqueçam a terra ardente e rude que serpenteia até Puglia, terra na qual rutila o encorpado Primitivo, de gosto calabrês. Terra de vulcões e de ilhas íngremes e das mais gloriosas ruínas, e da voz áspera daqueles que pela Sicília se bandeiam fazendo saúdes com Marsala e Nero d'Avola, ou dos desterrados da Sardenha, jurando pelo seu Vermentino.
Lá para Norte, onde o mar acaba, o tom cruento de Barolos e de Barbarescos anuncia-nos o Piemonte, e o inebriamento das encostas irradia já de Barberas e Dolcettos, suculentos e acidulados. Em transe descemos ao frutado Veneto, a escorropicharmos o Amarone de Valpolicella.
E depois, os ocres e as nuvens bizantinas tomam conta das estradas, e o caminho vai dar à Toscânia, o umbigo da península.
Legiões e centúrias pisaram esta terra quente e frumentária, que é melhor apreciada com o silêncio da brisa e a preguiça do Arno, ou nas reverberações do «tramonto» nas janelas ressequidas das villas opulentas.
Deixemos o Chianti para turistas; contemos «i soldi» e arrisquemos o Brunello di Montalcino. Recostemo-nos cerrando os olhos, e imaginemos antes que estamos a debicar, respeituosos, o lendário Sassicaia (se ao menos tivéssemos o dinheiro para lá chegar).

Santiago de Chile: o paraíso dos livros?

domingo, 25 de outubro de 2009

Olha que Giro! (Metheny rebaptizado em Trance)


Mãos


[...]
The mighty hand leads to a sloping shoulder,
The finger joints are cramped with chalk;
A goose's quill has put an end to murder
That put an end to talk.
- - -
The hand that signed the treaty bred a fever,
And famine grew, and locusts came;
Great is the hand the holds dominion over
Man by a scribbled name.
[...]
- - -
Dylan Thomas



sábado, 24 de outubro de 2009

A nova orquestra do Titanic

O claustro, reunido em plenário, recebeu as notícias de que lá fora há um novo Governo. Parece que tem mais Senhoras, o que nos apraz (soem ser mais sensatas, e por isso é que há tanta indignação quando uma não o é).
Uma, Alçada, merece a nossa especial simpatia, é uma Ancienne; contudo, a avançar para o terreno minado da Cinco de Outubro… Alçada + Educação = Alçapão
Outra disseram-nos que é muito bonita, e nós tentámos adivinhar se seria a Soraia Chaves ou se seria a Vanessa Martins (na foto).
Afinal é Canavilhas, pianista, e tem feições agradáveis (como, fora do circuito «Jorge Peixinho / Emanuel Nunes», não se toca piano com a cara, imagino que tais atributos não representem uma vantagem especial). Pianista parecia também já o advogado que a precedeu, com aquela farta melena cheia de caspa.
Consta ainda que há reforço de uma ambientalista e de uma sindicalista, nem sabemos bem se as duas coisas em separado, se ao mesmo tempo (uma espécie de cocktail Motolov intelectual).
Alguém, veemente, proclamava na TV que não se conhece, em relação a uma ou algumas dessas Senhoras, pensamento próprio sobre o sector de que vão tratar.
Aí ficámos quase rendidos: o país tem sofrido horrores às mãos de governantes que julgam ter ideias próprias. Não ter pensamento próprio é a única esperança que resta.
Com efeito, não cremos já na salvação do país, e desejamos somente, com toda a modéstia, umas tréguas.
Para isso só vemos uma alternativa: a) carregar o Governo de umas pin-ups que efectivamente nada sabem e nem disso se apercebem; b) entregar o Governo a mulheres tão sábias, tão sábias, que são movidas pela aguda consciência de que nada sabem.
Meios-termos soam, portanto, a paliativos: o Titanic inclina-se solenemente e agora, Senhoras e Senhores, ao piano uma carinha laroca a interpretar Domingos Bomtempo…

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Pra trautear pla noite fora

Uma escovadela nos nossos "complexos literários"

Reproduzo – com assumida inveja por não ter o talento para dizê-lo desta maneira:

"O problema com o furor que provocaram os comentários de Saramago sobre a Bíblia (mais precisamente sobre o Antigo Testamento) é que não devia ter existido furor algum. Saramago não disse mais do que se dizia nas folhas anticlericais do século XIX ou nas tabernas republicanas no tempo de Afonso Costa. São ideias de trolha ou de tipógrafo semianalfabeto, zangado com os padres por razões de política e de inveja. Já não vêm a propósito. Claro que Saramago tem 80 e tal anos, coisa que não costuma acompanhar uma cabeça clara, e que, ainda por cima, não estudou o que devia estudar, muito provavelmente contra a vontade dele. Mas, se há desculpa para Saramago, não há desculpa para o país, que se resolveu escandalizar inutilmente com meia dúzia de patetices.
Claro que Saramago ganhou o Prémio Nobel, como vários "camaradas" que não valiam nada, e vendeu milhões de livros, como muita gente acéfala e feliz que não sabia, ou sabe, distinguir a mão esquerda da mão direita. E claro que o saloiice portuguesa delirou com a façanha. Só que daí não se segue que seja obrigatório levar a criatura a sério. Não assiste a Saramago a mais remota autoridade para dar a sua opinião sobre a Bíblia ou sobre qualquer outro assunto, excepto sobre os produtos que ele fabrica, à maneira latino-americana, de acordo com o tradição epigonal indígena. Depois do que fez no PREC, Saramago está mesmo entre as pessoas que nenhum indivíduo inteligente em princípio ouve.
O regime de liberdade, aliás relativa, em que vivemos permite ao primeiro transeunte evacuar o espírito de toda a espécie de tralha. É um privilégio que devemos intransigentemente defender. O Estado autoriza Saramago a contribuir para o dislate nacional, mas não encomendou a ninguém – principalmente a dignatários da Igreja como o bispo do Porto – a tarefa de honrar o dislate com a sua preocupação e a sua crítica. Nem por caridade cristã. D. Manuel Clemente conhece com certeza a dificuldade de explicar a mediocridade a um medíocre e a impossibilidade prática de suprir, sobre o tarde, certos dotes de nascença e de educação. O que, finalmente, espanta neste ridículo episódio não é Saramago, de quem - suponho - não se esperava melhor. É a extraordinária importância que lhe deram criaturas com bom senso e a escolaridade obrigatória
."
(DAQUI)

MINI

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