O novo Ashram minimalista
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Burlesco que cresce sem cultura
Uns combinam com uns paparazzi a ocasião de exibirem alguma oportuna infidelidade.Outras ostentam cuidadosamente as cuecas, ou a falta delas, à entrada ou à saída da limousine.
Há-os que se dependuram de estátuas ou trepam por prédios, e outros que se vestem de palhaço.
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Vale tudo em termos de auto-promoção – sobretudo quando há que vender alguma fruta podre a gente ingénua que se deixa distrair com o alarido.
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E é claro, há sempre um batalhão de imbecis a defender esse golpe de publicidade enganosa, desde que travestido em liberdade de expressão.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
O efeito de 5 anos de Ashram (foi ontem o aniversário)
Quand nous visons un point de l'horizon humain,
Ayons la vie, et non la mort, dans notre main. –
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Victor Hugo, Le Crapaud (La Légende des Siècles)
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
domingo, 18 de outubro de 2009
Tropicalismos
Um mineiro sentado ao meu lado por um tempo interminável multiplica-se em palpites sobre a realidade brasileira – tudo dentro do espírito mais pragmático que imaginar se possa."Vai ter que ir a Uberlândia, caro Senhor, terra das mulheres mais lindas do Brasil. Pode escrever!"
"Curioso", repliquei, "sempre me disseram que as brasileiras mais bonitas eram do Rio Grande do Sul".
Ele olha-me atónito e, sem uma ponta de ironia, dispara:
"Mas essas são branquinhas!..."
La règle du jeu
Nada como uma pitada de esquerdismo para dar sabor à nostalgia aristocrática (como a nota salgada que, na mousse, realça a doçura do chocolate).Daí que alguma esquerda «softcore», associada em blogue, tenha procurado crismar-se com a obra-prima de Renoir, que é um retrato ao mesmo tempo ácido e venerador da decadência da aristocracia à sombra do vulcão: cfr. http://aregradojogo.blogs.sapo.pt/
Como, no original de referência, se trata de «comédia de enganos», fica-nos uma interrogação: quem fará o papel de Edouard Schumacher, o garde-chasse; e quem fará o de André Jurieux, o aviador; e o de Robert de la Chesnaye (Cheyniest) – para completarmos o triângulo dos cornos –?
E as Senhoras, estarão ela dispostas a encarnar esses ícones de promiscuidade alegre em que Jean Renoir abrigou a sua velada misoginia?
Mais reconditamente ainda: que Vesúvio será esse que avassalará o «softcore» decadente da aristocracia jacobina? Que Schumacher empunhará a carabina?
Um empreendimento sujeito, em suma, à austera e permanente censura de jansenistas pouco mundanos e reaccionários.
Anti-tropicalismos
As generalizações são sempre perigosas.São Paulo tem vários oásis de 1º mundo por entre arquipélagos de 2º e 3º mundos.
Num animado jantar com vedetas intelectuais de Yale deu-me para reflectir nisso: o entusiasmo deles pela sofisticação da «Figueira Rubaiyat» (na foto) não o estou a ver repetido por cá – nem no mais requintado restaurante português.
Gente extremamente culta, argumentando torrencialmente em matérias de vanguarda e pontuando com refrescantes e pertinentes alusões a Eça e a Machado de Assis (uma piscadela de olho à tradição e uma amabilidade para mim), e eu a pensar que oportunidades destas também não as veria facilmente por cá.
Há uma generalização terceiro-mundista que é cómoda e gratifica a nossa arrogância europeia; chegamos lá e somos forçados a rever tudo – sob pena de acabarmos complexados e humilhados.
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Entre Bolaño e Bridget Jones
Nos poucos momentos livres desta época frenética tenho tentado avançar nos Detectives Selvagens, de Bolaño.Admito ser surpreendido mais lá para a frente, ou quando chegar ao magnum opus, o 2666.
Mas por enquanto a desilusão tem sido quase total.
É verdade que o tom se afasta claramente daquele estilo realista / mágico / miserabilista / mariachi / tapioca que tinha feito a glória da "latino literature", uma coisa tão fiel à própria realidade latino-americana como o foram, outrora, os meneios de Carmen Miranda em relação à realidade "brasileña".
Mas não sei se houve verdadeiro progresso.
No meio de muita alusão literária – ao nível do mais pedante name-dropping, refira-se – o romance cai no cliché mais previsível e ridículo. Uma alusão nebulosa à realidade, divagante, perenemente desfocada e errática, contrastando singularmente com uma precisão hiper-realista na descrição minuciosa, clínica, lúcida, obsessiva, do acto sexual, entre panegíricos à humilhação feminina e à promiscuidade do "macho pós-moderno" - eis no que se transforma um pretenso romance.
Farto de tableaux de chasse do baixo-ventre ando eu.
Vou avançar mais uns dias, mas se isto não melhorar abandono este rol grotesco de proezas de coelhinhos com cio. Talvez empreenda ler, no mesmo género, o Diário de Bridget Jones – ao menos dizem-me que cultiva, no assunto, alguma ironia e humor.
domingo, 11 de outubro de 2009
sábado, 10 de outubro de 2009
Vademecum existencial. I- Espíritos (1, torna a Surriento)
Não se pode viver apenas de glórias passadas, e os pobres italianos lá se esforçam episodicamente.Sem muito esforço fornecem-nos as mulheres mais bonitas da Europa (se exceptuarmos todas as não-italianas), e os homens mais bem-vestidos (com uma obsessão ornamental que lhes compensa a virilidade indolente).
Com algum esforço exportaram, com sucesso passageiro, o cinema do povo derrotado; com mais sucesso e mais esforço exportam ainda as berlinas mais sofisticadas e agressivas do mundo.
Do que não transitou ainda para património comum da humanidade destacam-se, como sublimes, algumas criações culinárias (do risotto aos gelados) e algumas rudezas vínicas, cheias de poeira e de sol.
Nos «espíritos» reina, não obstante, o mais desolador sincretismo, a desfazer qualquer unanimidade evocativa. Talvez seja possível beber um golinho de Tuaca e lembrar a costa amalfitana, ou fazer uma saúde com Grappa e tentar esquecer o Festival de San Remo. Mas um país que não só glorifica o Limoncello como deixa até que, para o comércio, ele se americanize como Lemoncello, é um país que não merece ser recordado no sanctus sanctorum da garrafeira (purtroppo).
Diz-se que, por uma questão de respeito, em ocasiões solenes os ingleses servem o nosso valentão Vinho do Porto do seguinte modo: cada um serve o parceiro que está à sua direita, depois serve-se a si mesmo e passa, sem servir, ao parceiro da esquerda (esperando que o parceiro da esquerda o sirva uma segunda vez). O Porto roda, portanto, no sentido horário.
Por mim, sugeria que estas adamadas zurrapas italianas circulassem no sentido anti-horário, em busca do tempo perdido. E que a regra de servir o parceiro fosse, como estrita regra de etiqueta, alegremente desrespeitada – à boa maneira italiana.
Em suma: Grappa, Limoncello e Tuaca – a beber: 1) diluídos em litradas de delicioso espresso; ou 2) quando já se bebeu demasiado de outras coisas e já não se nota a diferença.
Ref.as:
http://www.tuaca.com/
http://it.wikipedia.org/wiki/Grappa
http://it.wikipedia.org/wiki/Limoncello
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Faunos no Bosque, ou, o corridinho do Polanski
Noutro lugar, a Consoror Charlotte interroga-se sobre o mais recente "escândalo Polanski", que se cinge à questão epistemologico-transcendental seguinte: pode um artista ser pedófilo? Isto é, juridicamente pedófilo? (AQUI). Observei:"Receio ter que me repetir:
Roman amigo, devias ter vindo directamente para Portugal e nunca deverias ter saído de cá. Tinhas comprado casa no Restelo, de manhã saías a dar uma voltinha pelos pastéis de nata e logo ali davas de caras com engajadores de mão-de-obra infanto-juvenil – que, ao que consta, ainda por lá andam, alegres da vida. Terias sido imensamente popular, e o Governo da altura ter-te-ia atribuído, sem sombra de dúvida, uma sinecura regiamente remunerada, como faz prontamente com cineastas infinitamente menos talentosos do que tu.
Talvez um magistrado mais zeloso te tivesse tentado atrapalhar a vida, mas não menos prontamente o bronco se veria submerso no sarcasmo impiedoso que já esmagou uns polícias que se indignaram com as obscenidades pictóricas de Courbet.
Aqui tem-se respeitinho pela arte, qualquer arte, mais respeitinho do que em qualquer parte do mundo.
Aqui a justiça não funciona, ou funciona pior do que em qualquer outra parte do mundo.
Aqui toda a gente se indigna sinceramente com a pedofilia, mas toda a gente tende a alinhar com aqueles que processam as vítimas depois de se safarem por algum estratagema processual.
Tu és artista, Roman, tu és poderoso e amigo de poderosos, Portugal era, sempre foi e continuará a ser o teu destino natural (se me permites este desabafo off the record, acresce ainda que aqui somos impiedosos com as vítimas e só lhes reservamos lágrimas de crocodilo – afinal, quem as mandou serem vítimas, e quem as autorizou, já que são vítimas e não há remédio para isso, a beliscarem a reputação de poderosos e de artistas?).
Quando chegares, cuidado apenas com os pastéis – há que não abusar deles."
Nobel da Paz: uma grande injustiça para Clinton
A atribuição do Nobel da Paz a Barack Obama por não ter feito coisa nenhuma é algo surpreendente, porque a tradição era a de conferir-se o prémio a guerrilheiros, a pregadores do ódio e a traficantes de armas – gente que tivesse ao menos feito qualquer coisa para promover o uso da dinamite (um gesto de respeito para com o inventor, Nobel), ou qualquer coisa para tornar importante a própria paz (colocando-a em tensão dialéctica com o seu oposto).Ora o que eu acho é que é muito injusto dar-se o Prémio a este Presidente dos EUA e não se ter dado o Prémio àquele magnífico antecessor dele, Bill Clinton: é que esse conseguiu fazer as pazes com a mulher depois de lhe pôr os cornos, uma grandiosa conquista da paz, um feito incomensurável, a merecer o maior dos prémios.
Vademecum existencial. I- Espíritos (0, Le Rouge et le Blanc)
Há quem construa toda a sua reputação mundana com base no whisky e na cerveja, empunhando-os em desafio à temível parelha «Hypnos / Thanatos», numa espécie de pacto fáustico que deixa o fígado na posição de avalista (um pacto fidejussório, só para connaisseurs).
Mas há os que, mais discretamente, apreciam os lírios do campo, os banhos de sol, o recolher obrigatório. Para esses há a voz de Mel Tormé, a estética da «lounge music», os Ray-Ban, tudo acompanhado da mais demodée e suave das bebidas espirituosas, o Lillet.
Rouge ou Blanc, o Lillet é como cetim roçando a pele: assumidamente refrescante e com alusões ao Cointreau, se branco; veladamente erótico no tinto, se a apresentação «on the rocks» liberta as notas de Cabernet e Merlot que nele se abrigam.
O Lillet triunfou numa era em que o «innuendo» e o «double-entendre» correspondiam às vénias que a hipocrisia reservava aos impulsos carnais – uma hipocrisia deliciosamente repressiva, longamente saboreada, ambígua.
Deixemos, pois, a vulgaridade, e os vermutes, para as pessoas sem imaginação.
A beber-se gelado, em abundante companhia, e com vista para um pôr-de-sol.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Vademecum existencial. I- Espíritos (-1 [teste])
Os nossos sentidos embotados de futebol e luxúria tropical tendem a fazer falsas atribuições de cores. Verde e amarelo não são atributos brasileiros, são as tonalidades da Chartreuse, a herdeira directa do Elixir da Longa Vida. Tremam os veneradores de Bénédictine, Chartreuse é para o palato requintado que surpreende aromas mentolados por detrás da clorofila da Chartreuse verde, e que se alonga na viscosidade melada por detrás do açafrão da Chartreuse amarela.Esqueçam-se os gelos, os cocktails, a mixórdias que assassinam este travo, e ameaçam interromper aquilo que nele nos religa directamente ao século XVII e aos pecadilhos de austeros jansenistas. Há uma irmandade secreta que se acoita na sinestesia entre o verde e o amarelo – uma pura interpelação contemplativa de iniciados cartuxos.
A beber-se, em suma, nos momentos de solidão, ou como pretexto para a solidão.
Ref.as:
http://en.wikipedia.org/wiki/Chartreuse_(color)
Um projecto na manga
Se eu tivesse tempo, avançaria agora com um projecto longo, que envolveria uma modificação grande do rumo deste blog.Seria um meticuloso roteiro de conselhos, reflexões sobre o que é uma atitude sábia (ou irónica, ou elegante, ou reflectida, ou ousada) perante a vida.
O tema é inesgotável, e talvez pudesse ser subsumido ao título provisório (working title) de «Vademecum Existencial», a desdobrar-se em 365 vinhetas, tantas quantos os dias do ano, todas ao estilo epigramático da pequena rajada introspectiva, talvez em 12 capítulos ou «clusters» temáticos (do mais efémero e volátil ao mais carnal e duradouro), tantos quantos os meses.
Uma ablução diária, em suma, em meu proveito exclusivo.
Quem sabe, talvez aproveite umas férias para juntar umas linhas em quantidade suficiente para colocar o mastodonte em andamento.
Ia ser divertido.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
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