O novo Ashram minimalista

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Crónicas Estivais: Dia 10

Andei a ver quatro documentários sobre o 11 de Setembro: um deles puramente factual, e extremamente interessante (102 Minutes that Changed America), e 3 produtos das teorias da conspiração: Fabled Enemies (tão previsível nas suas insinuações e na selecção de coincidências pseudo-reveladoras que se torna monótono; exemplo de insinuação paranóica: todas as chamadas telefónicas nos EUA são escutadas por agentes israelitas – os mesmos que orquestraram os atentados…), Zero Investigation (uma inenarrável mistela italiana para menores de 6 anos, a soçobrar no primarismo anti-yankee; amostra: houve quem conseguisse descer dos andares acima do ponto de embate na 2ª torre – logo, os incêndios não tinham temperaturas muito elevadas…) e Loose Change – Final Cut, uma versão muito diferente daquela que fez sucesso na Internet (por exemplo, o embate dos aviões nas torres já não é contestado, nem o facto de ter havido comunicações do vôo 93 para o solo – uma versão emasculada, dirão os birutas que deliraram com as teses iniciais).

Tudo é contingente

Quando se subentende que há coisas irreversíveis e indestrutíveis na nossa civilização, eu penso sempre que há uma demonstração histórica de que não é assim – que uma civilização inteira, esplendorosa e dominadora, pode entrar em colapso (séc. V) e desaparecer (ou ser salva por um milagre [séc. VIII] – ler Thomas Cahill, How The Irish Saved Civilization: The Untold Story of Ireland's Heroic Role from the Fall of Rome to the Rise of Medieval Europe).

Setembro

(Back to Work)

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Crónicas Estivais: Dia 9

Numa sala de espera folheio uma revista de 2007: entrevista ao Presidente do BCP, em férias no Algarve. Estávamos em plena crise de Assembleias Gerais do BCP, e o senhor Presidente confirmava, sem comentários, que tinha acabado de abandonar a Opus Dei. Teixeira Pinto falava ainda da mulher e dos filhos, e do prazer que tinha em voltar a passar mais uns dias de férias, com eles, em Vilamoura. Tudo transpirava harmonia e prosperidade. O resto da entrevista debruçava-se sobre detalhes do exercício quotidiano do poder por parte de um dos homens mais poderosos do país.
Tudo isto foi há dois anos apenas – ainda há quem duvide da existência de uma Roda da Fortuna…

Sou um incorrigível highbrow

Tive há dias uma discussão com uns amigos brasileiros sobre o ingresso de Amália no Panteão – tentando eu desmentir, com a veemência das minhas convicções elitistas, que o gesto tenha traduzido uma visão democratizada, ou democratizante, da arte. Na essência, a minha argumentação «highbrow» foi a de que não há democratização possível do talento artístico, e de que não é com o gosto popular que se alcança a força civilizadora da arte, da urbanidade, da ética.
Hoje diz-se que Amália era popular, mas foi ela mesmo que assumiu o risco de avançar para os poemas do nosso cânone literário – precisamente no momento em que o gosto popular se comprazia com Artur Garcia e o Conjunto António Mafra. Que algum do gosto popular tenha subido até ela não desmente o facto de ela não ter tido que fazer concessões (embora no final tenha feito algumas – ou até muitas).
Não me lembrei na altura de usar em meu apoio um célebre poema de WB Yeats (To a Wealthy Man Who Promised a Second Subscription to the Dublin Municipal Gallery…) que resume admiravelmente essa visão elitista do efeito civilizador da arte. Uso-o agora:

And Guidobaldo, when he made
That grammar school of courtesies
Where wit and beauty learned their trade
Upon Urbino's windy hill,
Had sent no runners to and fro
That he might learn the shepherds' will

Em defesa do F WORLD

O paraíso dos GIFs animados não é o F_WORLD: é o GESTICULATION. Mesmo assim, continuo a preferir a imersão total que o F_World propicia, mai-las suas expedições punitivas ao coração das trevas da alma lusa.

31 de Agosto

Uma nobreza que parece pobreza

Embora nem toda a gente o perceba, a consumação máxima do espírito cavalheiresco medieval é o franciscanismo.
São Francisco é o mais cavalheiresco homem de sempre: não só fez da pobreza a sua dama honrada, aquela cuja demanda justifica e redime uma vida de provações, como defendeu a ideia de que seria descortês estarmos na presença de alguém que é mais pobre do que nós.
Hoje é-nos difícil sondarmos a genuína nobreza do franciscanismo – insisto, a genuína nobreza, não uma nobreza em sentido figurado.

domingo, 30 de agosto de 2009

Crónicas Estivais: Dia 8

Estávamos na aula de boxe e ele apareceu como o novato. Saudámo-nos como dois velhos conhecidos – do Liceu, das noites, etc. Ele pede ao mestre "quero ter um pescoço largo como o do Joaquim Miranda", um gigante que era um dos nomes do circuito profissional de então; todos nos rimos da birutice até que eu percebi que era a sério, e que um ou mais fusíveis tinham derretido naquele vivaço da Infante Santo.
Perdi-o de vista mas depois uma amiga comum reaproximou-nos, e seguiu-se uma dúzia de anos de convívio intenso com uma das pessoas mais desequilibradas mas mais generosas e disponíveis que conheci.
Era um convívio angustiado, porque eu sabia muito bem para onde queria seguir com a minha vida e a minha profissão, mas ele, no meio dos pilares sólidos da sua educação e das suas convicções religiosas, era um navio à deriva com os motores na rotação máxima, predisposto para o desastre. Confesso ainda que nunca descontraí o suficiente para abstrair do impacto que alguma irreflexão minha podia ter no despoletar daqueles demónios temíveis que lentamente o foram devorando.
Aprendi a respeitá-lo – e respeito não era um sentimento que inspirasse a muita gente (havia mais medo, comiseração e repulsa). Um dia saturei-me, apesar do respeito, e voltei a perdê-lo de vista.
Dizia a terceiros que eu o tinha ensinado a defender-se, e, como omitia que estava referir-se ao boxe, as pessoas vinham intrigadas perguntar-me o que é que ele queria dizer. Partiu há um ano e eu sinto o remorso de não ter tido a capacidade, a paciência, a boa sorte até, de lhe ter ensinado a defender-se de mais coisas do que de alguns golpes de punhos desferidos com lealdade.

30 de Agosto

O quarteto era de côcos

António Ferro observa, irónico, o quarteto composto por Duarte Pacheco, Carneiro Pacheco, João Lumbrales e António Salazar (entre Carneiro Pacheco e Lumbrales vemos ainda o Embaixador Teixeira de Sampaio e o Cardeal Cerejeira) (Salazar, sempre modernaço, usa um Stetson, não um côco, mas não prescindiu das botas). Dia: inauguração da Exposição do Mundo Português.
Onde andaríamos nós sem o delicioso arquivo fotográfico da Fundação Calouste Gulbenkian?

sábado, 29 de agosto de 2009

Crónicas Estivais: Dia 7

Muito burburinho pelo facto de um neurocirurgião não ter sido nomeado pelo Governo para um novo mandato no Conselho Nacional para a Ética das Ciências da Vida (CNECV). Compreendia-se o burburinho se tivesse sido nomeado sem critério. Mas – por não ser nomeado? Havendo tanta outra gente igualmente competente para integrar o CNECV? Nem sei quem terá sido nomeado em vez dele, mas isso pouco importa.
Se ao menos o excluído fosse uma excepção à tendência interna do CNECV para a auto-clonagem ideológica – mas não, nunca o foi nem se vê que uma súbita glossolália lhe tivesse dado a iluminação para passar agora a agitar as águas com algumas posições não estritamente passadistas, para tornar o CNECV ao menos um nadinha menos previsível nas opiniões que emite.
Tudo se resume, assim, ao facto de o personagem em causa ter amigos influentes e sonoros, que, fascinados pelo lustre do narcisismo que daquele irradia, resolveram carpir-lhe a perda de uma pluma ornamental (entre tantas outras); e ao facto de o excluído pensar no cargo como um feudo seu – coisas que, convenhamos, começam logo por ser muito pouco éticas.
Ou será que aquela gente do CNECV já anda a pensar e a comportar-se como os ornamentos do Tribunal Constitucional?

29 de Agosto

Vestido de burel, a apanhar o restolho (Nota Editorial)

Como dizia São Bernardo Claraval dos excessos ornamentais de Cluny, toda a fantasia é uma distracção, já que na perambulação pelos claustros a alma deve iluminar-se nas leituras, não nas contemplações simbólicas ou nas sugestões poéticas.
Esse despojamento visual é o mais sólido legado cistercense, e torna-o não só estranhamente moderno, como subtilmente adequado para paragens inóspitas habitadas por gente pobre.
O Ashram minimalista, cistercense, acaba, assim, por ser uma homenagem a uma tradição icónica da espiritualidade portuguesa, um fio de pureza gelada a desembocar num regato alcobacense, entre repolhos; acaba, assim, por ser nacionalista de importação, tão próximo da alma local como a toada lamentosa e despojada de uma antífona gregoriana, outra importação que teve o seu florescimento derradeiro, e talvez o mais sentido, no cantochão entoado, de pés descalços, sobre o barroco polícromo de Mafra.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Crónicas Estivais: Dia 6

Trinta e tal anos volvidos há malta que ainda não desmobilizou da guerra, e malta que ainda não se livrou da revolução e da contra-revolução: malta que, combatendo velhos fantasmas quixotescos, vive mal com o mundo burguês que retomou recentemente – e com mais força do que nunca – os seus direitos, os seus ritmos, as suas escalas de valores.
Noutras eras, noutros países, formariam legiões de inadaptados, de idealistas belicosos, uma coluna vivendo com risco, mas com congruência, as suas inflamações.
Por cá, hoje, a banca e o crédito barato deram cabo de tudo: a malta que sonha com Nambuangongo, com os Sovietes ou com o Alcazar de Toledo tem, no fim do mês, que pagar a prestação da casa, o colégio dos meninos, o carro de 16 válvulas e as férias no nordeste brasileiro. Não há idealismo que resista: sonham, sonham como burgueses enraivecidos, e atribuem à desmobilização o que lhes vai sucedendo, ou deixando de suceder, em razão da sua própria impotência.

28 de Agosto

Arribas frágeis

Uma foto exclusiva das falésias da Praia Maria Luísa em Albufeira: demonstra-se que a queda iminente estava assinalada.
Já agora: quem foi o incauto que autorizou que o Google Maps entrasse em Lisboa – a mostrar as nossas misérias ao mundo inteiro?

O drama da não-notícia

Hoje o dia arranca com uma cadência frenética de notícias sobre a greve da Groundforce. Os repórteres, coitados, tentam obter dos passageiros algumas informações alarmistas: acha que as malas chegarão ao destino? Acha que o avião vai partir? Não receia o caos no aeroporto? Nenhum passageiro se comove, nenhum faz o jeito de dar as respostas que os jornalistas-estagiários esperavam (vamos ver se os pobrezinhos não acabam despedidos).
Ora cá está uma daquelas situações em que deveria haver um bombardeamento de Bagdad: tem muita luz, cor, estrondo, e permite uns magníficos directos. Não será de exigir que o Presidente dos EUA demonstre algum respeito pelo ofício dos jornalistas portugueses?

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Crónicas Estivais: Dia 5

Quando soube, cá na parvónia, que tinham hasteado uma bandeira monárquica na sede do Município, confesso que instintivamente me ocorreu a velha máxima de Karl Marx de que a História se dá como tragédia e depois se repete como comédia. Depois pensei em parafraseá-lo à guisa pós-moderna, ou seja no registo «português light»: a História é uma jovem encantadora que vimos partir e um dia regressa reincarnada numa matrona carregada de "lip gloss" – muito mais atrevida, sensualona, mas deprimentemente gaiteira e galhofeira.
Aqui há uns anos fui meia dúzia de vezes a um restaurante chamado 31 da Armada: decoração convidativa, localização muito romântica, mas a comida péssima – uma tragédia. Que bom ver o nome ressuscitar, tantos anos volvidos, no mundo virtual, para designar uma comédia – pesadona, fanada, mas que dá vontade de rir.

27 de Agosto

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Crónicas Estivais: Dia 4

Um amigo meu, que é do Belenenses, advertiu-me de que a «silly crisis» com as "bocas ao clube" começou precisamente pelo facto de a velhada da agremiação ser singularmente desprovida de sentido de humor – e de, por estar rarefeita, tender perigosamente para a mentalidade de cerco e para a auto-indulgência glorificadora.
OK, OK, OK, o celacanto é um peixe amoroso, cheio de garra e pergaminhos; e que o Belenenses é um grande clube, cela va de soi: basta dedicar-se ao futebol, área na qual, como é sabido, tudo entre nós é grande.
E cá me vou, trauteando "where do I begin to tell the story of how great a love can be..."

Rangel, o Confessor Bufão

Aquele rapaz anafadote que, no seio do PSD, passa por inteligente acaba de cometer uma das mais monumentais gaffes de que há memória.
Quando o partido a que ele pertence está cercado de suspeitas quanto a ilegalidades e a imoralidades, quando se esperava que civilizadamente o mocito viesse enunciar o óbvio, de que acima da política, acima da lei, está a moral – não, vem defender o indefensável, que há que separar os três planos (deixando subentendido que os planos se equivalem) e que para o efeito há que ler o Príncipe de Maquiavel!
Ora este remate na própria baliza praticamente equivale a uma confissão de que houve imoralidades e quebras da deontologia política – pretendendo-se apenas que sobreleve o detalhe técnico da falta de prova da ilegalidade.
Conhecíamos o pagador de promessas, encarregado de exonerar promessas alheias; ficamos a conhecer o confessor, aquele que com gaffes levianamente revela os pecados alheios.
Como não houve intenção, o rapazito livra-se da qualificação de bufo; não se livra da de bufão, que lhe assenta como uma luva.

26 de Agosto

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Associações de ideias

Je rêvais de toucher la tristesse du monde
au bord désenchanté d’un étrange marais
je rêvais d’une eau lourde ou je retrouverais
les chemins égarés de ta bouche profonde

j’ai senti dans mes mains un animal immonde
échappé à la nuit d’une affreuse forêt
et je vis que c’était le mal dont tu mourais
que j’appelle en riant la tristesse du monde

une lumière folle un éclat de tonnerre
un rire libérant ta longue nudité
une immense splendeur enfin m’illuminèrent

et je vis ta douleur comme une charité
rayonnant dans la nuit la longue forme claire
et le cri de tombeau de ton infinité.

Georges Bataille

Crónicas Estivais: Dia 3

Uns dias de convalescença em paragens inóspitas e ponho em funcionamento um acervo digital que pairava inexplorado em Hard Drives externas, a visão e revisão de alguns documentários de antanho: Nuit et Brouillard, Le Chagrin et la Pitié, Hotel Terminus (neste último, o sócio peruano de Klaus Barbie é um achado, lembra-me pelo menos metade dos palavrosos e imaginativos direitistas que fui conhecendo ao longo da vida – uma espécie de "condensado latino" do "arianismo dos pobres").
Como nos intervalos ando a ler a história da SS por Heinz Höhne (excelente), se tiver tempo passo para outro recanto das Hard Drives onde estão guardadas as séries de Ken Burns: sobre a Guerra Civil, sobre o baseball, sobre o jazz (a rever, uma perene favorita), sobre a segunda Guerra (ei-la que regressa…) e sobre o Wild West.
Ora aqui está como pode optimizar-se uma convalescença.

25 de Agosto

Quem porfia sempre alcança (2): a melhor vista privada de Lisboa

Parece que não me enganei: uma vista invejável, convenhamos.

Quem porfia sempre alcança (1): Novembro de 2007



Regressemos a Novembro de 2007:
"No lado poente do Castelo (invisível pois do Rossio / Praça da Figueira e de S. Pedro de Alcântara) está um prédio de muito mau gosto, um enxerto «so seventies» assim ao estilo «aldeamento de Alporchinhos», mas que se diz ter, no seu último andar (aquele acima da linha de árvores, a disputar proeminência com o Castelejo), a vista mais espectacular de toda a Lisboa. Um dia fui até à porta, na Rua do Recolhimento, mas achei-o ainda mais feio do que visto a partir de São Vicente (foto do topo) ou das Portas do Sol (foto de baixo). Linda, linda, é a vertente ajardinada que leva à Igreja do Menino Deus (aquele telhado à «chapéu vietnamita» que se vê à direita da foto de cima). Ficou-me atravessada a ideia da vista, contudo. Será que os olissipógrafos de serviço, gente sempre tão bem relacionada, não conhecem algum dos proprietários do local? Alguém que autorize uma foto panorâmica?"
FOTOS_2_&_3
"Como eu previra, a vista naquele último andar é magnífica, e só apanhamos aqui um bocado da panorâmica do rio. Falta a vista para a cidade - por cima do próprio Castelo!"
FOTO_1

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Crónicas Estivais: Dia 2

Nada desespera mais os meus companheiros de viagem do que a minha recusa de alinhar em cartões de fidelidade. Chegam a qualquer aeroporto e rapam logo de uma mão-cheia de cartões, "frequent flyer", "Star Alliance", um que é dourado, outro que é preto, outro que combina com cartão de crédito, outro que dá descontos nas pousadas e outro que, ao fim de três voltas ao mundo, "dá direito" (esta expressão é tudo) a cinco bilhetes no Campo Pequeno e a quatro latas de Atum Toneca.
Tenho dois argumentos simples: não sou eu que pago as viagens, pelo que os "fringe benefits" me soam, ao menos moralmente, a peculato; e se não houvesse esse prurido moral, haveria ainda o argumento decisivo de que, nesta fase da vida, não tenho oportunidade para viagens pagas do meu bolso, nas quais as "flyer miles" fizessem diferença (por outras palavras, há boas razões para estar por ora suspenso o turismo de longa distância).
Este último argumento, que sugere desperdício, é, sinto-o, aquele que mais enfurece os meus companheiros de viagem; o outro soa-lhes presunçoso e facilmente me encaixam naquelas tiradas "à Francisco Louçã" que, como se se tratasse de acne juvenil, eles esperam que o tempo acabe por resolver.

24 de Agosto

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