Quem falou em superioridade de espécies? O ronronar como acto de manipulação de seres humanos por seres felinos. LER
O novo Ashram minimalista
quarta-feira, 22 de julho de 2009
A realidade ultrapassa a ficção 5
Papa aconselha Obama. Acerca de quê? De legitimidade democrática? LER
terça-feira, 21 de julho de 2009
segunda-feira, 20 de julho de 2009
domingo, 19 de julho de 2009
Dîner à la Mode
O recém-regressado ORIGEM_DAS_ESPÉCIES e MISS_PEARLS coincidem nalgumas reflexões sobre o estado de degradação a que chegou a nossa restauração «branchée».
Duas notas da minha parte, para além da concordância geral:
a) ao contrário da sugestão de Miss Pearls, a restauração francesa não é exemplo de «user-friendliness» para ninguém, muito pelo contrário: nada como o garçon parisiense para exibir esplendorosamente a arte do desprezo pelos metecos. Abre-se a excepção, de facto, para alguns alsacianos.
b) a culpa não é dos restaurantes mas do estado de espírito de quem os procura. Se o povo julga elevar o seu «status» através do «consumo conspícuo» de grandes doses de masoquismo, está criado o nicho de mercado para essas garagens clonadas nas quais se serve, a preços indecorosos, uma mistela inenarrável e minimalista.
O remédio é óbvio, e não envolve protestos: por mim, «voto com os pés», ou seja, evito.
Duas notas da minha parte, para além da concordância geral:
a) ao contrário da sugestão de Miss Pearls, a restauração francesa não é exemplo de «user-friendliness» para ninguém, muito pelo contrário: nada como o garçon parisiense para exibir esplendorosamente a arte do desprezo pelos metecos. Abre-se a excepção, de facto, para alguns alsacianos.
b) a culpa não é dos restaurantes mas do estado de espírito de quem os procura. Se o povo julga elevar o seu «status» através do «consumo conspícuo» de grandes doses de masoquismo, está criado o nicho de mercado para essas garagens clonadas nas quais se serve, a preços indecorosos, uma mistela inenarrável e minimalista.
O remédio é óbvio, e não envolve protestos: por mim, «voto com os pés», ou seja, evito.
Shoah
Acabei de ver, em pequenas doses para não abusar da minha atenção, a Shoah de Claude Lanzmann. Excelente pretexto de meditação, ainda que uma vez por outra o artifício narrativo se sobreponha demasiado à eloquência dos testemunhos. Que bom os poucos sobreviventes terem deixado o seu testemunho: por exemplo, no caso de Treblinka o testemunho é crucial, dada a eficiência com que foram apagados os rastos.
sábado, 18 de julho de 2009
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Os encantos da velha Lisboa
Hoje comentava com um amigo o quanto é exíguo o milieu em Lisboa, e não sei porquê ocorreram-me algumas passagens, difusamente reconstituídas, de Sttau Monteiro – os ecos de uma Lisboa bem mais exígua ainda, asfixiada em compadrios, inebriada com estatutos e privilégios, emudecida por medos atávicos – os ecos filtrados pela ironia fina de um privilegiado que se aborrecia com o seu próprio casulo.
Há uma Lisboa despovoada e silenciosa, «objectificada», que me evoca poderosamente, com mais ironia e até mais crueza do que as palavras escritas, a futilidade desse meio vaidoso e adulador que acabou tragado pela voragem do tempo. As imagens ficaram em lugar do alarido.
Há uma Lisboa despovoada e silenciosa, «objectificada», que me evoca poderosamente, com mais ironia e até mais crueza do que as palavras escritas, a futilidade desse meio vaidoso e adulador que acabou tragado pela voragem do tempo. As imagens ficaram em lugar do alarido.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Na morte de Palma Inácio
Andam aí a acender umas velinhas ao «salteador revolucionário», não muitas, que ele não era dos mais acomodados e acomodáveis.
Conheci há tempos a família de um daqueles a quem coube, naqueles tempos, a perseguição ao salteador. Com a Revolução dos Cravos viram a sua vida desgraçada, e desgraçada continua, em larga medida. Leram bem, os familiares – porque aquele que directamente perseguiu Palma Inácio (no estrito cumprimento da lei, como é evidente) teve a fortuna de falecer ainda nos anos 70 e de não assistir à vingança.
Não puderam perseguir aquele, perseguem os familiares – uma lógica mafiosa de represálias em que tem sido pródiga a voragem abrileira, para maior glória do nosso progresso e da nossa justiça.
Conheci há tempos a família de um daqueles a quem coube, naqueles tempos, a perseguição ao salteador. Com a Revolução dos Cravos viram a sua vida desgraçada, e desgraçada continua, em larga medida. Leram bem, os familiares – porque aquele que directamente perseguiu Palma Inácio (no estrito cumprimento da lei, como é evidente) teve a fortuna de falecer ainda nos anos 70 e de não assistir à vingança.
Não puderam perseguir aquele, perseguem os familiares – uma lógica mafiosa de represálias em que tem sido pródiga a voragem abrileira, para maior glória do nosso progresso e da nossa justiça.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Uma Direita Revisitada?
Um dos blogues que leio tem desenvolvido alguns exercícios crepusculares de reflexão sobre a presença da «direita» on-line (e especificamente na blogosfera). Diz reflectir sobre os «problemas» dessa «direita», e com algumas reflexões eu concordo, embora não descortine os referidos «problemas», até porque nada me mobiliza para a «vitalidade», ou a «ausência de problemas», dessa «direita» (aí as minhas perspectivas e as do autor desse blogue divergem radicalmente).
Confesso que reencontrei essa «direita» com alguma curiosidade, tantos anos volvidos depois de a ter abandonado, mas cedo ela me fez relembrar as razões pelas quais eu tinha partido, adicionadas agora a novas, e perturbadoras, razões.
Impressionou-me muito o abaixamento do nível cultural dos protagonistas mais sonoros, e a degradação do referencial patriótico tradicional, a benefício de importações ideológicas e simbólicas das principais tribos do «radicalismo europeu».
__________
I- Impressionou-me mais ainda a adolescente falta de ambição cultural e de fibra moral:
1) a veneração de todos os «losers» que a nossa sociedade foi produzindo nos últimos 50 anos, os bons e os maus, os românticos sonhadores mas também os pseudo-marginais e os pseudo-literatos;
2) o afunilamento dos ideais estéticos às exíguas produções de uma certa clique pseudo-clandestina;
3) a cumplicidade com todo o tipo de profanações idiotas do nosso adquirido civilizacional;
4) o completo desprezo pela realidade e pelas restrições que ela impõe à racionalidade do discurso e da conduta;
5) o estranho convívio do passadismo com a quase total ignorância das referências do passado;
6) a atordoante litania de frases e ideias feitas e estafadas, sem um assomo de crítica ou uma intenção evolutiva;
7) o espírito de facção e de matilha, os cambados e ventripotentes mandarins a aliciarem jovens crédulos com promessas de promoções sem significado;
8) a total incongruência da denúncia da partidocracia, verdadeiramente caricata quando provinda de partidos minúsculos que se afadigam a imitar os partidocratas nos seus mais notórios e detestáveis tiques.
__________
II- Em suma, a nossa «direita» tornou-se, nos últimos 30 anos:
1) envergonhadamente racista, porque não saberia compatibilizar o racismo com o nosso passado colonial;
2) envergonhadamente xenófoba, porque não saberia compatibilizar a xenofobia, quer com as suas próprias servidões ideológicas, quer com a política de emigração do Dr. Salazar;
3) envergonhadamente fascista, preferindo apresentar-se como «identitária» a «pan-europeísta» ao estilo Waffen-SS, e venerar charlatães como Degrelle a revelar a recôndita idolatria de Hitler (mesmo que envergue as camisetas 88 e se carregue de tatuagens reveladoras);
4) envergonhadamente anti-semita, preferindo (sabe-se lá a que custo) seguir a agenda esquerdista de denúncia das alegadas violências sionistas cometidas na Palestina;
5) envergonhadamente anti-Yankee, preferindo subscrever qualquer tipo de teoria conspirativa (do Clube de Bilderberg ao «Loose Change») a assumir um debate lúcido sobre o que deve ser a posição portuguesa no concerto das nações;
6) envergonhadamente tirânica, preferindo abrigar-se na causa comum das carpideiras de todo e qualquer tirano deposto ou criminoso de guerra capturado;
7) envergonhadamente misógina, afadigando-se na busca de umas quantas viragos capazes de desfazer a aparência exclusiva do «male bonding» (e, já agora, a simbologia «Tom of Finland»…), com o mesmo zelo com que os motards recrutam umas pin-ups para os seus jamborees;
8) envergonhadamente pagã, venerando secretamente, aos dias de semana, os seus Molochs-Baals, para, ao fim de semana, acender em contrição umas velinhas à Senhora de Fátima.
___________
Ora uma «direita» assim, tão envergonhadota, não é carne nem peixe – nem talvez possa, ou sequer deva, sê-lo, em tempo de paz cívica, num tempo em que a pressão da realidade lá vai garantindo o que gerações anteriores reclamaram – e o reclamaram tantas vezes sob o pendão ideológico da «direita».
Uma «direita» assim não interessa. Agradeço à blogosfera a possibilidade de tê-lo reconfirmado, com mais vigor ainda, tantos anos volvidos.
Remato com uma observação que dirigi já não sei a quem, no ardor de algumas escaramuças que tive ainda com alguns desses paladinos dessa «direita»: há por lá excelentes pessoas, darei sempre testemunho disso; as ideias é que não prestam – deixaram de prestar, por mérito próprio e por força das circunstâncias.
Confesso que reencontrei essa «direita» com alguma curiosidade, tantos anos volvidos depois de a ter abandonado, mas cedo ela me fez relembrar as razões pelas quais eu tinha partido, adicionadas agora a novas, e perturbadoras, razões.
Impressionou-me muito o abaixamento do nível cultural dos protagonistas mais sonoros, e a degradação do referencial patriótico tradicional, a benefício de importações ideológicas e simbólicas das principais tribos do «radicalismo europeu».
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I- Impressionou-me mais ainda a adolescente falta de ambição cultural e de fibra moral:
1) a veneração de todos os «losers» que a nossa sociedade foi produzindo nos últimos 50 anos, os bons e os maus, os românticos sonhadores mas também os pseudo-marginais e os pseudo-literatos;
2) o afunilamento dos ideais estéticos às exíguas produções de uma certa clique pseudo-clandestina;
3) a cumplicidade com todo o tipo de profanações idiotas do nosso adquirido civilizacional;
4) o completo desprezo pela realidade e pelas restrições que ela impõe à racionalidade do discurso e da conduta;
5) o estranho convívio do passadismo com a quase total ignorância das referências do passado;
6) a atordoante litania de frases e ideias feitas e estafadas, sem um assomo de crítica ou uma intenção evolutiva;
7) o espírito de facção e de matilha, os cambados e ventripotentes mandarins a aliciarem jovens crédulos com promessas de promoções sem significado;
8) a total incongruência da denúncia da partidocracia, verdadeiramente caricata quando provinda de partidos minúsculos que se afadigam a imitar os partidocratas nos seus mais notórios e detestáveis tiques.
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II- Em suma, a nossa «direita» tornou-se, nos últimos 30 anos:
1) envergonhadamente racista, porque não saberia compatibilizar o racismo com o nosso passado colonial;
2) envergonhadamente xenófoba, porque não saberia compatibilizar a xenofobia, quer com as suas próprias servidões ideológicas, quer com a política de emigração do Dr. Salazar;
3) envergonhadamente fascista, preferindo apresentar-se como «identitária» a «pan-europeísta» ao estilo Waffen-SS, e venerar charlatães como Degrelle a revelar a recôndita idolatria de Hitler (mesmo que envergue as camisetas 88 e se carregue de tatuagens reveladoras);
4) envergonhadamente anti-semita, preferindo (sabe-se lá a que custo) seguir a agenda esquerdista de denúncia das alegadas violências sionistas cometidas na Palestina;
5) envergonhadamente anti-Yankee, preferindo subscrever qualquer tipo de teoria conspirativa (do Clube de Bilderberg ao «Loose Change») a assumir um debate lúcido sobre o que deve ser a posição portuguesa no concerto das nações;
6) envergonhadamente tirânica, preferindo abrigar-se na causa comum das carpideiras de todo e qualquer tirano deposto ou criminoso de guerra capturado;
7) envergonhadamente misógina, afadigando-se na busca de umas quantas viragos capazes de desfazer a aparência exclusiva do «male bonding» (e, já agora, a simbologia «Tom of Finland»…), com o mesmo zelo com que os motards recrutam umas pin-ups para os seus jamborees;
8) envergonhadamente pagã, venerando secretamente, aos dias de semana, os seus Molochs-Baals, para, ao fim de semana, acender em contrição umas velinhas à Senhora de Fátima.
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Ora uma «direita» assim, tão envergonhadota, não é carne nem peixe – nem talvez possa, ou sequer deva, sê-lo, em tempo de paz cívica, num tempo em que a pressão da realidade lá vai garantindo o que gerações anteriores reclamaram – e o reclamaram tantas vezes sob o pendão ideológico da «direita».
Uma «direita» assim não interessa. Agradeço à blogosfera a possibilidade de tê-lo reconfirmado, com mais vigor ainda, tantos anos volvidos.
Remato com uma observação que dirigi já não sei a quem, no ardor de algumas escaramuças que tive ainda com alguns desses paladinos dessa «direita»: há por lá excelentes pessoas, darei sempre testemunho disso; as ideias é que não prestam – deixaram de prestar, por mérito próprio e por força das circunstâncias.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Contemplações Jansenistas 2
E eu, pensando em tudo isto,
Fiquei outra vez menos feliz...
Fiquei sombrio e adoecido e soturno
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça
E nem sequer de noite chega.
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Alberto Caeiro, Esta Tarde a Trovoada Caiu
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Alberto Caeiro, Esta Tarde a Trovoada Caiu
Contemplações Jansenistas 1
O essencial é saber ver
(…)
Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores.
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.
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Alberto Caeiro, O que Nós Vemos
Alberto Caeiro, O que Nós Vemos
domingo, 12 de julho de 2009
A sabedoria de Ol' Abe
Character is like a tree and reputation like a shadow. The shadow is what we think of it; the tree is the real thing.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Um dia invulgar num país invulgar 3
Termina o dia com a notícia de que um jovem amigo fez valer os seus direitos e resolveu jogar na sua independência. Coisa raríssima, até porque ela, para lá do mérito, envolve ainda uma dose de sorte. Lembrei-me da observação de Bernard Williams sobre a decisão de Paul Gauguin de largar tudo e recomeçar no Tahiti uma vida nova, interrompendo a continuidade que assegurara até então o seu sustento e o da sua família: aprovamos a decisão de Gauguin retrospectivamente em larga medida porque houve um happy ending, porque houve «sorte moral»*.
Desejo a melhor sorte a esse novo aventureiro moral, conquanto a nobreza do gesto esteja já cunhada com o timbre kantiano. Há dias em que estas invulgares cintilações me reconciliam com a opacidade desta caverna de répteis morais.
__________________________________
*Williams, Bernard (1981), Moral Luck, p. 23.
Desejo a melhor sorte a esse novo aventureiro moral, conquanto a nobreza do gesto esteja já cunhada com o timbre kantiano. Há dias em que estas invulgares cintilações me reconciliam com a opacidade desta caverna de répteis morais.
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*Williams, Bernard (1981), Moral Luck, p. 23.
Um dia invulgar num país invulgar 2
À tarde cruzo-me com uma das pessoas visceralmente mais independentes que conheço – é livre sem esforço, uma espécie de inconsciente recriação de uma moral existencialista que não paga tributo a conveniências e traça o seu próprio caminho. Falou-me de uns beliscões que lhe preparam, e de como tem a reacção pronta. Sorrio-me no meu íntimo: no nosso país, e mais ainda em tempos de crise e necessidade, a independência é um luxo, quase uma aberração. Vê-la assim manifestada com esta abundância é coisa marselhesa, soa a coisa importada.
Um dia invulgar num país invulgar 1
Logo de manhã cruzo-me com um amigo que me conta como foi enxovalhado porque resolveu enaltecer publicamente a falta de subserviência de outro amigo. Foi enxovalhado comme il faut, concluo; ser-se livre é coisa que não se usa, que cada vez menos se usa, no nosso país.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Sanfonas
Curiosa coincidência: no PS a estrela ascendente chama-se Sanfona, e no mesmíssimo momento o mesmíssimo partido escolhe um Sanfona para porta-voz. Já repararam no género empertigadinho do Sanfona porta-voz? Deve ter sido um sucesso no Jardim-Escola, com aquele ar convicto e empenhado...Vai uma homenagem musical para ambos os Sanfonas, com saudades da Butte Montmartre.
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