O novo Ashram minimalista
sábado, 31 de outubro de 2009
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
O estranho caso do Zepelim Antunes que faz sombra no mar

Ontem, na TV, Lobo Antunes fez um esforço heróico para esboçar um sorriso.
Pareceu mesmo, por momentos
(Ó pá, Lobo Antunes, as vendas estão a ir pelo ralo, faz qualquer coisa!)
que ele ia ironizar consigo mesmo
(o ar nefelibata-dispéptico com um soupçon de tédio incurável pareceu vacilar)
mas acabou por triunfar o mesmo peso irremovível de queque caduco e brasonado das hortas de Benfica
(«sabe», «sabe» – e a muleta démarreuse já tempera o mais irritante «percebe», «percebe»)
(zzzzzzzzzzzzzzz, "eu comovo-me sempre que percebo que ninguém me compreende")
(zzzzzzzzzzzzzzz, "acho, sabe, que só me compreenderão daqui a uns séculos")
Mas o momento alto foi quando, conseguindo eu desviar os olhos de uma figa adolescente que lhe pendia da barbela
(Ó pá, Lobo Antunes, tenta captar os leitores do Paulo Coelho – imaginamos o editor, todo engomado, a sussurrar-lhe)
ele disse, nonchalant, que durante muitos anos teve dificuldade de descer à terra, e usou uma imagem obscura (Ó pá…) de uns flutuadores de hidroavião.
Sabe, Lobo Antunes, dificuldade de descer, e durante tanto tempo, isso não será antes coisa de zepelim?
Bem prega Frei Ernâni
Há uns instantes o Prof. Ernâni Lopes (batalhando ingloriamente com uns restos de bolinho de bacalhau que se lhe enfiaram nos dentes) veio dizer na TV que a solução para a economia portuguesa (põe-te na fila, mais um treinador de bancada) é aumentar o PIB potencial, vulgo produzir coisa palpável e deixar capacidade para produzir ainda mais.Depois rematou com uma frase lapidar que não fixei, mas que se resumia mais ou menos ao seguinte: isto (da economia portuguesa) não vai lá só com palpites.
Aí concordamos com o palpite do Prof. Ernâni Lopes.
Nem sempre o que parece…
Nestes anos todos de Ashram, houve duas tentativas de emenda que retive na memória, porque pareciam evidentes quando não o eram.
A primeira foi com Voodoo Chile, que uma leitora insistia que fosse Voodoo Child – como parecia (mas não era) óbvio.
A segunda foi, recentemente, com Torna a Surriento, que um leitor insistia que fosse Torna a Sorrento – o que novamente parecia, mas não era, óbvio.
Junto provas.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Bentinho e Capitu
Vinha hoje relendo no trem o imorredoiro Dom Casmurro, o romance que melhor me faz «juntar as pontas da vida», e à memória subiam, borbulhando, os acordes de Begin the Beguine – percebe-se por qual fácil associação de ideias, e por qual sinestesia (obras-primas que são).
A maldição do Millenium

Desde que mudou de BCP para Millenium, aquela simpática instituição cambista do Eng. Jardim só tem tido azares. E convenhamos que neste momento precisava tanto de um escândalo como cada um de nós precisa de uma dor de dentes.
Como os tempos são de crise, temos agora administradores a alinharem em falcatruas por 10 mil euros. Onde é que isto vai parar? Burlas a troco de um maço de tabaco?
Fica-se varado com a rasteirice…
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Quadros sobre quadros

Dois contributos de Frédéric Bazille para a série Charlottiana.(O Atelier do escandaloso Courbet também conta')
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Vademecum existencial. I- Espíritos (2, Reconciliação com Itália)
Esqueçam a grappa, dizíamos, mas não esqueçam a terra ardente e rude que serpenteia até Puglia, terra na qual rutila o encorpado Primitivo, de gosto calabrês. Terra de vulcões e de ilhas íngremes e das mais gloriosas ruínas, e da voz áspera daqueles que pela Sicília se bandeiam fazendo saúdes com Marsala e Nero d'Avola, ou dos desterrados da Sardenha, jurando pelo seu Vermentino.Lá para Norte, onde o mar acaba, o tom cruento de Barolos e de Barbarescos anuncia-nos o Piemonte, e o inebriamento das encostas irradia já de Barberas e Dolcettos, suculentos e acidulados. Em transe descemos ao frutado Veneto, a escorropicharmos o Amarone de Valpolicella.
E depois, os ocres e as nuvens bizantinas tomam conta das estradas, e o caminho vai dar à Toscânia, o umbigo da península.
Legiões e centúrias pisaram esta terra quente e frumentária, que é melhor apreciada com o silêncio da brisa e a preguiça do Arno, ou nas reverberações do «tramonto» nas janelas ressequidas das villas opulentas.
Deixemos o Chianti para turistas; contemos «i soldi» e arrisquemos o Brunello di Montalcino. Recostemo-nos cerrando os olhos, e imaginemos antes que estamos a debicar, respeituosos, o lendário Sassicaia (se ao menos tivéssemos o dinheiro para lá chegar).
Bem chamavam os gregos a esta terra (e em especial à Puglia de onde partimos) a Oinotria, a Enotria, a terra do vinho. Estamos reconciliados.
Ref.as:
http://it.wikipedia.org/wiki/Primitivo_(vitigno)
http://it.wikipedia.org/wiki/Marsala_(vino)
http://it.wikipedia.org/wiki/Nero_d%27Avola_(vino)
http://it.wikipedia.org/wiki/Vermentino
http://it.wikipedia.org/wiki/Barolo_(vino)
http://it.wikipedia.org/wiki/Barbaresco_(vino)
http://it.wikipedia.org/wiki/Barbera
http://it.wikipedia.org/wiki/Dolcetto
http://it.wikipedia.org/wiki/Amarone
http://it.wikipedia.org/wiki/Chianti_(vino)
http://it.wikipedia.org/wiki/Brunello_di_Montalcino
http://it.wikipedia.org/wiki/Bolgheri_Sassicaia
Ref.as:
http://it.wikipedia.org/wiki/Primitivo_(vitigno)
http://it.wikipedia.org/wiki/Marsala_(vino)
http://it.wikipedia.org/wiki/Nero_d%27Avola_(vino)
http://it.wikipedia.org/wiki/Vermentino
http://it.wikipedia.org/wiki/Barolo_(vino)
http://it.wikipedia.org/wiki/Barbaresco_(vino)
http://it.wikipedia.org/wiki/Barbera
http://it.wikipedia.org/wiki/Dolcetto
http://it.wikipedia.org/wiki/Amarone
http://it.wikipedia.org/wiki/Chianti_(vino)
http://it.wikipedia.org/wiki/Brunello_di_Montalcino
http://it.wikipedia.org/wiki/Bolgheri_Sassicaia
domingo, 25 de outubro de 2009
Mãos

[...]
The mighty hand leads to a sloping shoulder,
The finger joints are cramped with chalk;
A goose's quill has put an end to murder
That put an end to talk.
- - -
The hand that signed the treaty bred a fever,
And famine grew, and locusts came;
Great is the hand the holds dominion over
Man by a scribbled name.
The finger joints are cramped with chalk;
A goose's quill has put an end to murder
That put an end to talk.
- - -
The hand that signed the treaty bred a fever,
And famine grew, and locusts came;
Great is the hand the holds dominion over
Man by a scribbled name.
[...]
- - -
Dylan Thomas
Dylan Thomas

sábado, 24 de outubro de 2009
A nova orquestra do Titanic
O claustro, reunido em plenário, recebeu as notícias de que lá fora há um novo Governo. Parece que tem mais Senhoras, o que nos apraz (soem ser mais sensatas, e por isso é que há tanta indignação quando uma não o é).Uma, Alçada, merece a nossa especial simpatia, é uma Ancienne; contudo, a avançar para o terreno minado da Cinco de Outubro… Alçada + Educação = Alçapão
Outra disseram-nos que é muito bonita, e nós tentámos adivinhar se seria a Soraia Chaves ou se seria a Vanessa Martins (na foto).
Afinal é Canavilhas, pianista, e tem feições agradáveis (como, fora do circuito «Jorge Peixinho / Emanuel Nunes», não se toca piano com a cara, imagino que tais atributos não representem uma vantagem especial). Pianista parecia também já o advogado que a precedeu, com aquela farta melena cheia de caspa.
Consta ainda que há reforço de uma ambientalista e de uma sindicalista, nem sabemos bem se as duas coisas em separado, se ao mesmo tempo (uma espécie de cocktail Motolov intelectual).
Alguém, veemente, proclamava na TV que não se conhece, em relação a uma ou algumas dessas Senhoras, pensamento próprio sobre o sector de que vão tratar.
Aí ficámos quase rendidos: o país tem sofrido horrores às mãos de governantes que julgam ter ideias próprias. Não ter pensamento próprio é a única esperança que resta.
Com efeito, não cremos já na salvação do país, e desejamos somente, com toda a modéstia, umas tréguas.
Para isso só vemos uma alternativa: a) carregar o Governo de umas pin-ups que efectivamente nada sabem e nem disso se apercebem; b) entregar o Governo a mulheres tão sábias, tão sábias, que são movidas pela aguda consciência de que nada sabem.
Meios-termos soam, portanto, a paliativos: o Titanic inclina-se solenemente e agora, Senhoras e Senhores, ao piano uma carinha laroca a interpretar Domingos Bomtempo…
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Uma escovadela nos nossos "complexos literários"
Reproduzo – com assumida inveja por não ter o talento para dizê-lo desta maneira:"O problema com o furor que provocaram os comentários de Saramago sobre a Bíblia (mais precisamente sobre o Antigo Testamento) é que não devia ter existido furor algum. Saramago não disse mais do que se dizia nas folhas anticlericais do século XIX ou nas tabernas republicanas no tempo de Afonso Costa. São ideias de trolha ou de tipógrafo semianalfabeto, zangado com os padres por razões de política e de inveja. Já não vêm a propósito. Claro que Saramago tem 80 e tal anos, coisa que não costuma acompanhar uma cabeça clara, e que, ainda por cima, não estudou o que devia estudar, muito provavelmente contra a vontade dele. Mas, se há desculpa para Saramago, não há desculpa para o país, que se resolveu escandalizar inutilmente com meia dúzia de patetices.
Claro que Saramago ganhou o Prémio Nobel, como vários "camaradas" que não valiam nada, e vendeu milhões de livros, como muita gente acéfala e feliz que não sabia, ou sabe, distinguir a mão esquerda da mão direita. E claro que o saloiice portuguesa delirou com a façanha. Só que daí não se segue que seja obrigatório levar a criatura a sério. Não assiste a Saramago a mais remota autoridade para dar a sua opinião sobre a Bíblia ou sobre qualquer outro assunto, excepto sobre os produtos que ele fabrica, à maneira latino-americana, de acordo com o tradição epigonal indígena. Depois do que fez no PREC, Saramago está mesmo entre as pessoas que nenhum indivíduo inteligente em princípio ouve.
O regime de liberdade, aliás relativa, em que vivemos permite ao primeiro transeunte evacuar o espírito de toda a espécie de tralha. É um privilégio que devemos intransigentemente defender. O Estado autoriza Saramago a contribuir para o dislate nacional, mas não encomendou a ninguém – principalmente a dignatários da Igreja como o bispo do Porto – a tarefa de honrar o dislate com a sua preocupação e a sua crítica. Nem por caridade cristã. D. Manuel Clemente conhece com certeza a dificuldade de explicar a mediocridade a um medíocre e a impossibilidade prática de suprir, sobre o tarde, certos dotes de nascença e de educação. O que, finalmente, espanta neste ridículo episódio não é Saramago, de quem - suponho - não se esperava melhor. É a extraordinária importância que lhe deram criaturas com bom senso e a escolaridade obrigatória."
(DAQUI)
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Burlesco que cresce sem cultura
Uns combinam com uns paparazzi a ocasião de exibirem alguma oportuna infidelidade.Outras ostentam cuidadosamente as cuecas, ou a falta delas, à entrada ou à saída da limousine.
Há-os que se dependuram de estátuas ou trepam por prédios, e outros que se vestem de palhaço.
- - -
Vale tudo em termos de auto-promoção – sobretudo quando há que vender alguma fruta podre a gente ingénua que se deixa distrair com o alarido.
- - -
E é claro, há sempre um batalhão de imbecis a defender esse golpe de publicidade enganosa, desde que travestido em liberdade de expressão.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
O efeito de 5 anos de Ashram (foi ontem o aniversário)
Quand nous visons un point de l'horizon humain,
Ayons la vie, et non la mort, dans notre main. –
__________
Victor Hugo, Le Crapaud (La Légende des Siècles)
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
domingo, 18 de outubro de 2009
Tropicalismos
Um mineiro sentado ao meu lado por um tempo interminável multiplica-se em palpites sobre a realidade brasileira – tudo dentro do espírito mais pragmático que imaginar se possa."Vai ter que ir a Uberlândia, caro Senhor, terra das mulheres mais lindas do Brasil. Pode escrever!"
"Curioso", repliquei, "sempre me disseram que as brasileiras mais bonitas eram do Rio Grande do Sul".
Ele olha-me atónito e, sem uma ponta de ironia, dispara:
"Mas essas são branquinhas!..."
La règle du jeu
Nada como uma pitada de esquerdismo para dar sabor à nostalgia aristocrática (como a nota salgada que, na mousse, realça a doçura do chocolate).Daí que alguma esquerda «softcore», associada em blogue, tenha procurado crismar-se com a obra-prima de Renoir, que é um retrato ao mesmo tempo ácido e venerador da decadência da aristocracia à sombra do vulcão: cfr. http://aregradojogo.blogs.sapo.pt/
Como, no original de referência, se trata de «comédia de enganos», fica-nos uma interrogação: quem fará o papel de Edouard Schumacher, o garde-chasse; e quem fará o de André Jurieux, o aviador; e o de Robert de la Chesnaye (Cheyniest) – para completarmos o triângulo dos cornos –?
E as Senhoras, estarão ela dispostas a encarnar esses ícones de promiscuidade alegre em que Jean Renoir abrigou a sua velada misoginia?
Mais reconditamente ainda: que Vesúvio será esse que avassalará o «softcore» decadente da aristocracia jacobina? Que Schumacher empunhará a carabina?
Um empreendimento sujeito, em suma, à austera e permanente censura de jansenistas pouco mundanos e reaccionários.
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