O novo Ashram minimalista

domingo, 12 de outubro de 2008

Encerramento - num tom confessional

Nestes dias em que tenho que atravessar leituras muito difíceis e áridas, o meu pensamento interrompe-se constantemente em impulsos centrífugos.
Hoje alternava entre intermitências alegres (as gargalhadas de uma criança, eu a trautear strawberry fields forever) e rebates sombrios (a lembrança de todas as sacanices a que já tive que sobreviver na idade adulta).
Depois apeteceu-me um chá de tília carregado de açúcar mas descobri que não havia açúcar e contentei-me com um copo de água. Lembrei-me de novo das crapulices de que está atapetada a minha procissão de memórias, e meditei no facto, não totalmente estranho, de me referir agora a elas sem emoção, sem amargura, sem sequer a alegria feroz com que rememorava, há poucos anos ainda, a minha paciente e laboriosa vingança de todas elas.
Desperdício de energia, foi o que foi, perda de tempo, perda de fé: pergunto-me frequentemente por que razão tive eu que ser confrontado com a perda da grandiosa ilusão infantil que faz do mundo um lugar decente; e por que razão tive eu de ver o meu caminho atravessado por tanta gente imbecil e desonesta.
Um longo dia chega ao fim.
Agito-me nestas revisões de turbulências, talvez para contrastá-las com a serenidade presente, talvez para me vingar de leituras rebarbativas, talvez para me indignar com a minha própria indiferença.

sábado, 11 de outubro de 2008

Vistas

Do Largo Dr. António Viana (um segredo bem guardado). À esquerda a Escola Machado de Castro, à direita o mamarracho cinzento com que o Min. Manuel Pinho houve por bem substituir a casa onde morreu Almeida Garrett. Atrás do mamarracho, o Cemitério dos Ingleses e o Pedro Nunes.

Vistas

Do topo da 7ª Avenida (Rua D. João V).

Uma pausa no estudo de matérias cansativas




Mais uma obra-prima desconhecida de John Lautner, algures nos montes sobre L.A.

Silêncio na aldeia


sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Neobizantinismo

Constantinopla, cercada, ressoava com as altercações de eminentes teólogos, que se encrespavam no apuramento do sexo dos anjos (se o tinham, e qual era). A expressão bizantinice vem daí, convém sempre recordá-lo – muito particularmente em momentos, como o de hoje, em que se avolumam dificuldades concretas para o cidadão comum, e os teólogos seculares se inebriam no magno debate sobre o «power trip» de lobbyistas que pretendem ver orientações sexuais transformadas em alavancas políticas (decerto uma conquista do despudor com que se renuncia à privacidade para se ganhar terreno a quem, por contraste, continue apegado ao pudor).
O neobizantinismo tem isto, a preocupação já não é com anjos, e já nem é com sexo – é apenas com jogos de poder, e o cerco decorre agora já dentro das muralhas. Não sei o que restará da Constantinopla moderna quando terminar esta manobra de diversão.

Sinto-me ignorante

Eu ia jurar que a blogosfera é uma feira de vaidades, mas admito que o problema seja meu: querem ver que sou eu o único que nunca leu nada – nem uma linha – do mais recente Prémio Nobel da Literatura?

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O maior perigo da "crise"

A ciência económica moderna nasceu sob o signo da emancipação, apresentando-se como a ciência do homem comum, relativamente ao qual se confiava que fosse capaz de resolver, pelos seus meios, a maior parte dos seus interesses imediatos – tanto os pessoais como os colectivos. Nunca tinha existido essa confiança, ainda que milénios de paternalismo e sujeição nunca tivessem provado que houvesse melhor via de promoção do bem-estar efectivo do que essa da pulverização dos poderes de decisão – da devolução aos indivíduos das prerrogativas de definição e condução do destino de cada um.
Cada vez que oiço falar de «crise económica» vejo acastelarem-se as sombras reaccionárias do paternalismo e da opressão. Por todo o sucesso que teve nestes últimos dois séculos, a ciência económica pouco conseguiu na consolidação do adquirido civilizacional em que se traduz a emancipação individual. Estamos sempre expostos ao retrocesso, atrás do estandarte irracional da «crise».

Medieval Imaginations

http://med-imag.english.cam.ac.uk/

Recordar Leonard Bernstein

http://memory.loc.gov/ammem/collections/bernstein/

Quase de regresso a Sul


Turbulência

As longas travessias não se fazem sem momentos de sobressalto, sem uns achaques, sem desânimos. Depois regressa, muito lentamente, a serenidade, e voltamos a respirar. Nenhum manual de ética nos instila a sabedoria para esperarmos com serenidade que a turbulência termine: quando estamos imersos perdemos o norte, e só recobrada a normalidade ousamos meditar no que deveríamos ter pensado e sentido. A sabedoria é de facto uma coisa retardada.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Do suicídio (3)

"A man who retires from life does no harm to society: He only ceases to do good; which, if it is an injury, is of the lowest kind. — All our obligations to do good to society seem to imply something reciprocal. I receive the benefits of society, and therefore ought to promote its interests; but when I withdraw myself altogether from society, can I be bound any longer? But allowing that our obligations to do good were perpetual, they have certainly some bounds; I am not obliged to do a small good to society at the expence of a great harm to myself; why then should I prolong a miserable existence, because of some frivolous advantage which the public may perhaps receive from me? If upon account of age and infirmities, I may lawfully resign any office, and employ my time altogether in fencing against these calamities, and alleviating, as much as possible, the miseries of my future life: why may I not cut short these miseries at once by an action which is no more prejudicial to society?"
David Hume, On Suicide (1777)

Do suicídio (2)

"Quando o interesse dos familiares o exige, a alma deve impor a si mesma a vida; pode ter decidido o suicídio, pode mesmo já ter iniciado o processo: pois que desista e se ponha à disposição dos que dela precisam. Demonstra um grande coração quem se resigna à vida no interesse dos outros"
Séneca, Epistulae Morales / Cartas a Lucílio, 104:3-4

Do suicídio (1)

Reflexões de Charlotte sobre o magno problema do suicídio (AQUI) suscitaram-me esta contra-reflexão:

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No Sonho de Cipião (De Re Publica, VI), Cícero imagina o jovem Cipião a contar o sonho que terá tido, e no qual reencontra o seu avô – Cipião «Africano» –.
À perplexidade do jovem (“
não morreste?”), o velho responde com um paradoxo famoso, que são aqueles que julgamos mortos que estão verdadeiramente vivos, porque libertando-se da prisão do corpo experimentam a vida eterna, e que são os que julgamos vivos que vivem a morte (na forma de sofrimento e decadência) na existência sublunar.
Entra no sonho Paulo, o pai do jovem Cipião, e com a emoção do reencontro destes dois desaparecidos o jovem, inebriado com o paradoxo, pergunta-lhes se não deverá juntar-se a eles nessa dimensão de vida verdadeira.
Paulo dissuade-o, com argumentos retirados de Platão: não somos livres de nos libertar da Terra senão por ordem daquele que nos colocou nela para dela cuidarmos (senão, que sentido teria estarmos aqui?); não podemos libertar a alma do corpo, insiste o pai do sonhador, porque isso seria desdenhar o dom que, investindo-nos no que somos, nos transcende.
Não era a posição unívoca de Cícero (
De officiis, De finibus, Tusculanae Disputationes). Mas a fama do “Sonho de Cipião” associou-o, na tradição cristã, à condenação do suicídio, até aos tempos de impiedade do iluminismo.
Antes, Séneca tinha subtilmente (e ironicamente, dado o seu desfecho pessoal) invertido já os termos de Platão: a renúncia ao suicídio não é o cumprimento de um imperativo, é antes o exercício de uma liberdade – é um gesto moral.
É na ponta desta inflexão valorativa que pega David Hume, quando busca reabilitar o suicídio como expressão irredutível e idiossincrática da última liberdade que pode restar à nossa condição (quando acordamos, cépticos, do Sonho de Cipião).

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domingo, 5 de outubro de 2008

O meu cinco de Outubro

O meu avô paterno era oficial monárquico; emigrou para o Brasil, renunciando à carreira das armas, porque não quis jurar bandeira uma segunda vez (regressou com uma profissão privada). O meu avô materno era oficial republicano, e à defesa ardorosa dos seus ideais, e depois à dos ideais do Estado Novo, dedicou toda a sua carreira castrense.
Eram dois bons homens, imaculadamente honestos, morreram na fé e no amor dos seus. Orgulho-me imensamente de ambos. Se pensasse nas qualidades de cada um, não conseguiria optar pelo credo político de qualquer deles.
E é por isso que sou republicano - por pura convicção pessoal, por pura questão de princípio. Não conheço ninguém cujas qualidades ou defeitos possam ter inflectido, e menos ainda determinado, o meu ideal político.

Do tempo em que o samba era samba (e os carros eram a sério)

Pleure pas, c'est pas grave (e o tempo que não volta para trás...)

Nunca mais se fez BD com esta qualidade visual: Bruno Brazil

(clicar para ampliar)

O único saudosismo genuíno

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Momentos Brassens: Mauvaise Réputation

(à propos de Dorcas Gustine, de Edgar Lee Masters, ici)


Au village, sans prétention,

J'ai mauvaise réputation.

Que je me démène ou que je reste coi

Je passe pour un je-ne-sais-quoi!

Je ne fait pourtant de tort à personne

En suivant mon chemin de petit bonhomme.

Mais les braves gens n'aiment pas que

L'on suive une autre route qu'eux,

Non les braves gens n'aiment pas que

L'on suive une autre route qu'eux,

Tout le monde médit de moi,

Sauf les muets, ça va de soi.

Momentos Brassens: Fernande (intraduzível)


Une manie de vieux garçon

Moi j'ai pris l'habitude

D'agrémenter ma solitude

Aux accents de cette chanson

Quand je pense à Fernande

Je bande, je bande

Quand je pense à Felicie

Je bande aussi

Quand je pense à Léonore

Mon dieu je bande encore

Mais quand je pense à Lulu

Là je ne bande plus

La bandaison papa

Ça ne se commande pas.

NET com estilo: A noite em Van Gogh

NET com estilo: Imagens da Medicina Medieval

NET com estilo: Os crustáceos chegaram!

NET com estilo: Across the Universe

NET com estilo: A Lanterna Mágica Japonesa

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