

O novo Ashram minimalista
Em matéria de gastar o que eu pago de impostos, uma das coisas que mais me indigna é o apoio dado aos toxicodependentes. Hoje falou-se de fornecer seringas aos presos, como profilaxia contra doenças transmissíveis.
Apareceu na Baviera uma proposta legislativa de introduzir o casamento a prazo: um prazo de sete anos, renovável automaticamente na ausência de denúncia por alguma das partes. Parece uma ideia disparatada mas talvez não o seja tanto: não havendo descendentes, o prazo era capaz de constituir um ponto focal para uma meditação séria sobre o compromisso matrimonial, que muitas vezes morre de pura inércia pela ilusão de indissolubilidade, e depois de morto é que dá origem à terrível agonia do divórcio. Sabendo que haveria essa hipótese de «repúdio sabático», e por isso uma menor possibilidade de «holdup» matrimonial (a venda do direito ao divórcio mediante contrapartidas desproporcionadas, explorando a impaciência da contraparte), talvez alguns casais tomassem mais a sério os seus votos matrimoniais – razão pela qual talvez não fosse disparatado abrir-se essa opção para o casamento civil (uma opção que caducaria com o nascimento do primeiro descendente). Para os que achassem, e achem, inaceitável a ideia, haveria sempre a opção pelo regime actual – ou mesmo, quem sabe, a opção por um regime de mais forte indissolubilidade, mais fortemente «sinalizador» da «seriedade» na aceitação da incondicionalidade do compromisso (na minha geração, os mais ardorosos defensores da incondicionalidade do compromisso e da indissolubilidade do vínculo foram os primeiros a divorciar-se; às vezes parece-me que quase só resto eu).
Eu sei que a cidade é pequena, que o centro preservado mais pequeno é, mas se eu regressasse a Delft dedicava-lhe mais do que as horas que lá estive da última vez, um pouco motivado por romagem proustiana (a busca frustrada pelo muro amarelo). Há qualquer coisa de mágico e indefinível na simplicidade de Delft, talvez o contraste dos campanários com os horizontes rasgados de canais e praças, talvez as cascatas de azul (o azul de Delft) transbordando das lojinhas de faiança, talvez o ar mais camponês e menos opulento - para quem chega de Amesterdão.
Um dos primeiros crivos da minha triagem pessoal envolve o João do Grão: há as pessoas que se sentem à vontade no João do Grão, e depois há as outras. Que se sentem à vontade, insisto, não é as que gostam, porque eu próprio sou objectivo e sei que há muito melhor em restaurantes, sejam quais forem as variáveis que incluamos na avaliação. As pessoas que se sentem à vontade no João do Grão tendem a ser pessoas que se sentem bem na sua pele, que vão a qualquer restaurante pela comida básica e sobretudo pela companhia. São pessoas sem preconceitos culinários, sem veneração por modas, sem preocupações de verem ou serem vistas por algum «beau monde» (supondo-se que tal existe abaixo dos Pirinéus). Não olham à volta nem emudecem na vaga esperança de ouvirem conversas alheias, nem se preocupam em impressionar os empregados com ostentações de destreza no manuseio de talheres ou do conhecimento dos arcanos vinícolas de aquém e além-mar.Uma música linda, linda, e passagens de um filme docinho e divertido.
Depois de algumas palavras de reprovação formuladas pela Consoror Charlotte, as autoridades holandesas resolveram imediatamente fechar 1/3 do Red Light District de Amesterdão. Se isto não é poder efectivo... até mete medo, vou passar a tratar a Consoror ainda com mais respeitinho...Agora fiquei com essa de Mariscal, Santa Catarina, atravessada: uma tentação...
"A Patriarcal Queimada estava deserta [...] Em volta, sem obedecerem a nenhuma simetria, a simetria tão avessa ao carácter português, erguiam-se casas apalaçadas, de ar importante, e prediozinhos, modestos mas asseados, transpirando euforia. Àquela hora estavam de portas e persianas cerradas na doce lasseira do clima que, segundo reza Frei Bernardo de Brito, por muito tempo privou Ulisses da vontade de regressar a Ítaca."
(* Esta é para os que só leram O Malhadinhas)Um fim de ano em Mariscal, SC, com a turma paranaense? Huuummm, que convite irresistível, vou meditar, é gente que trago no coração e no pensamento, e alguns vai uns anos que os não vejo. Quem sabe, quem sabe?
Lê-lo cansa-me, o virtuosismo verbal é demasiado intenso para permitir uma leitura sustentada e lúcida. Os meus passos tropeçam com demasiada frequência no arame farpado de alusões que já não são as do Portugal urbanizado e asséptico que eu sempre conheci, e, mais do que suscitarem a minha curiosidade para navegar por entre elas rumo a um Portugal porventura mais idiossincrático, mais vivido e sofrido, mais respirado, mais pisado e suado, as alusões palavrosas intimidam, quase hostilizam a minha impaciência – aquela que se afadiga em gestos para prencher o vazio do pensamento.A ver se a Consoror Charlotte não se escandaliza tanto com o Red Light District de Amesterdão – um tema para um grande debate!
O que é o talento? Deveras, Miss_Pearls, também a mim me irrita imenso ser forçado a admitir que haja talento em pessoas cujo gosto me choca – como é o caso de Amy Winehouse, sem dúvida.
Por momentos, admiti que, impressionado com a perenidade do Jansenismo, o flâneur estivesse à beira da conversão. Mas, céptico que sou, vou mais pela ideia de que, tendo passado no Marché de Port-Royal a comprar ingredientes para uma Sauce Mignonette, foi interpelado pela montra da Vrin enquanto avançava para o Marais, a comprar algumas Spécialités Yiddish (o gehakte herring e um caviar d'aubergine); em Paris, que outra filosofia pode praticar-se nos tempos que correm? E haverá outra mais perene?A ver se me embalo para dormir, esquecendo tanta coisa deprimente: e que melhor do que um rondó?