O novo Ashram minimalista

terça-feira, 25 de setembro de 2007

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Menos liberdade: nas seringas prisionais

Em matéria de gastar o que eu pago de impostos, uma das coisas que mais me indigna é o apoio dado aos toxicodependentes. Hoje falou-se de fornecer seringas aos presos, como profilaxia contra doenças transmissíveis.
Mas eu, na minha modesta opinião muito anti-garantística e politicamente incorrecta, acho que bastaria alterar a lei para se resolver o problema da droga nas prisões: bastava que nenhum preso pudesse ver a sua pena ser encurtada, comutada, indultada, nem beneficiar de saídas precárias ou outras formas de redução ou atenuação, sem se sujeitar a testes regulares, e a testes-surpresa, que determinassem a sua «limpeza de drogas». Uma detecção e cumpria a pena toda, sem apelo nem agravo. Aposto que lhes passava a todos a toxico«dependência»... Era limpinho!

Saudades dos meus tempos de coralista: Handel, And He Shall Purify

Mais liberdade: nos regimes matrimoniais?

Apareceu na Baviera uma proposta legislativa de introduzir o casamento a prazo: um prazo de sete anos, renovável automaticamente na ausência de denúncia por alguma das partes. Parece uma ideia disparatada mas talvez não o seja tanto: não havendo descendentes, o prazo era capaz de constituir um ponto focal para uma meditação séria sobre o compromisso matrimonial, que muitas vezes morre de pura inércia pela ilusão de indissolubilidade, e depois de morto é que dá origem à terrível agonia do divórcio. Sabendo que haveria essa hipótese de «repúdio sabático», e por isso uma menor possibilidade de «holdup» matrimonial (a venda do direito ao divórcio mediante contrapartidas desproporcionadas, explorando a impaciência da contraparte), talvez alguns casais tomassem mais a sério os seus votos matrimoniais – razão pela qual talvez não fosse disparatado abrir-se essa opção para o casamento civil (uma opção que caducaria com o nascimento do primeiro descendente). Para os que achassem, e achem, inaceitável a ideia, haveria sempre a opção pelo regime actual – ou mesmo, quem sabe, a opção por um regime de mais forte indissolubilidade, mais fortemente «sinalizador» da «seriedade» na aceitação da incondicionalidade do compromisso (na minha geração, os mais ardorosos defensores da incondicionalidade do compromisso e da indissolubilidade do vínculo foram os primeiros a divorciar-se; às vezes parece-me que quase só resto eu).

Do lado errado da minha aldeia


domingo, 23 de setembro de 2007

As Divas Francesas (ao som de Satie). Cinco estrelas!

Rever Marlene Jobert

Un rire fou: Le Valet

Un rire fou: Le Diner de Cons

Lembra de Mim: Ivan Lins

Bluesette: Toots Thielemans & Stevie Wonder

Delft


Eu sei que a cidade é pequena, que o centro preservado mais pequeno é, mas se eu regressasse a Delft dedicava-lhe mais do que as horas que lá estive da última vez, um pouco motivado por romagem proustiana (a busca frustrada pelo muro amarelo). Há qualquer coisa de mágico e indefinível na simplicidade de Delft, talvez o contraste dos campanários com os horizontes rasgados de canais e praças, talvez as cascatas de azul (o azul de Delft) transbordando das lojinhas de faiança, talvez o ar mais camponês e menos opulento - para quem chega de Amesterdão.

Alvorada de Outono


[...]
J'ai vu des archipels sidéraux ! et des îles
Dont les cieux délirants sont ouverts au vogueur :
- Est-ce en ces nuits sans fonds que tu dors et t'exiles,
Million d'oiseaux d'or, ô future Vigueur ?
+
Mais, vrai, j'ai trop pleuré ! Les Aubes sont navrantes.
Toute lune est atroce et tout soleil amer :
L'âcre amour m'a gonflé de torpeurs enivrantes.
Ô que ma quille éclate ! Ô que j'aille à la mer !
+
Si je désire une eau d'Europe, c'est la flache
Noire et froide où vers le crépuscule embaumé
Un enfant accroupi plein de tristesse, lâche
Un bateau frêle comme un papillon de mai.
+
Je ne puis plus, baigné de vos langueurs, ô lames,
Enlever leur sillage aux porteurs de cotons,
Ni traverser l'orgueil des drapeaux et des flammes,
Ni nager sous les yeux horribles des pontons.
[...]
Rimbaud, Le Bateau Ivre

sábado, 22 de setembro de 2007

Joao do Grao

Um dos primeiros crivos da minha triagem pessoal envolve o João do Grão: há as pessoas que se sentem à vontade no João do Grão, e depois há as outras. Que se sentem à vontade, insisto, não é as que gostam, porque eu próprio sou objectivo e sei que há muito melhor em restaurantes, sejam quais forem as variáveis que incluamos na avaliação. As pessoas que se sentem à vontade no João do Grão tendem a ser pessoas que se sentem bem na sua pele, que vão a qualquer restaurante pela comida básica e sobretudo pela companhia. São pessoas sem preconceitos culinários, sem veneração por modas, sem preocupações de verem ou serem vistas por algum «beau monde» (supondo-se que tal existe abaixo dos Pirinéus). Não olham à volta nem emudecem na vaga esperança de ouvirem conversas alheias, nem se preocupam em impressionar os empregados com ostentações de destreza no manuseio de talheres ou do conhecimento dos arcanos vinícolas de aquém e além-mar.
Tenho tido algumas das minhas refeições mais calmas (excluindo as domésticas, é claro) no João do Grão, e por lá têm decorrido algumas das conversas mais descontraídas, alegres e instrutivas. Talvez se houvesse ainda o velho Martinho, ou o Suisso, ou o Gelo, talvez se o Nicola não tivesse arvorado aquele ar cosmopolita – talvez eu tivesse menos apego por esse último reduto galego na Baixa. Mas enquanto a refeição decorre acomete-me às vezes a ansiedade de pensar que um dia aquilo fecha, e percorro com o olhar alguns recantos que eu lembrava mais escuros e compartimentados da minha mais recôndita meninice (detestei as poucas vezes que lá terei ido, associava aquilo a uma espécie de carvoeira fétida e repleta de gente feia e suja, e só de castigo é que, sustendo a respiração e contendo a náusea, conseguia comer uma ou duas lasquinhas de bacalhau).
Como eu mudei! E como o sítio mudou – mudando tão pouco! (Às vezes tenho a esperança de que o mesmo tenha sucedido comigo). Lembrei-me do João do Grão lendo a justíssima reportagem no suplemento do SOL, e não deixei de experimentar o sentimento agridoce que, para mim, têm todas as evocações de uma Lisboa de pregões e cheiros e tascas que, vertiginosamente, quase desapareceu em duas ou três décadas.

Bye-Bye Blackbird / Sleepless in Seattle

Uma música linda, linda, e passagens de um filme docinho e divertido.

Que significa ser-se poderoso? Spooky...

Depois de algumas palavras de reprovação formuladas pela Consoror Charlotte, as autoridades holandesas resolveram imediatamente fechar 1/3 do Red Light District de Amesterdão. Se isto não é poder efectivo... até mete medo, vou passar a tratar a Consoror ainda com mais respeitinho...

Good Morning, Rua das Chagas (qualidade de vida em Lisboa)



sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Casa nos bosques



Mais um bocadinho de escapismo nos bosques junto a Big Sur, CA.

Casa nas nuvens




Algures sobre Napa Valley, CA, território vinhateiro. Um intervalo bem escapista num dia difícil.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Doce veneno nativo (curare no corpo)

Agora fiquei com essa de Mariscal, Santa Catarina, atravessada: uma tentação...

Ainda Aquilino

"Estava uma destas deliciosas manhãs de fins de Janeiro, de que Lisboa tem o privilégio, tão morna que, ao desafio com mimosas e olaias, se põem às vezes a florir as árvores serôdias das ruas, tão branca que as pombas brancas que vão de revoada do Alto da Penitenciária para o Carmo e casarão de S. Francisco mal se vêem passar. Tinha nascido o sol e já os raios faiscavam em torreões e zimbórios. Era a hora fluvial da manhã, quando através de ruas e praças tudo corre, tudo gira a caminho do trabalho. Os carros eléctricos parecem tocar uma campainha raivosa e a própria vida possuir ritmo e frescor de país ignorado."
"A Patriarcal Queimada estava deserta [...] Em volta, sem obedecerem a nenhuma simetria, a simetria tão avessa ao carácter português, erguiam-se casas apalaçadas, de ar importante, e prediozinhos, modestos mas asseados, transpirando euforia. Àquela hora estavam de portas e persianas cerradas na doce lasseira do clima que, segundo reza Frei Bernardo de Brito, por muito tempo privou Ulisses da vontade de regressar a Ítaca."

- Aquilino Ribeiro, O Arcanjo Negro (*)

(* Esta é para os que só leram O Malhadinhas)

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Mariscal SC

Um fim de ano em Mariscal, SC, com a turma paranaense? Huuummm, que convite irresistível, vou meditar, é gente que trago no coração e no pensamento, e alguns vai uns anos que os não vejo. Quem sabe, quem sabe?

Aquilino no Panteao

Lê-lo cansa-me, o virtuosismo verbal é demasiado intenso para permitir uma leitura sustentada e lúcida. Os meus passos tropeçam com demasiada frequência no arame farpado de alusões que já não são as do Portugal urbanizado e asséptico que eu sempre conheci, e, mais do que suscitarem a minha curiosidade para navegar por entre elas rumo a um Portugal porventura mais idiossincrático, mais vivido e sofrido, mais respirado, mais pisado e suado, as alusões palavrosas intimidam, quase hostilizam a minha impaciência – aquela que se afadiga em gestos para prencher o vazio do pensamento.
O problema é meu, é óbvio, da minha negregada e injustificável falta de tempo. Se eu arranjasse tempo saborearia, não tenho dúvida, cada palavra, cada vírgula, cada interjeição; desfiaria em cada alçapão lexicológico o novelo da memória do país que morreu quando eu nascia, sentiria magicamente espelhada na torrente da prosa uma imagem que associo à memória de pessoas que amei e partiram, mais autenticamente livrescas e mais arreigadamente telúricas do que alguma vez o consentirá este meu pseudo-cosmopolitismo plastificado, normalizado e europeizado.
Levaram-no hoje para o Panteão, e acho justo. Isso não fará com que mais alguém o leia, e eu decerto não o lerei mais por isso; mas hoje entrou no Panteão um homem genial, no sentido de que, nas suas grandezas e misérias, foi verdadeiramente preter-natural, criou e recriou-se a si mesmo, transfigurou e fascinou por alguns decénios a imaginação daquela ínfima parte do país que sabia, e gostava, de ler. Os que o leram já o tinham colocado num certo panteão, no meu caso o das divindades cruéis que brilham tanto que se tornam luciferinas e agrestes, tão feéricas no seu talento que é difícil sustentar o olhar que se ergue para elas, mas ao mesmo tempo demasiado humanas na mescla indissolúvel de bem e de mal.
É por haver gente como ele que o país empobrece quando lê tão pouco.

Roxanne e o Red Light

A ver se a Consoror Charlotte não se escandaliza tanto com o Red Light District de Amesterdão – um tema para um grande debate!

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Talento?

O que é o talento? Deveras, Miss_Pearls, também a mim me irrita imenso ser forçado a admitir que haja talento em pessoas cujo gosto me choca – como é o caso de Amy Winehouse, sem dúvida.
Mas há algo de indefinível que avassala os sentidos e que designamos por talento artístico, assim uma força expressiva, uma espécie de apelo empático e recôndito que se transforma em respeito contemplativo no receptor. Há gente assim carismática, forte, mesmo quando se exprime pelas formas mais improváveis ou reprováveis. E a gente censura-se por gostar - mas não resiste.
É um pouco como os quadros de Barahona Possollo (ver um acima): pode achar-se o gosto discutível, que ele exagera nos tons, que sobrecarrega de ornamentos, que é demasiado flamejante no seu «realismo à Ingres», que de vez em quando resvala num estilo confessional de nudez chocante, mas... o talento transborda! Que se há-de fazer?

Philosophia perennis

Por momentos, admiti que, impressionado com a perenidade do Jansenismo, o flâneur estivesse à beira da conversão. Mas, céptico que sou, vou mais pela ideia de que, tendo passado no Marché de Port-Royal a comprar ingredientes para uma Sauce Mignonette, foi interpelado pela montra da Vrin enquanto avançava para o Marais, a comprar algumas Spécialités Yiddish (o gehakte herring e um caviar d'aubergine); em Paris, que outra filosofia pode praticar-se nos tempos que correm? E haverá outra mais perene?

Rondo por Julian Bream

A ver se me embalo para dormir, esquecendo tanta coisa deprimente: e que melhor do que um rondó?

O horror

Na TIME desta semana aparece uma foto com uma tartaruga prestes a ser cozinhada viva: uma foto tão horripilante, tão revoltante, que estou há horas a tentar exorcizá-la do meu espírito e a arrepender-me de a ter visto. Estragou-me o dia.

Logomaquia bizantina, e o tedio

Portugal é o país do mundo em que mais se discute o «modelo» da educação. Deprimente é que haja professores que de boa fé se envolvem no debate...

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

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