O novo Ashram minimalista

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Casas paralelas: Capri / Los Vilos




E ainda: LER

O Circo Triste

Ontem, enquanto arrumava uma papelada, fui deitando um canto de olho ao debate na RTP sobre o caso McCann. Mau de mais, seria difícil mais infeliz exercício de burrice, de charlatanismo e de paranóia. Um catedrático espanhol (a variante mais moderna dos vendedores de laranjas andaluzas) assegurava que a mãe é culpada... porque não sorri. O inenarrável Moita Flores (para mim um portento, visto que é a única pessoa capaz de me fazer sentir saudades de Mário Zambujal) rosnava contra a pérfida Albion, e desenterrava a múmia da «cabala». Um rústico de caspa nas pestanas asseverava que a sua abordagem era científica e que, por isso... (segurem-se)... não emitia opiniões.
Como acontece sempre que três ou quatro jericos se encontram e entram num despique de zurros, a coisa acabou com tiradas de auto-congratulação, dizendo todos que finalmente se tinha feito luz, que o debate tinha sido muito pedagógico.
Estranhamente faltou lá um representante dos comerciantes algarvios que ficam prejudicados com a saída do casal suspeito: imagina-se o número de roulotes que já se tinham instalado, os quilos de torresmo e de sandes de coirato, os litros de «mines» que vão deixar de se vender aos basbaques que iam lá em demanda do sobredito casal. Moita Flores podia ter dito uma palavrinha em favor desses comerciantes e contra os poderosos capitalistas britânicos que conseguiram agora «capturar» esse negócio lucrativo; mas (cá vem a cabala) dizem-me que ele próprio está a soldo dos comerciantes de cachorros, bifanas e miaus do distrito de Santarém, e está inibido de dar qualquer apoio à concorrência.

La Peau Douce: Truffaut no Elevador da Bica

Casas paralelas: Boza / Malaparte




segunda-feira, 10 de setembro de 2007

O que nos espera com a Nova Zelandia

A magia do jogo à mão: repare-se em especial no «bailarico» à Argentina, chega-se a ter pena...

Duas casas paralelas (a explorar)




Los Vilos, Coquimbo, Chile:
31º58'54.84'' S
71º30'09.64'' W
Isola di Capri, Campania, Itália:
40º32'48.15'' N
14º15'33.45'' E

Jean-Luc Godard et Les Pierres Roulantes 2

Os meus tempos de rugby

Bateu a saudade dos meus tempos de pilar, numa muito fugaz mas bem sucedida equipe universitária. Era duro que se fartava, eu sentia-me entre o esmagado e o pendurado dos braços dos segundas linhas nas formações ordenadas, não tinha qualquer «visão de jogo» e só sabia correr atrás da bola à espera de oportunidade (o capitão Eiró não se calava com os seus incentivos aos avançados, e eu, na minha inaptidão, sentia-me constantemente interpelado). Confesso que só me meti na alhada por pura camaradagem, soava-me a boa oportunidade de copos, de vadiagem e de algum «glamour» junto das piquenas.
Agora um Mundial, ena a distância que se percorreu desde os tempos do campo pelado do Cascais e dos queques do CDUL! É gente boa e dedicada, merecem representar o país e até me palpita que vão perder com os All Blacks por menos de 100 de diferença. De vez em quando há assim umas emoçõezinhas positivas a animar o nosso apagado patriotismo (Portugal, allez!), e a mim a lembrar-me de meninices bem rufias.

Jean-Luc Godard et Les Pierres Roulantes 1

sábado, 8 de setembro de 2007

Tudo por uns miseros oito milhoes de euros




E não há o risco de a sogra aparecer de surpresa (só se vier de helicóptero).

Ilha da Josefa, Angra dos Reis




Uma ironia post-mortem - Rorty


Reflexões póstumas de Richard Rorty: mais uma revanche sobre a Filosofia (AQUI)


sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Soiree musical - Metheny & Aznar, Dream of the Return

Uma versão fantástica para saborear repetidamente (está no meu «top three»).

Soiree musical - So danco o Samba

Esta é para acompanhar a Cronica de Agosto 19, uma das mais sentidas de sempre.

Soiree musical - Saudade de ferias: Bonfa, Gilberto & Jobim

Soiree musical - Springsteen, If I should fall behind

The Boss num hino à camaradagem... sublime!

Soiree musical - Carla Bruni e a ordinarice elegante: Brassens, Fernande

Ainda num registo muito «racy», «risqué»...

Soiree musical - Sister Rosetta Tharpe - Up Above My Head (I hear music in the air)

Farto de escrita e de conversa, o Jansenista entrega-se a um perfeito hedonismo, arrancando com um Gospel de mais «racy» precursora de Keith Richards.

Ainda a Guerra dos Livros (a/c O Reprobo)

Tem razão no que diz, todos os livros lidos mudam um pouco a vida, ao menos naquela acepção muito restrita de que ocuparam o bem escasso que é a atenção, de que roubaram o tempo – e de que depois deles somos aquelas pessoas cuja atenção foi ocupada naquele momento por aquele livro, aqueles a quem o tempo gasto naquele livro nunca mais será devolvido.
Numa acepção que adivinho mais próxima daquilo que o Confrade quis dizer, há sempre um incremento, por infinitesimal que seja, causado pela adição do que é lido: ler permite-nos a imersão em vidas e inteligências que não são a nossa, mesmo quando ambas são ficcionadas, permite-nos aditar aquilo que a experiência directa não nos dá, seja em quantidade, seja em ornamento, seja em valores.
Puxando a brasa mais à minha sardinha, há ainda algo de enriquecimento espiritual para-religioso na absorção do conteúdo de qualquer livro, e em especial dos livros do «cânone literário contamporâneo». Estamos em civilizações que, posto que secularizadas, assentam em religiões «do livro»; se não encontramos já os nossos modelos de vida em mártires e santos, assustados que estamos com as formas extremas que apresentavam os seus arquétipos de edificação, em contrapartida vamos buscar a tipos literários, ou retirados da literatura para outras formas de comunicação, esses modelos: modelos mais próximos, mais falíveis, menos exigentes e implacáveis, mais plausíveis e complacentes para connosco. Neste outro sentido, toda a leitura é uma edificação, toda ela nos (trans)forma.
Dou tudo isso de barato, mas presumi que «modificar a vida» significava algo de mais arrebatador, de bouleversant – algo como uma revolução na forma de o leitor se perceber a si próprio e avaliar as coisas em seu redor.
Já escrevi vários livros, mas nunca uma obra literária; sempre que sinto a tentação de fazê-lo assalta-me a convicção de que tudo não passaria de um plágio daquela obra que me arrebatou, de que nunca poderia fazer mais do que multiplicar-me em mais ou menos subtis, mais ou menos conscientes, paráfrases dela. Tantas vezes me disseram, na juventude, que tinha talento literário, que me convenci de que um dia essa obra literária da minha autoria haveria de aparecer, quase como uma inevitabilidade. Depois de ler Proust percebi que não, que essa minha obra literária ficaria definitivamente por escrever, e com toda a justiça, e que eu seria muito mais feliz superando, através de palavras alheias – fazendo-as falar por mim –, essa ingénua pretensão juvenil. Isso, julgo, é «modificar a vida» no sentido mais poderoso que pode associar-se ao efeito de uma leitura.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Pavarotti e Giorgia, a mais sensual das cantoras italianas

Aqui no Ashram somos fanáticos pela Giorgia, desde que há anos a vimos na TV com o grande mestre, nesta inesquecível Santa Lucia Luntana...

Ainda sobre as duvidas da Madre Teresa (a/c Jagoz)

Da leitura da Time, a única que fiz, retira-se somente a expressão de uma fé ardente, combativa, vivida, não-complacente, e é no meio dela que aparecem os rebates da dúvida. Insisto, para mim o resultado engrandece a santidade, não a diminui - há um triunfo final sobre ela própria, uma fortaleza inabalável apesar de tudo, uma genuína e muito invulgar heroicidade moral:
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Jesus has a very special love for you. As for me, the silence and the emptiness is so great that I look and do not see, listen and do not hear. to the Rev. Michael Van Der Peet, September 1979

So many unanswered questions live within me afraid to uncover them — because of the blasphemy — If there be God — please forgive me — When I try to raise my thoughts to Heaven — there is such convicting emptiness that those very thoughts return like sharp knives & hurt my very soul. — I am told God loves me — and yet the reality of darkness & coldness & emptiness is so great that nothing touches my soul. Did I make a mistake in surrendering blindly to the Call of the Sacred Heart? addressed to Jesus, at the suggestion of a confessor, undated

Please pray specially for me that I may not spoil His work and that Our Lord may show Himself — for there is such terrible darkness within me, as if everything was dead. It has been like this more or less from the time I started 'the work.' March 1953, to Ferdinand Périer

Such deep longing for God — and ... repulsed — empty — no faith — no love — no zeal. — [The saving of] Souls holds no attraction — Heaven means nothing — pray for me please that I keep smiling at Him in spite of everything. 1956, to Ferdinand Périer
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Pavarotti in excelsis

Na minha modesta opinião, era a melhor voz de tenor desde Enrico Caruso. R.I.P.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Guerra dos livros

Anda por aí um animado debate sobre os livros que não modificaram as vidas dos seus leitores, assim uma variante do não-evento, algo de que se fala porque não sucedeu quando, presume-se, era suposto ter sucedido.
Como ninguém pediu a minha opinião, vou limitar-me a ser lacónico (e deixar os outros serem áticos - o debate tem sido muito instrutivo e promissor), dando apenas o testemunho de que, depois de muitos e muitos anos de estudado cepticismo acerca dessa fabulosa virtualidade de uma leitura modificar uma vida, um dia um livro modificou profundamente, e para sempre, a minha perspectiva sobre a literatura, sobre o mundo e sobre mim mesmo, articulando com suprema inteligência muita coisa que andava inefável e inarticulada dentro de mim e no meu olhar para fora - alcançando-o de tal modo que impediu que qualquer outro livro volte alguma vez a fazê-lo, por mais entusiasmo que a sua leitura me suscite.
Que livros não modificaram a minha vida? Todos os outros.

Um milagre de bondade e de duvidas

Por toda a admiração que tive pela pessoa e pelo pontificado de João Paulo II, há coisas que não me agradaram de todo, e uma delas foi a multiplicação desenfreada das canonizações: se em vez de uma centena de santos tivermos cem mil, como poderemos obter deles uma informação sequer, quanto mais um exemplo e uma edificação?
Para mim, há uma santidade mais importante e mais inequívoca, e que não depende de nenhuma chancela, e por isso mesmo não se trivializa nem se avilta: é a demonstração evidente de virtudes heróicas, supererogatórias, na prática do bem.
Que a Madre Teresa de Calcutá tenha tido dúvidas de fé, é próprio de uma pessoa de bem para a qual se apresentam como um mistério os desígnios insondáveis da justiça que atribuímos à Divindade: este vale de lágrimas é, de um certo prisma, um sítio feio, inóspito, brutal e gritantemente injusto. Que as dúvidas a tenham acompanhado no meio da prática heróica da solicitude e da abnegação, isso só aumenta a heroicidade, e devia ser uma interpelação gritante à nossa consciência, se tivéssemos a vergonha para pensarmos seriamente no que significa vivermos num planeta que ainda deixa crianças morrerem à fome.
Tenho também as minhas reservas quanto ao que a Madre Teresa de Calcutá praticou, em especial no que respeita à sua fanática recusa de administração de cuidados paliativos aos doentes terminais (o sofrimento terminal deve ser uma questão de opção, não o fruto da insuficiência, da impotência ou do abandono, e muito menos o fruto das convicções alheias quanto ao poder paliativo da fé). Em todo o caso, se o meu testemunho valesse alguma coisa – o testemunho de um descrente, talvez temporário, na justiça de Deus, na Teodiceia –, e se dele dependesse um canonização e se desta canonização dependesse a consagração de um santo na alma das pessoas, eu poderia testemunhar que a Madre Teresa de Calcutá praticou um milagre, que foi o de ter seguido, mesmo com dúvidas, pelo caminho mais difícil e doloroso, já não necessariamente por cumprimento de uma convicção religiosa mas por simples imperativo de consciência – e tê-lo feito num mundo que recobre a sua crueldade com a alienação materialista, isto é, com a convicção de que existe alguma inevitabilidade, algum «estado natural», em haver uma parte da humanidade a viver no monturo e na sarjeta.
Há pessoas que o mundo não merece, porque são muito melhores do que ele. Acho que está nisto a pedra de toque do meu conceito secularizado de milagre e de santidade: teria sido tão mais fácil a Madre Teresa de Calcutá ter vivido na glorificação complacente do bem-estar mediano. Que ela seja canonizada, ou não, é-me totalmente indiferente, como decerto o foi, em tempo útil e enquanto ela viveu, para todos aqueles que foram directamente beneficiados pela militância da sua caridade.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

E para tirar o melhor proveito de Google Earth

Encompassing the Globe: Portugal nos séculos XVI e XVII (AQUI), com uma aplicação para Google Earth. (a foto é da Islândia, possivelmente o farol mais vertiginoso do mundo).

Rumo as estrelas

O que era excelente ficou ainda melhor: Google Earth > Google Sky VER

Claro que já percorri o Catálogo Messier, em especial a M51, a espectacular Whirlpool Galaxy...

Regresso a labuta

Obrigado pelas alusões e votos de boas-vindas e comentários à crónica estival. Já me parece que tudo aquilo se passou há anos! O caminho pela frente lembra-me esta foto mágica de Ansel Adams...

domingo, 2 de setembro de 2007

Cronica de Agosto 31 - Acabou o ocio

O poder Manchu estendendo, sobre os escombros da dinastia Ming, os seus tentáculos de intolerância através de uma meritocracia (pense-se nos exames jinshi trienais), e de súbito um intervalo de retorcida indulgência do Imperador Yongzheng face ao «lèse-majesté» de Zeng Jing: uma história verdadeira mas incrível, em Treason by the Book (consegui acabá-lo na madrugada do último dia). Compreende-se a fascinação que a História da China é capaz de exercer sobre académicos: uma elevada barreira de entrada, um custosíssimo investimento inicial, mas depois uma vida inteira de gratificações na descoberta do passado de uma sociedade minuciosamente documentada: scholarship do mais elevado nível, e contudo perfeitamente legível, neste caso convertida num verdadeiro «page turner». Fecha-se com chave de ouro este ciclo de leituras lúdicas.
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Malas, malinhas, malões. Contas fechadas, combinações e reservas para o próximo ano, estrada para lá e para cá, o trânsito maluco, o peso das malas, malinhas e malões, o último dia desmentindo a suave despreocupação do mês inteiro. Sinto mesmo assim que foram férias mesmo férias – desliguei e fiz o que me apeteceu ao ritmo que me apeteceu (descontadas as obrigações e alegrias familiares). Se me conheço, algumas das coisas mais chatas que estavam pendentes em Julho e que me teriam levado quinze dias, vou agora conseguir fazê-las em dois ou três dias, e neste embalo chego ao menos até Dezembro, Deo juvante. E até Dezembro, Senhores!, já é um campeonato completo.

Cronica de Agosto 30 - Jantar estival

A passagem de alguns «bright young things» aqui pela praia, neste penúltimo dia do mês (remarcado mais a Norte, depois de um atribulado, mas não menos intelectual, jantar com os poderosos deste mundo, mais a SUL), faz-me ter a noção clara do quanto embruteci num mês, fico invulgarmente tolhido e defensivo durante a conversa, e tenho medo de transmitir-lhes algum entusiasmo estival que eles considerem irrecuperavelmente saloio (em suma, pior do que aquele gerente do Pingo Doce que aparece nos anúncios da TV). Mal toco no vinho (e não era mau), com receio de baixar o grau de concentração com que, qual sentinela à porta de armas em noite sem luar, tento captar ruídos na gravilha que denunciem a aproximação de um inimigo – no caso, de um «bon mot» disparado à queima-roupa por qualquer dos jovens turcos, a apanhar-me de surpresa.
A conversa descamba, parece-me, na maledicência e no mexerico, e eu, que normalmente sou um ávido praticante, empenho-me na leitura das mais pequeninas letrinhas no rótulo das garrafas, e fico a cismar naquilo que, do canto do olho, julgo ser um clarão vindo do lado do mar. Como, no meu alheamento, me escapa uma pergunta que me era dirigida, respondo com um riso pesado, que passa por um subtil «no comments».
Na mesa ao lado um casal gesticula com os talheres enquanto espera ser servido, e depois de chegar a comida ela continua a acariciá-lo com a mão, incansavelmente «aux petits soins» (imagina-se debaixo da mesa o jogo de pedaleira, a fazer inveja a um organista).
Chega o momento, com a sobremesa, de contar algumas histórias não-maledicentes, logo quando a custo tinha finalmente alinhavado uma bem canalha. Os «bright young things» revelam a sua impaciência com a «rentrée» (nome detestável), cheios de projectos e sonhos. Eu também os tenho, mas estão a hibernar. Limão confitado em cama de goiabada com espuma de quê? Devem estar a brincar, este derradeiro «el bullismo» sacode-me da letargia e quase me motiva a um protesto, mas por decoro invoco o fígado (que nunca esteve tão bom) e privo-me de sobremesa.
A infinita bondade dos meus convivas evita que surjam cigarros, cigarrilhas e charutos a estragar, na 25ª hora, uma refeição que se ajustou perfeitamente ao meu bloqueio semi-letárgico (talvez a alusão ao fígado tenha sido oportuna).
Sinto-me agradecido, e impelido a contar-lhes uma anedota que li um dia antes de vir para a praia, na Correspondência Nancy Mitford / Evelyn Waugh: num baile muito animado no rescaldo da Guerra, em 1945 ou 46, um dos participantes, maravilhado com tanta cor e tanta liberdade, observa para uma senhora presente "foi por isto que nós lutámos!", ao que ela responde, surpreendida: "porquê, são todos polacos?".
Riram com gosto, e eu lá venci a insegurança – mesmo a tempo, que o mês acaba amanhã.

Cronica de Agosto 29 - Epidermico

«É pá, estás bronzeado!», lá me vão dizendo os amigos que se cruzam por mim: e eu que fiz tudo para que isso não acontecesse! Acho que um dos males do mundo resulta dessa veneração proto-reptilínea pelo «banho de Sol», pelo tisnar forçado do couro, porventura tido por um sinal de indolência e de luxo – mas para mim um sacrifício pessoal (sou muito acalorado, nasci numa latitude demasiado baixa) e um holocausto no altar de uma qualquer divindade perversa, que retribui com a degradação estética, com perda de tempo, com tédio invencível e com lesões cutâneas, nem todas benignas.
Na praia procuro a sombra a todo o preço, só saio dela muito rapidamente para alguns mergulhos na água gelada e regresso à sombra sem qualquer compulsão para «secar-me ao Sol»; quando o Sol vai a pino já me recolhi, e, para mim, uma leitura ou uma sesta debaixo de um tecto é algo de muito mais alegremente estival do que a confusão na areia escaldante, a inalar aquele pot-pourri de cheiros enjoativos dos cremes solares, a calcular as probabilidades de apanhar com uma bola nos costados ou – horror dos horrores – a ouvir, seja gente a berrar ao telemóvel as delícias do escaldão em potência (às vezes penso que o telemóvel seria dispensável, dado que se ouve de certeza no destino), seja grupos de condidadãos que, na ausência de um baralho de cartas, se consolam a discutir futebol e a pequena Maddie. Regresso no fim da tarde, quando regresso, e lá me cruzo com os alegres torresmos, rubros e luzidios, de telemóvel em punho e, se lhes sobra uma mão livre, de raquete de madeira, enquanto no peito lhes chocalha, a uma cadência charolesa, o molho de chaves pendurado de uma fitinha com dizeres publicitários.
Mesmo assim, a maldição não me poupa, e já não sei se é na areia, se é nalgumas muito pulmonares caminhadas pelos arredores – o facto é que os meus genes berberes se acendem ao mínimo reflexo de luz e lá me deixam involuntariamente tisnado. Devia haver um banco no qual se pudesse depositar o excesso de bronzeado; eu fá-lo-ia gratuitamente, a favor daquelas jovens que desesperam, prostradas ao Sol, com o tempo infinito que leva a ficarem encardidas e feíssimas.

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