O novo Ashram minimalista

sábado, 30 de junho de 2007

Derrotismo e Bom Combate: uma treplica a Je Maintiendrai


Há equívocos na linguagem escrita que se desfariam em segundos numa conversa ao vivo, temos pois que ser pacientes com eles.
Comecemos por aí:
1. A sobranceria, real ou aparente, não me incomoda habitualmente (salvo quando me surpreendo a tê-la eu mesmo). Quando disse que estava habituado a ela não me referia ao Confrade, mas somente ao facto de trabalhar há muitos anos no local com mais egos inchados por metro quadrado de todo o Portugal, sem que isso me incomode verdadeiramente.
2. Havia reacção minha a uma percepção de sobranceria (que, se era uma percepção falsa, porque era de boa fé, decerto me será perdoada); não havia nenhum argumento ad misericordiam, que não faz nada o meu género.
3. Não vi nenhum lapso na referência a São Tomás, nem meu nem seu: não presumi que o julgasse da Alta Idade Média, pelo contrário, porque o que disse foi que o exemplo da Alta Idade Média era tão fraco que era preciso ir buscar alguém da Baixa Idade Média (no momento em que Bizâncio efectivamente entrara em declínio). Quanto à "região de Ravena", depende do sentido em que estamos a falar de região; eu referia-me à «região da Europa», nomeadamente a península itálica, e fará a justiça de imaginar que eu não colocava Aquino na freguesia, distrito ou província de Ravena. Já agora, e sem aduzir sequer argumentos da presença de São Tomás em Colónia e em Paris ou do trânsito para essas cidades, lembro-lhe que, já no século XI, o abade Desidério mandou vir decoradores bizantinos para decorar a capela da Abadia do Monte Cassino – a poucos quilómetros, desta feita, de Aquino...
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Quanto às «opiniães»:
1. Insisto que desligar a Turquia da herança cultural de Bizâncio é puramente arbitrário, e seria igualmente legítimo para desligar qualquer povo do mundo dos antecedentes históricos ocorridos no seu solo.
2. A ideia de que os turcos malbarataram a herança bizantina... bom, só podemos admitir que seja verdadeira, mas rapidamente concluiremos que, não só os turcos não foram os únicos ou principais responsáveis do processo, como também nisso os turcos estão bem acompanhados em todo o mundo. Em abono da primeira asserção, reconheçamos que a maior pilhagem de que há registo na Sancta Sophia ocorreu às mãos dos cristianíssimos cavaleiros da Quarta Cruzada, em 1204 (talvez este exemplo baste, mas poderíamos ir a muitos outros). Quanto à segunda proposição, ocorre-me a Notre Dame de Paris convertida em entreposto de vinhos, ou a europeíssima Versalhes salva in extremis pela esmola yankee (isto para não falarmos do tristíssimo e fraldiqueiro exemplo da preservação do património à portuguesa). Nisso, lamento discordar, a Turquia é, no mau sentido, muito europeia!
3. Quanto ao Direito, concordo que o ponto é demasiado técnico e árido, mas curiosamente é de certo modo respondido por uma imagem que colocou no seu blog: basta a referência às «Constitutiones» para percebermos que o sincero amor à Roma ocidental, por sincero que fosse em Constantinopla, estava já orientalizado por uma paralaxe, e que o CJC, na sua intenção de ser um «espelho» da velha prática dos jurisconsultos romanos, era já antes um espelho de tradições que extravasam do espírito do Lácio, e talvez se possam sintetizar como uma repristinação de uma velha matriz helenística-macedónica de «centralismo divinizado» que o poder dos patrícios e dos «equestres» tinha contrabalançado (com alguns lapsos, decerto), ao menos enquanto durou a Roma pagã. Mas adiante, diverjamos neste ponto.
4. Quanto ao «opinativo», digamos que, procurando ser realista, procuro não ser derrotista. Há algumas coisas de que me orgulho na civilização a que pertenço, e uma delas depende da integração, nessa civilização, da tradição bizantina-turca. Detestaria que a Turquia fosse reduzida à humilhante condição de postulante à condição de «franchisado» da «marca Europa», e, como bem observa, nesse «franchising» eu não acredito. Mas detestaria ainda mais que, por um equívoco qualquer de «pertença» ou de «identidade», contribuíssemos para fazer da Turquia uma nação anti-europeia, como decerto ela já seria se não fosse a intervenção dos Jovens Turcos e de Ataturk.
5. O Confrade multiplica os exemplos de insucessos, e eu desgraçadamente estou bem ciente deles e do seu impacto, e das vítimas que envolveram. Mas como julgo que beneficio – beneficiamos – de uma «excepção de sucesso», pese embora a consciência aguda da respectiva contingência, não posso deixar de converter a minha estima pela esplêndida civilização de que os actuais turcos são, com ou sem mérito, herdeiros, num desejo de que eles partilhem também um pouco desse sucesso, possam viver vidas de relativa liberdade, de relativa dignidade – não necessariamente como «clones» de um «franchising europeu», de uma qualquer «receita ocidental», mas como membros de uma comunidade moral que, na perspectiva que desde sempre adoptei, tem um alcance universal e não pára nas fronteiras políticas.
6. Concluo asseverando que não me perturba a consciência, que partilho decerto, de que muitos turcos são indiferentes a essa moralidade, que escarnecem dela e são insensíveis à «Regra de Ouro»; nisso os turcos não são diferentes do resto do mundo, um mundo que se embrutece e se insensibiliza progressivamente aos ditames da boa consciência moral. Só que isso não pode ser, para o meu entendimento acerca do que seja o «bom combate» moral, um pretexto para desânimos, para derrotismos ou para abandonos, e bem o contrário – pois senão resta fecharmo-nos nos nossos casulos e atordoarmo-nos com ladainhas de relativismo cultural.
7. Se há alguma «superioridade» nalgum recanto do legado cultural que eu partilho, e que remotamente associaria a um lado bom de uma acepção de «Europa», é essa convicção de que existe um «bom combate», e que é possível ao menos resgatar algumas populações mais ameaçadas de caírem no mais profundo e abjecto abismo moral. Acrescento, por curiosidade, que associo sempre esta ideia do «bom combate», muito naturalmente, ao Apóstolo dos Gentios, São Paulo (e em especial à sua 2ª Carta a Timóteo 4:7), ou seja... Saulo de Tarso, um Turco.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Maimon & Maimonides


1. Parabéns à Consoror Charlotte pela tradução de Nancy Mitford. Um dos primeiros posts do Ashram, se a memória não me trai, era dedicado às irmãs Mitford. Tenho para ler, há muito, a correspondência de Nancy Mitford com Evelyn Waugh – deve ser uma delícia.
2. E bela evocação de Maimónides. Há uns anos causei a barafunda no catálogo de uma prestigiadíssima biblioteca portuguesa denunciando a confusão que faziam entre Moisés Maimónides e o iluminista Solomon Maimon – tudo catalogado como se se tratasse da mesma pessoa!


Para entrar docemente no fim de semana

Ja agora...

O segundo dos três volumes sobre Bizâncio que me fascinaram há uns anos.

Dois idolos da minha juventude: J.J. Cale & Eric Clapton

Pelouradas teimosas

A «frondosa argumentação» aqui do Ashram suscitou réplica de metralha cerrada de Je_Maintiendrai, com chumbo grosso, o que equivale a dizer com um indisfarçado tom de condescendência sobranceira (you're welcome, estou habituado).
1. O Confrade Je Maintiendrai não gosta de argumentos geográficos, entendendo que isso seria «turquificar» ardilosamente coisas que se passaram efectivamente ali, mas que pelo facto de se terem passado ali não podem ser legitimamente invocadas por quem ali habita presentemente. Retenho o argumento e usá-lo-ei da próxima vez que vir alguém manifestar orgulho em ser português ou lisboeta pela simples circunstância de ter nascido ou viver em Portugal ou em Lisboa. Tudo morre em cada geração, subentende-se (por implicação, a História é um logro ideológico).
2. Talvez haja alguma contradição no facto de, depois de se menosprezar o argumento geográfico, se chamar à colação o facto de o hinterland turco destoar do panorama urbano. Mas mais decisivo é que, se passamos à consideração da «paisagem do hinterland», então ficamos privados de dizer seja o que for acerca de «culturas nacionais» que, como todos sabemos, são quase exclusivamente moldadas pelas cidades e pelo litoral (talvez com a excepção do «terroir» francês): «Lisboa vs. paisagem», remember? A Anatólia não é Constantinopla? Isso é caso particular da Turquia?
3. Quanto ao facto de a translatio constantiniana não ter originado uma bem identificável herança bizantina – por mais de mil anos – fico ciente de que não li os mesmos livros do que Je Maintiendrai, de certeza absoluta. Idem para a «paralaxe imperial» das compilações justinianeias, e sobretudo das codificações justinianeias, uma paralaxe não detectável nas fontes que saíram do Lácio (mais republicanas no sentido arcaico, muito menos politizadas e cristianizadas).
4. A contraposição entre Bizâncio «grega» e a tão «latina» Alta Idade Média também não abona, nunca abonou, a favor desta; acho até revelador que tenha surgido o nome de S. Tomás de Aquino, um ornamento da Baixa Idade Média (não da Alta Idade Média), e um homem que nasceu numa região povoada de ícones bizantinos (pensemos em Ravena) e de imagens do Pantocrator.
5. Quanto à confusão entre «identidade cristã» e «prática religiosa cristã», não sou eu decerto que a cometo, porque senão teria que excluir-me a mim próprio daquela «identidade». O que sustentei, e sustento, é que não há uma «identidade cristã» que possa ser autonomizada e caracterizada, e menos ainda uma que possa servir de factor de exclusão (exemplo: integramos os protestantes e excluímos os ortodoxos? deixamos de fora os católicos tradicionalistas, ou os católicos Vaticano II? amnistiamos todos os cismas e heterodoxias? esquecemos as Guerras de Religião?). A menos que, em alternativa, digamos que aquela «identidade cristã» recobre tudo, e nesse caso ela perde qualquer utilidade semântica.
6. O argumento étnico, nas palavras de Je Maintiendrai (ilustradas com o exemplo do hinterland), só serve para me dar razão: não há uma «etnia turca», ponto final. Não pode excluir-se, portanto, essa «etnia» com base em argumentos «étnicos», argumentos esses que, como referi ao Confrade Combustões, têm consequências políticas já experimentadas no passado recente, e que me são profundamente repugnantes.
7. A parte final da argumentação de Je Maintiendrai, passando de lado os menos acolhedores remoques de «tansos» e «não-tansos», labora num erro, o de que alguém tenha sustentado que a Turquia tenha pretensões a ser «europeia», como se ser-se «europeu» fosse um galardão ou uma questão de mérito. Ninguém é «europeu» por mérito, e o que haja de positivo numa das facetas do legado cultural de uma parte da Europa (não sei o que seja «identidade europeia» ou fantasmagorias do género) levar-me-ia a excluir, por demérito, muitos milhões de pessoas que nasceram na Europa – e, sim, a incluir alguns turcos urbanos, litorais e cosmopolitas.
8. O que eu não aceito, já agora, é a velada sugestão de que os turcos não entram porque não merecem, ou porque não temos que os aturar, ou porque não temos que «aparar os golpes» dos projectos de Ankara. Não reconheço a nenhuma das várias Europas qualquer superioridade moral, cultural, ou outra, sobre qualquer uma das culturas turcas (excepção feita aos fundamentalistas islâmicos que por lá - e por cá - cerram fileiras).
9. Por mim, do que se trata é de saber se a Turquia vai continuar a defender os interesses de segurança da Europa, se é defendida ela própria ou se é «abandonada à sua sorte». Acredito piamente que a NATO, quer dizer, os EUA, não deixarão cair a Turquia, e é isso que me interessa. Como tenho a maior dificuldade em raciocinar de acordo com essas categorias tão sofisticadas e maquiavélicas da geoestratégia, da politologia, das fronteiras a tira-linhas e das «identidades nacionais», e me é muito mais fácil pensar em pessoas, e mais ainda as que conheço e admiro individualmente, não sei dizer muito mais nesta matéria e vou continuar – com a maior dificuldade, «tant bien que mal», metendo muita água entre galeões de maior porte – a fazer de «tanso» e a defender a «bizarra cruzada» que é a de salvar o que há a salvar dos herdeiros de uma civilização ímpar e milenar, da qual me orgulho imensamente como cidadão do mundo, e que hoje sucede ser a primeira linha de defesa contra a mais grosseira e cruenta das barbáries.
10. No fim, se não ferir muito a sofisticação argumentativa de Je Maintiendrai, eu diria que tudo se resume a adoptar um pequeno legado cristão, o da «Regra de Ouro». Se amanhã a ameaça nos chegasse primeiro à Península Ibérica, eu gostaria de saber que alguns irmãos turcos, vítimas ou não de uma «ocidentalização forçada», se empenhavam na nossa defesa por se orgulharem, também eles, de coisas que outrora se passaram neste espaço que fugazmente ocupamos em fideicomisso.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

A Ponte de Galata e a Torre de Galata

É isto que vamos deixar de fora? Porque são etnicamente não-europeus na sua maioria? Ásia aos asiáticos? Mas Confrade Combustões, concedendo gostosamente que eu não tenho razão nenhuma e o Caro Confrade a tem toda, em todo caso o leitmotiv não lhe evoca um outro de há 32 anos, o de «África para os africanos», definindo-se nesse caso como africanos aqueles que eram da raça maioritária?
Pois é, Confrade, a mim basta-me que haja um valente turco que queira defender-se da voragem islamista, ou uma mulher turca que queira fugir de um destino de servidão e humilhação às mãos da cobarde misoginia islâmica, para eu continuar a insistir que aquilo deve ser visto como Europa, defendido como Europa - no sentido de que será uma traição inqualificável não suportarmos na batalha aquela que é, para todos os efeitos, uma das primeiras linhas de defesa contra os mais perigosos dos nossos inimigos actuais.
A nossa divergência só não é maior neste ponto porque acho que, para esse efeito, basta a NATO, não é preciso a UE (se pensarmos bem, a UE pode até ser um empecilho, com as habituais trafulhices diplomáticas a disfarçarem a sua impotência militar).

A Turquia nao deve entrar? Entao Portugal deve sair...

O Confrade Combustões sustenta que a Turquia não deve entrar no negócio de secos e molhados que é a UE. Prima facie eu concordaria, visto que entendo que Portugal deve sair (lembram-se do que foi prometido ao país aquando da adesão à CEE? Tudo banha da cobra).
Dito de outro modo, concordo com as conclusões, não com as premissas. O que interessa é que a Turquia é membro da NATO, e lá está para defender o espaço europeu-mediterrânico-atlântico contra o arco terrorista que se acumula nas suas fronteiras.
Já discordo – e profundamente – das premissas «étnicas» que o Confrade Combustões convoca para excluir a Turquia, alegando que existe uma «pureza europeia» (só se for nas últimas 24 horas, não nos 2000 an0s que precedem), e que esse «núcleo nítido» é uma «identidade cristã» (no mais secularizado continente do planeta? e naquele em que os cristãos estão, há mil anos, mais profunda e sanguinolentamente divididos? ora, ora, Confrade, essa nem no Vaticano passaria sem crítica...).
Contraponho mesmo que não há Europa sem Turquia: o Direito que circula no continente europeu é um legado bizantino, uma reconstrução «oriental» da prática romana; a arte «grega» é geograficamente quase toda turca; Tróia é turca; sem a influência turca não teríamos, nem a estética veneziana, nem a russa; sem a Turquia não teria sobrevivido muita da tradição literária da patrística, sem a sua sombra tutelar muitos dos lugares sagrados do cristianismo não seriam senão uma recordação livresca.
Já uma vez sustentei aqui que deveríamos louvar o legado de Ataturk, um visionário que salvou a Turquia e a Europa, por alguns decénios, do embate directo de um medievalismo fundamentalista que teria, sem ele, florescido muito mais cedo. Haverá, por outro lado, turcos que abominam a Europa e que querem abraçar a causa islâmica radical – mas nisso não se distinguem de milhões de centro-europeus, que andam fascinados com o fanatismo islâmico; mas há muitos turcos que são mais europeus do que eu, e mais prontos a baterem-se pelos valores da Europa – valores para os quais, insisto, eles tanto contribuíram nos últimos 2500 anos.
Se a questão é económica, como o Confrade alega, ou não é, pouco me importa, porque estou convencido de que a Turquia ficaria a perder com o negócio, e aí novamente aconselharia que não entrasse, e que nós saíssemos.
O que me importa é a «turcofobia» que parece querer hoje desempenhar as tradicionais funções de afirmação de coesão interna através da identificação de párias; e nem sequer estou a alinhar num processo de intenções, porque sei muito bem que, da perspectiva dos «identitários» que queriam profissões de fé na «Constituição Europeia» (ou lá como se chamava esse aborto jurídico), também os portugueses são um país de trolhas e sopeiras, de boçais «turcos do ocidente», para serem mandados por um governo e uma presidência centro-europeus (com muita nostalgia «gibelina» de Sacros Impérios e de Batalhas de Lepanto).

Que saudades dos tempos em que o pessoal «aventaleiro» trazia para a Europa Central o amor à coisa turca! Junta-se em comprovação o «Rondo alla Turca» do «aventaleiro» (mas muito devoto) W.A. Mozart.

O que conta 2

Domina ou cala. Não te percas, dando
Aquilo que não tens.
Que vale o César que serias? Goza
Bastar-te o pouco que és.
Melhor te acolhe a vil choupana dada
Que o palácio devido.
+++
Ricardo Reis

O que conta 1

Vive sem horas.
Quanto mede pesa,
E quanto pensas mede.
Num fluido incerto nexo, como o rio
Cujas ondas são ele,
Assim teus dias vê, e se te vires
Passar, como a outrem, cala.
+++
Ricardo Reis



Um recanto bonito na minha aldeia



quarta-feira, 27 de junho de 2007

O meu lado taoista

Quando o desconcerto do Mundo me fere mais gravemente e me apetece fugir, lembro-me de uma velha dualidade que emergiu na China, seis séculos a.C., a dualidade entre Confucionismo e Taoismo – porque ela me parece resumir as vias alternativas para a nossa consumação como boas pessoas.
Confúcio privilegiou a observância de deveres sociais, Lao-Tsé a fuga a esses deveres. Um quis projectar na natureza humana o florescimento da sociabilidade, da razão, da articulação, da intersubjectividade, dos costumes; o outro contentou-se com a moralidade que pode emergir da sondagem interior, que pode ressoar da renúncia e do silenciamento, e diz-se que foi um guarda que, surpreendendo-o na fuga, lhe rogou que deixasse em legado o manifesto que é o Tao te Ching.
Retirar, não prosseguir, contemplar, não criar, desaprender a esperteza superficial e ornamental com a qual nos inebriamos no baile de máscaras; não depender, não competir. Abandonar as pressões mutiladoras das tempestades sociais, das convenções, dos interesses, buscando imitar a água que busca sempre os lugares inferiores e as profundezas inóspitas, e no entanto beneficia todas as coisas sem competir com elas – vencendo pela erosão, com a sua suavidade e doçura, todos os ângulos e asperezas das rochas, todas as crispações.
E silenciar, abreviar, usar de contenção na busca dos outros, porque nenhuma tempestade, nenhuma estridência, nenhuma desarmonia pode durar eternamente – nenhuma pode adulterar irremediavelmente a autenticidade do casulo onde habita a consciência moral.
Diante do desconcerto do mundo apetece-me reconhecer em mim a maior das riquezas taoístas – a consciência de que tenho o suficiente, a consciência de que posso partir, de que, por uma vez, sem me ocupar dos outros, posso fazer o que verdadeiramente me apetece.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Idos de Marco em Junho

Dia 26 de Junho de 2007
Este é um daqueles dias que fica indelével.
Dia 26 de Junho de 2007
Daqui a muitos anos, tantos quantos viver, lembrar-me-ei dele.
Dia 26 de Junho de 2007
Hei-de sentir sempre um arrepio
Dia 26 de Junho de 2007
Um dia de horror, um dia brutal.
Dia 26 de Junho de 2007
O dia em que tombaram um amigo e eu fui impotente para evitá-lo.
Dia 26 de Junho de 2007
À minha frente, com toda a crueza.
Dia 26 de Junho de 2007
Com toda a injustiça do mundo.
Dia 26 de Junho de 2007
Um dia para não perdoar nem esquecer.
Dia 26 de Junho de 2007
Mas um dia de dúvida e desânimo.

Berardo vs. Mega

Gratos por ter corrido com um dos mais rematados acomodatício-partidário-abrileiros que o país conheceu nas últimas décadas, o Ashram resolveu oferecer esta original obra ao Comendador, para colocá-la no Museu do Forte Cavaco - uma «instalação» vagamente evocativa da bulha que envolve os figurões (honni soit...).

Una Noche: vamos por O Reprobo a cantar em espanhol...

Berardo vs. O Jansenista


Pelo sim pelo não, também arranjei um pied-à-terre no Champ de Mars, com vista para a Tour Eiffel. Não sinto a mesma aversão pelo Comendador, mas que de vez em quando apetece fugir, isso apetece...

Berardo vs. Je Maintiendrai



Ao Confrade Je Maintiendrai: compreendendo a sua indignação, aqui no Ashram arranjámos-lhe um apartamentozinho no seizième, em Paris, mais precisamente em Chaillot. Caro Confrade, antes a louca de Chaillot do que o louco do Comendador. Bom exílio!

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Magia pura: Al Jarreau & Kurt Elling atacam Take Five

(Com um pedido de desculpas porque «razões de ordem técnica» me impediram de colocar em fundo o sempre novo Blame It on My Youth - [If I expected love when first we kissed / Blame it on my youth])

De regresso a Kurt Elling

Depois de um dia tenso, tenso, como se bebesse um copo de água fresca transporto-me para Chicago e para o Green Mill, a ouvir Kurt Elling.

domingo, 24 de junho de 2007

Momentos de qualidade

Com o passar dos anos vamos concentrando esforços na selecção de «momentos de qualidade», aquelas interrupções heróicas na rotina que nos autorizam a termos consciência do que somos, do que nos tornámos ou do que estamos a fazer. Quanto mais implacável é o «emprego do tempo» mais lutamos e melhor nos sabe a transgressão «qualitativa».
Em casos extremos, são aquelas breves epifanias contra as quais investimos, no vento matinal, nos breves passos que damos entre o estacionamento e o edifício, aquela frase que ruminamos apressadamente num corredor e nos provoca um sorriso imbecil e solitário à porta do gabinete.
Em casos privilegiados é o fim de tarde com as pessoas que amamos e longe do trabalho, o deambular cúmplice entre passeios e canteiros enquanto o trânsito se complica e algumas almas azedas perdem o tempo a discutir as taras do patrão ou as trafulhices do político.
Às vezes pergunto-me se ser privilegiado não é somente isto, ir resgatando da voragem do tempo pequenos momentos, muito luminosos e alinhados na memória, nos quais idealizo que um «eu» mais autêntico se exprimiu – uma colecção privada de triunfos contra o medo da alienação e da irrelevância, de remates positivos num diálogo interior.
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Lembro-me de uma anedota que dizia que o segredo da longevidade é casarmos com alguém muito chato: não se vive mais tempo, apenas parece mais tempo.
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Anedota à parte, eu sei que no fim é o tempo que ganha, mas creio também (sem hipostasiações sofisticadas) que no fim esse triunfo nada significa e nada inutiliza.
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Como uma folha caída à deriva pelas margens de um rio, apego-me às pequenas enseadas, aos ramos, às pedras que vão retardando o fim do curso.
É isso, os momentos de qualidade são aquelas ilusõezinhas de eternidade que partilhamos com quem amamos, aqueles instantes em que parece que a liderança de nós próprios nos foi misteriosamente devolvida, em que parece que fomos resgatados da torrente do grande rio.

Posts fundamentais: a nossa Ericeira


Uma breve evocação da Balbec portuguesa AQUI, AQUI e AQUI. Os meus parabéns às três almas gémeas!

Ainda o anonimato

O anonimato impõe limitações.
Hoje apetecia-me agradecer publicamente um elogio, também ele público, de extrema generosidade – mas não vou fazê-lo.
Agradecerei em privado; os que já me toparam por detrás do burel jansenista e sabem do que estou a falar, sabem também que não estou a ser ingrato.

Como as cerejas...

Paco de Lucia, uma coisa conduz a outra... com Bryan Adams, Have You Ever Really Loved a Woman? (de Don Juan de Marco).

Hokusai, 36 vistas do Monte Fuji




O resto AQUI.

Camaron de la Isla & Tomatito

Às vezes, quando me dá para ouvi-los, penso que vivemos em planetas diferentes, e não numa mesma península: a alma do Flamenco.

Camaron de la Isla & Paco de Lucia

Para fazer pendant com os simbolos de Combustoes

sábado, 23 de junho de 2007

Regressando a Edo (a futura Toquio, a partir de 1868)

Hiroshige's One Hundred Famous Views of Edo, a colecção completa das 118 gravuras, abundantemente explicadas, no Brooklyn_Museum.




Amazing Grace

Amazing Grace: uma versão inspirada de Aaron Neville, e tudo sobre o hino AQUI.

Poemas da Grande Guerra

In Flanders fields the poppies blow
Between the crosses, row on row,
That mark our place, and in the sky,
The larks, still bravely singing, fly,
Scarce heard amid the guns below.
+
We are the dead; short days ago
We lived, felt dawn, saw sunset glow,
Loved and were loved, and now we lie
In Flanders fields.
+
Take up our quarrel with the foe!
To you from failing hands we throw
The torch; be yours to hold it high!
If ye break faith with us who die
We shall not sleep, though poppies grow
In Flanders fields.
+++
IN FLANDERS FIELDS, John McRae.

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