O novo Ashram minimalista

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Burlesco que cresce sem cultura

Uns combinam com uns paparazzi a ocasião de exibirem alguma oportuna infidelidade.
Outras ostentam cuidadosamente as cuecas, ou a falta delas, à entrada ou à saída da limousine.
Há-os que se dependuram de estátuas ou trepam por prédios, e outros que se vestem de palhaço.
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Vale tudo em termos de auto-promoção – sobretudo quando há que vender alguma fruta podre a gente ingénua que se deixa distrair com o alarido.
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E é claro, há sempre um batalhão de imbecis a defender esse golpe de publicidade enganosa, desde que travestido em liberdade de expressão.

Finalmente legendado!

"Maria, dize, é esta Grei que daqui a dez anos votará socialista?"

Jogo sem Regras

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O efeito de 5 anos de Ashram (foi ontem o aniversário)

– Hélas ! ayons des buts, mais n'ayons pas de cibles;
Quand nous visons un point de l'horizon humain,
Ayons la vie, et non la mort, dans notre main. –
__________
Victor Hugo, Le Crapaud (La Légende des Siècles)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Há livros que devem ser julgados pela capa


O PS informa:

Temos coligação! (e duas gajas prá quota da paridade)

Este fim de semana

Uma voltinha pela Ericeira no carrito novo…

domingo, 18 de outubro de 2009

Tropicalismos

Um mineiro sentado ao meu lado por um tempo interminável multiplica-se em palpites sobre a realidade brasileira – tudo dentro do espírito mais pragmático que imaginar se possa.
"Vai ter que ir a Uberlândia, caro Senhor, terra das mulheres mais lindas do Brasil. Pode escrever!"
"Curioso", repliquei, "sempre me disseram que as brasileiras mais bonitas eram do Rio Grande do Sul".
Ele olha-me atónito e, sem uma ponta de ironia, dispara:
"Mas essas são branquinhas!..."

La règle du jeu

Nada como uma pitada de esquerdismo para dar sabor à nostalgia aristocrática (como a nota salgada que, na mousse, realça a doçura do chocolate).
Daí que alguma esquerda «softcore», associada em blogue, tenha procurado crismar-se com a obra-prima de Renoir, que é um retrato ao mesmo tempo ácido e venerador da decadência da aristocracia à sombra do vulcão: cfr. http://aregradojogo.blogs.sapo.pt/
Como, no original de referência, se trata de «comédia de enganos», fica-nos uma interrogação: quem fará o papel de Edouard Schumacher, o garde-chasse; e quem fará o de André Jurieux, o aviador; e o de Robert de la Chesnaye (Cheyniest) – para completarmos o triângulo dos cornos –?
E as Senhoras, estarão ela dispostas a encarnar esses ícones de promiscuidade alegre em que Jean Renoir abrigou a sua velada misoginia?
Mais reconditamente ainda: que Vesúvio será esse que avassalará o «softcore» decadente da aristocracia jacobina? Que Schumacher empunhará a carabina?
Um empreendimento sujeito, em suma, à austera e permanente censura de jansenistas pouco mundanos e reaccionários.

Anti-tropicalismos

As generalizações são sempre perigosas.
São Paulo tem vários oásis de 1º mundo por entre arquipélagos de 2º e 3º mundos.
Num animado jantar com vedetas intelectuais de Yale deu-me para reflectir nisso: o entusiasmo deles pela sofisticação da «Figueira Rubaiyat» (na foto) não o estou a ver repetido por cá – nem no mais requintado restaurante português.
Gente extremamente culta, argumentando torrencialmente em matérias de vanguarda e pontuando com refrescantes e pertinentes alusões a Eça e a Machado de Assis (uma piscadela de olho à tradição e uma amabilidade para mim), e eu a pensar que oportunidades destas também não as veria facilmente por cá.
Há uma generalização terceiro-mundista que é cómoda e gratifica a nossa arrogância europeia; chegamos lá e somos forçados a rever tudo – sob pena de acabarmos complexados e humilhados.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Entre Sãos Paulos

Nos próximos dias, andarei perambulando por São Paulo dos Campos de Piratininga (não confundir com São Paulo da Assunção de Loanda, que fica remetido para Dezembro).

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Entre Bolaño e Bridget Jones

Nos poucos momentos livres desta época frenética tenho tentado avançar nos Detectives Selvagens, de Bolaño.
Admito ser surpreendido mais lá para a frente, ou quando chegar ao magnum opus, o 2666.
Mas por enquanto a desilusão tem sido quase total.
É verdade que o tom se afasta claramente daquele estilo realista / mágico / miserabilista / mariachi / tapioca que tinha feito a glória da "latino literature", uma coisa tão fiel à própria realidade latino-americana como o foram, outrora, os meneios de Carmen Miranda em relação à realidade "brasileña".
Mas não sei se houve verdadeiro progresso.
No meio de muita alusão literária – ao nível do mais pedante name-dropping, refira-se – o romance cai no cliché mais previsível e ridículo. Uma alusão nebulosa à realidade, divagante, perenemente desfocada e errática, contrastando singularmente com uma precisão hiper-realista na descrição minuciosa, clínica, lúcida, obsessiva, do acto sexual, entre panegíricos à humilhação feminina e à promiscuidade do "macho pós-moderno" - eis no que se transforma um pretenso romance.
Farto de tableaux de chasse do baixo-ventre ando eu.
Vou avançar mais uns dias, mas se isto não melhorar abandono este rol grotesco de proezas de coelhinhos com cio. Talvez empreenda ler, no mesmo género, o Diário de Bridget Jones – ao menos dizem-me que cultiva, no assunto, alguma ironia e humor.

sábado, 10 de outubro de 2009

Vademecum existencial. I- Espíritos (1, torna a Surriento)

Não se pode viver apenas de glórias passadas, e os pobres italianos lá se esforçam episodicamente.
Sem muito esforço fornecem-nos as mulheres mais bonitas da Europa (se exceptuarmos todas as não-italianas), e os homens mais bem-vestidos (com uma obsessão ornamental que lhes compensa a virilidade indolente).
Com algum esforço exportaram, com sucesso passageiro, o cinema do povo derrotado; com mais sucesso e mais esforço exportam ainda as berlinas mais sofisticadas e agressivas do mundo.
Do que não transitou ainda para património comum da humanidade destacam-se, como sublimes, algumas criações culinárias (do risotto aos gelados) e algumas rudezas vínicas, cheias de poeira e de sol.
Nos «espíritos» reina, não obstante, o mais desolador sincretismo, a desfazer qualquer unanimidade evocativa. Talvez seja possível beber um golinho de Tuaca e lembrar a costa amalfitana, ou fazer uma saúde com Grappa e tentar esquecer o Festival de San Remo. Mas um país que não só glorifica o Limoncello como deixa até que, para o comércio, ele se americanize como Lemoncello, é um país que não merece ser recordado no sanctus sanctorum da garrafeira (purtroppo).
Diz-se que, por uma questão de respeito, em ocasiões solenes os ingleses servem o nosso valentão Vinho do Porto do seguinte modo: cada um serve o parceiro que está à sua direita, depois serve-se a si mesmo e passa, sem servir, ao parceiro da esquerda (esperando que o parceiro da esquerda o sirva uma segunda vez). O Porto roda, portanto, no sentido horário.
Por mim, sugeria que estas adamadas zurrapas italianas circulassem no sentido anti-horário, em busca do tempo perdido. E que a regra de servir o parceiro fosse, como estrita regra de etiqueta, alegremente desrespeitada – à boa maneira italiana.
Em suma: Grappa, Limoncello e Tuaca – a beber: 1) diluídos em litradas de delicioso espresso; ou 2) quando já se bebeu demasiado de outras coisas e já não se nota a diferença.
Ref.as:
http://www.tuaca.com/
http://it.wikipedia.org/wiki/Grappa
http://it.wikipedia.org/wiki/Limoncello

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Faunos no Bosque, ou, o corridinho do Polanski

Noutro lugar, a Consoror Charlotte interroga-se sobre o mais recente "escândalo Polanski", que se cinge à questão epistemologico-transcendental seguinte: pode um artista ser pedófilo? Isto é, juridicamente pedófilo? (AQUI). Observei:

"Receio ter que me repetir:
Roman amigo, devias ter vindo directamente para Portugal e nunca deverias ter saído de cá. Tinhas comprado casa no Restelo, de manhã saías a dar uma voltinha pelos pastéis de nata e logo ali davas de caras com engajadores de mão-de-obra infanto-juvenil – que, ao que consta, ainda por lá andam, alegres da vida. Terias sido imensamente popular, e o Governo da altura ter-te-ia atribuído, sem sombra de dúvida, uma sinecura regiamente remunerada, como faz prontamente com cineastas infinitamente menos talentosos do que tu.
Talvez um magistrado mais zeloso te tivesse tentado atrapalhar a vida, mas não menos prontamente o bronco se veria submerso no sarcasmo impiedoso que já esmagou uns polícias que se indignaram com as obscenidades pictóricas de Courbet.
Aqui tem-se respeitinho pela arte, qualquer arte, mais respeitinho do que em qualquer parte do mundo.
Aqui a justiça não funciona, ou funciona pior do que em qualquer outra parte do mundo.
Aqui toda a gente se indigna sinceramente com a pedofilia, mas toda a gente tende a alinhar com aqueles que processam as vítimas depois de se safarem por algum estratagema processual.
Tu és artista, Roman, tu és poderoso e amigo de poderosos, Portugal era, sempre foi e continuará a ser o teu destino natural (se me permites este desabafo off the record, acresce ainda que aqui somos impiedosos com as vítimas e só lhes reservamos lágrimas de crocodilo – afinal, quem as mandou serem vítimas, e quem as autorizou, já que são vítimas e não há remédio para isso, a beliscarem a reputação de poderosos e de artistas?).
Quando chegares, cuidado apenas com os pastéis – há que não abusar deles.
"

Outubro não é um mês triste

Nobel da Paz: uma grande injustiça para Clinton

A atribuição do Nobel da Paz a Barack Obama por não ter feito coisa nenhuma é algo surpreendente, porque a tradição era a de conferir-se o prémio a guerrilheiros, a pregadores do ódio e a traficantes de armas – gente que tivesse ao menos feito qualquer coisa para promover o uso da dinamite (um gesto de respeito para com o inventor, Nobel), ou qualquer coisa para tornar importante a própria paz (colocando-a em tensão dialéctica com o seu oposto).
Ora o que eu acho é que é muito injusto dar-se o Prémio a este Presidente dos EUA e não se ter dado o Prémio àquele magnífico antecessor dele, Bill Clinton: é que esse conseguiu fazer as pazes com a mulher depois de lhe pôr os cornos, uma grandiosa conquista da paz, um feito incomensurável, a merecer o maior dos prémios.

Rio 2016

Vademecum existencial. I- Espíritos (0, Le Rouge et le Blanc)


Há quem construa toda a sua reputação mundana com base no whisky e na cerveja, empunhando-os em desafio à temível parelha «Hypnos / Thanatos», numa espécie de pacto fáustico que deixa o fígado na posição de avalista (um pacto fidejussório, só para connaisseurs).
Mas há os que, mais discretamente, apreciam os lírios do campo, os banhos de sol, o recolher obrigatório. Para esses há a voz de Mel Tormé, a estética da «lounge music», os Ray-Ban, tudo acompanhado da mais demodée e suave das bebidas espirituosas, o Lillet.
Rouge ou Blanc, o Lillet é como cetim roçando a pele: assumidamente refrescante e com alusões ao Cointreau, se branco; veladamente erótico no tinto, se a apresentação «on the rocks» liberta as notas de Cabernet e Merlot que nele se abrigam.
O Lillet triunfou numa era em que o «innuendo» e o «double-entendre» correspondiam às vénias que a hipocrisia reservava aos impulsos carnais – uma hipocrisia deliciosamente repressiva, longamente saboreada, ambígua.
Deixemos, pois, a vulgaridade, e os vermutes, para as pessoas sem imaginação.
A beber-se gelado, em abundante companhia, e com vista para um pôr-de-sol.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Vademecum existencial. I- Espíritos (-1 [teste])

Os nossos sentidos embotados de futebol e luxúria tropical tendem a fazer falsas atribuições de cores. Verde e amarelo não são atributos brasileiros, são as tonalidades da Chartreuse, a herdeira directa do Elixir da Longa Vida. Tremam os veneradores de Bénédictine, Chartreuse é para o palato requintado que surpreende aromas mentolados por detrás da clorofila da Chartreuse verde, e que se alonga na viscosidade melada por detrás do açafrão da Chartreuse amarela.
Esqueçam-se os gelos, os cocktails, a mixórdias que assassinam este travo, e ameaçam interromper aquilo que nele nos religa directamente ao século XVII e aos pecadilhos de austeros jansenistas. Há uma irmandade secreta que se acoita na sinestesia entre o verde e o amarelo – uma pura interpelação contemplativa de iniciados cartuxos.
A beber-se, em suma, nos momentos de solidão, ou como pretexto para a solidão.
Ref.as:
http://en.wikipedia.org/wiki/Chartreuse_(color)

Um projecto na manga

Se eu tivesse tempo, avançaria agora com um projecto longo, que envolveria uma modificação grande do rumo deste blog.
Seria um meticuloso roteiro de conselhos, reflexões sobre o que é uma atitude sábia (ou irónica, ou elegante, ou reflectida, ou ousada) perante a vida.
O tema é inesgotável, e talvez pudesse ser subsumido ao título provisório (working title) de «Vademecum Existencial», a desdobrar-se em 365 vinhetas, tantas quantos os dias do ano, todas ao estilo epigramático da pequena rajada introspectiva, talvez em 12 capítulos ou «clusters» temáticos (do mais efémero e volátil ao mais carnal e duradouro), tantos quantos os meses.
Uma ablução diária, em suma, em meu proveito exclusivo.
Quem sabe, talvez aproveite umas férias para juntar umas linhas em quantidade suficiente para colocar o mastodonte em andamento.
Ia ser divertido.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Arquivo do blogue