O novo Ashram minimalista
quarta-feira, 30 de abril de 2008
terça-feira, 29 de abril de 2008
Liderança e Austeridade na Direita Portuguesa
Muito judiciosas observações, as de Manuel Azinhal, sobre a falta de perfil jansenista (por assim dizer) dos líderes a que a «direita» portuguesa tem pago o seu tributo (AQUI).Tem toda a razão quanto aos supostos líderes da moribunda direita pós-Império, uma remonta de fanfarrões e de psicopatas ostentativos, nenhum deles similar sequer ao paradigma da singularidade salazarista do líder "austero, grave, autoritário, trabalhador, culto, avesso à multidão" a que aludia, agora mesmo, um generoso paladino do liberalismo nativo (AQUI).
Eu acrescentaria que, com algumas raríssimas excepções, a causa reaccionária foi sempre encabeçada, entre nós, por coloridos demagogos muito mundanos, indolentes e truculentos: a tradição remonta, pelo menos, ao gangsterismo com que se aliou o miguelismo primitivo (mas esse ainda por razões atendíveis de urgência), e bate o pleno com a própria «entourage» de Salazar, em contraste com a qual a singularidade do feitio do ditador ainda se torna mais impressionante: um port-royalista decaído (pela vanglória do mando e pelos aguilhões da carne), rodeado de uma verdadeira galeria rabelaisiana. Mais não digo porque os descendentes estão vivos e conheço muitos, mas a história da venalidade e da dissolução de costumes na «Corte de Salazar», se pudesse ser escrita, dava inúmeros e suculentos volumes. De vez em quando levanta-se uma ponta do véu, mas são geralmente «outsiders» prenhes da verrina esquerdóide, e isso mata o filão à nascença. Paciência, ficará o silêncio – e talvez seja esse silêncio cúmplice que por vezes é mal interpretado como «gosto pela austeridade»...
Combustões e o Modo de Produção Asiático: Um Enigma
O Confrade Combustões, agrilhoado aos ditames da sua consciência, da «estátua interior» a que os iluministas atribuíam funções de «árbitro imparcial», resolve passar culpas para cima do «modo de produção asiático» (AQUI), aquela invenção do sincretismo marxista que partiu de uma compaginação daquilo que já os áticos diziam dos asiáticos, e que corresponde afinal a uma tradição de representação caricatural do «despotismo asiático», tão caricatural que Marx lhe atribuiu uma feição pré-primitiva (passe a expressão).A propriedade estadual e a substituição do direito pela religião são traços vincados já na imagem que do Oriente nos fornece Montesquieu (e subsidiariamente, nas referências ocultas de Marx, fornecem também Jean Bodin e François Bernier); a falta de uma aristocracia capaz de «frondes» anti-despóticas é algo já sugerido em Maquiavel, curiosamente; a prisão numa tecnologia exclusivamente agrária aparece na visão estilizada de John Stuart Mill e de Bernier; o igualitarismo servil, o isolamento das comunidades rurais, a estagnação histórica correspondem ao contributo da visão «asiática» de Hegel.
Em suma, uma caricatura compósita imortalizada pelas geniais capacidades de síntese e de rotulagem de Karl Marx – rapidamente convertida em tropo, se não em artigo de fé, por todos os que quiseram ver na distância (para não olharem para demasiado perto) as raízes do Estado Absolutista e os traços sinistros de um «biologismo organicista» que alegadamente alicerçaria o «perigo amarelo».
Lendo o Confrade Combustões suscita-se-me uma dúvida, contudo: dada a sua experiência no terreno, quererá ele sugerir que a realidade acabou numa imitação da caricatura?
segunda-feira, 28 de abril de 2008
domingo, 27 de abril de 2008
sábado, 26 de abril de 2008
As tontinas do urubus livrescos
Sempre que tenho notícia de um leilão de livros lembro-me de uma velha observação segundo a qual os bibliómanos antiquários são uma espécie de abutres que apostam na morte dos seus confrades para irem engordando os seus espólios pessoais. Esperam, pacientemente, e depois atiram-se vorazes sobre a carcaça das bibliotecas sem dono – até que chega também a vez deles. No fundo, o velho esquema das tontinas, uma mutualidade de herdeiros na qual o património vai acrescendo aos sobrevivos – gerando perversamente um Todestrieb colectivo (Freud dixit), como o descrito, com muito humor negro, em The Wrong Box, de Robert Louis Stevenson:"When Joseph Finsbury and his brother Masterman were little lads in white-frilled trousers, their father--a well-to-do merchant in Cheapside--caused them to join a small but rich tontine of seven-and-thirty lives. A thousand pounds was the entrance fee; and Joseph Finsbury can remember to this day the visit to the lawyer's, where the members of the tontine--all children like himself—were assembled together, and sat in turn in the big office chair, and signed their names with the assistance of a kind old gentleman in spectacles and Wellington boots."
A caramelada a banhos
Tem razão a Miss Pearls num comentário infra. De facto, para combater o tédio a caramelada nacional faz centenas de quilómetros em peregrinação gregária, deixando deserta a cidade. É coisa que calorosamente lhes agradeço, que uma vez por outra me desamparem a loja e se lambuzem de bronzeador lá pelos Algarves, ou que vão todos para o Nordeste brasileiro, uma excelente invenção que seria mais excelente ainda se assegurasse a fixação permanente da maior parte da caramelada que enxameia (dir-se-á, afavela) essas praias distantes. Infelizmente, ao fim de uns dias estão todos de regresso, muito tisnados, muito adéritos, com o sorriso alarve e beatífico de quem, à ida e à volta, papou aquelas inesquecíveis refeições a bordo dos «charters».sexta-feira, 25 de abril de 2008
Burp!
Os portugueses (generalização temerária) combatem o tédio com aquilo que Eça designava, com a usual ironia, como «o sentido do grandioso». Como não há incêndios de monta nas igrejas de Lisboa, têm que consolar-se com afirmações azedas e apocalípticas sobre o destino do país e sobre a incompetência dos políticos. Fazem-no como quem arrota por ter comido um pastel de bacalhau a mais; ajeitam-se na poltrona, fazem um leve esgar de alívio e sentem que, por terem falado mal de alguma coisa e terem agoirado a decadência final de tudo o que os rodeia, de certo modo esconjuraram as suas pequenas e molengas misérias burguesas. «São uns patifes», sentenciam, e sentem-se consolados com a solenidade do juízo; a maledicência é uma injecção de adrenalina na sua apatia esclerosada, fá-los sentirem-se grandes, e menos dispépticos, por repetirem para si próprios sermões que ninguém se lembrou de lhes encomendar.quinta-feira, 24 de abril de 2008
Amizade, coração e cabeça 3
Encontrei-a casualmente e não houve ressentimentos, falámos abertamente e sem equívocos. A vida implica que esqueçamos, que recoloquemos frequentemente o contador a zeros. Lembrei-me de todos os que ainda falam dela com rancor, e não posso deixar de compreendê-los; mas as recriminações cansam e a vida reclama-nos energia e disponibilidade. Para ser-se amigo não basta perdoar, é preciso esquecer.Amizade, coração e cabeça 2
Liguei-lhe para o convocar para uma reunião de velhos amigos, e senti-o esquivar-se, pedindo-me que voltasse a ligar-lhe mais perto da data. Claro que não volto a ligar, uma chamada a amigos comuns esclareceu-me, está subitamente desempregado e não tolera encontrar gente que, com mais ou menos sucesso, lá vai fazendo o seu caminho. A amizade às vezes é impotente.Uma repetição (sem exemplo)
Em homenagem a elas republico um texto que apareceu no Ashram em 22/6/2007, Les Copains d'Abord:
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(Re)vejo-os a preto e branco, crianças inodoras e emudecidas fitando atentamente uma câmara – os medos, os sonhos, as alegrias e as impiedades muito tenuemente associadas, no meu espírito, àquele turbilhão de vida congelado e eternizado, eu que quase juraria ouvir ainda o eco chilreante na topografia daqueles sorrisos imaculados.
Quando nos reencontrámos muitos traziam essas fotografias, como se quisessem comprovar as diferenças; eu dispensei isso, sabendo de antemão o impacto que causaria a profunda metamorfose dessas crisálidas casualmente agregadas sobre a gravilha ensopada das manhãs de Outono, agora, tantos anos volvidos, adensadas com o peso de trajectórias pessoais muito alongadas e centrífugas, despida a bata e o uniforme, adquiridos os vícios, as manias e as máscaras, sulcados os primeiros vales naquela topografia facial.
Lembro-me do espanto que muitos manifestaram de reencontrarem o seu colega «marrão», uma criança tímida e esquiva, transformado num homenzarrão de voz cava e barba rija, muito físico tanto na sua ironia truculenta como no seu afecto, muito ágil nos seus passos, inesperadamente irreverente.
Eu espantei-me também com muitos, mas mais pelos seus destinos do que pelas aparências – como algumas promessas seguras tinham sido relegadas pela Roda da Fortuna, e outros tinham vencido contra a improbabilidade (dois deles estão entre os cem mais ricos do país); como tantos tinham acabado comunistas (triste geração, a minha) e uma mão-cheia ficara com os miolos «torrados» com a droga; como tantos tinham feito das suas vidas experiências muito significativas e interessantes – cientistas, músicos, pintores, líderes cívicos – sem soçobrarem ignobilmente na servidão do vil metal; como em quase todos tinha ficado viva a chama da excelência e da superação, uma chama que se ateia na infância – ou nunca.
Lembrei-me deles também porque o Sol regressou, e porque quando os vejo nas fotos a preto e branco sei imediatamente que o que lhes falta é o calor do Sol, aquele calor que ainda é mais tórrido quando se é criança e se passa horas a fio em corridas sem destino sobre a gravilha ensopada.
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Eu espantei-me também com muitos, mas mais pelos seus destinos do que pelas aparências – como algumas promessas seguras tinham sido relegadas pela Roda da Fortuna, e outros tinham vencido contra a improbabilidade (dois deles estão entre os cem mais ricos do país); como tantos tinham acabado comunistas (triste geração, a minha) e uma mão-cheia ficara com os miolos «torrados» com a droga; como tantos tinham feito das suas vidas experiências muito significativas e interessantes – cientistas, músicos, pintores, líderes cívicos – sem soçobrarem ignobilmente na servidão do vil metal; como em quase todos tinha ficado viva a chama da excelência e da superação, uma chama que se ateia na infância – ou nunca.
Lembrei-me deles também porque o Sol regressou, e porque quando os vejo nas fotos a preto e branco sei imediatamente que o que lhes falta é o calor do Sol, aquele calor que ainda é mais tórrido quando se é criança e se passa horas a fio em corridas sem destino sobre a gravilha ensopada.
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quarta-feira, 23 de abril de 2008
segunda-feira, 21 de abril de 2008
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