O novo Ashram minimalista

domingo, 30 de março de 2008

Como os livros acabam

Lembro-me de, muito novinho, ter pegado no último volume de uma obra extensa na biblioteca do meu pai e, começando pelas últimas páginas – como se se tratasse de descobrir o nome do assassino no final de um livro policial –, ter topado com uma gravura de um copista e, por sobre ela, um EXPLICIT seguido de umas fórmulas, de umas invocações e de uns desabafos sob a epígrafe comum, «cólofon».
O livro estava encadernado de fresco, e tinha um cheiro intenso que se perdeu no meu olfacto atordoado por tantos anos de paperbacks. Intrigado com a expressão e com o carácter auto-referencial das fórmulas por ela designadas, pus-me a imaginar uma espécie de rebeldia final do copista, que pigarreia no término do trabalho para assinalar a sua presença, a mesma que a própria objectividade da cópia reclama que se anule.
«Sou eu, estou aqui!», visualizei-o assomando, como um marcador, entre a penúltima e a última folha, «este livro não se fez a ele mesmo, e o autor deve-me umas moedas pelo labor beneditino que conduz a este parto!». Também me lembrei de que o tipógrafo estava a fazer o mesmo: «usámos Bembo no texto, e Gill Sans Serif nos títulos, e a nossa colecção original de dingbats»; só o encadernador chegava tarde de mais, embora num canto da contracapa aparecesse a lápis a pequena fortuna em escudos que cobrara ao meu pai.
O «cólofon» era omisso quanto à acidez do papel, e em parte nenhuma apareciam as indicações técnicas que hoje abrem os livros. Peguei no livro há pouco tempo e o aspecto do papel era surpreendentemente fresco ainda, se bem que existisse uma ligeiríssima margem amarelecida nas páginas que ainda não tinham sido abertas (o que eu gostava de abrir à faca as páginas de um livro!). Achei muito prosaicas as fórmulas do cólofon e estranhei que elas me tivessem sugerido tanta coisa outrora. O livro, como é evidente, não mudou, eu é que mudei e deixei que na minha imaginação os livros se banalizassem, e que, de certo modo, na pressão das leituras cada página passasse a ocupar na minha atenção o espaço que em jovem era ocupado por cada frase, por cada linha. Talvez o próprio livro tenha mudado, perdendo um pouco o seu lado artesanal, o seu alicerce beneditino, em favor de uma torrente de escrita que tende a ser vertida directamente, em alto débito e sem provas tipográficas, de computadores. Desafiei o meu olfacto atordoado e levei o livro ao nariz, mas já não cheirava a nada. O encanto tinha-se perdido, o que corresponde a uma outra forma, mais grave porque mais subjectiva e definitiva, de os livros acabarem.

Upojenie (finalmente no YouTube!)

Pat Metheny interpreta um standard dos fifties (muito invulgar)

III: novidades gráficas?

E começo os primeiros ensaios de remodelação (tipo)gráfica do Ashram...

II: novidades gráficas?





Regresso a um velho fascínio tipográfico pela Kelmscott Press...

I: novidades gráficas?


sexta-feira, 28 de março de 2008

Sailing to Byzantium


Yeats debate-se com o «climaterium» de uma vida de inspiração e representa-se Bizâncio como Sião, a Irlanda como Babilónia.
Retenho do poema a minha própria visão acrisolada de Bizâncio, uma cidade imaginária, e delicio-me a ver esta inesperada «masterclass»: AQUI
(J.S. Sargent em Constantinopla. Clicar para ampliar)

Inside 9/11

O melhor documentário sobre o 11 de Setembro. Parte_2, Parte_3, Parte_4

Um primor de malícia

O Bibliotecário de Babel «desconstrói» os talentos literários de Teixeira Pinto. Eheheheheheh....

quinta-feira, 27 de março de 2008

No-fault divorce? Uma ideia perversa se houver filhos (menores), boa se não houver

1. Qualquer pessoa que conheça os dramas reais e encenados que tradicionalmente acompanharam os divórcios litigiosos – tantas vezes com a mobilização de amigos e familiares, a mentirem descaradamente em apoio de miríficas alegações de «culpa» de um dos cônjuges, e não menos fantasiosos protestos de «inocência» do outro – só pode acolher favoravelmente as propostas no sentido de ao menos se abrandar as exigências desse pressuposto da «culpa». Para desgraça, já basta a própria situação do divórcio, não é preciso subir a parada e convertê-lo no pretexto para uma guerra civil com danos colaterais tão extensos.
2. Eu só não admitiria um abrandamento de requisitos em casos em que houvesse filhos menores, pela simples razão de que eles são sempre vítimas, em qualquer forma de divórcio.
3. Quanto ao resto, tudo está em os tribunais acautelarem devidamente os interesses patrimoniais dos divorciados, evitando que o «divórcio sem culpa» se converta num pretexto para o abandono de um cônjuge economicamente dependente ou, inversamente, para o proverbial «golpe do baú». No fim, o resultado pode ser exactamente o mesmo que hoje se alcança – em puros termos práticos.
4. Não havendo filhos menores – insisto – quando se chega ao divórcio já há duas vítimas, e nada justifica submetê-las ao circo e à humilhação da busca de «culpas» na mais cruel devassa da sua intimidade que conceber se pode, por sobre as ruínas de um amor que se presume ter existido. É uma expiação inútil, selvática, ferina.
5. Já sei que todo o moralão que se preza lamentará mais esta evolução: há sempre quem ache que o casamento é para ser mantido a qualquer preço, para lá de todos os limiares de crueldade e de violência, para lá de todas as práticas de infidelidade e de aviltamento da instituição; e muitos ficam assustados com o direito potestativo que o «no-fault divorce» vem colocar nas mãos de qualquer dos cônjuges, libertando cada um deles da inqualificável chantagem que, a pretexto da ausência de «culpa» real, o outro cônjuge pode ainda hoje exercer.
6. Por mim, detestaria ver essa modalidade que se anuncia ser aplicada a casais com filhos menores, e nunca posso deixar de lamentar profundamente o que leva as pessoas a divorciarem-se. Mas como não gosto de moralidades estatísticas e cosméticas e já assisti demasiadas vezes ao lado podre da questão – por mim chega dessa palhaçada do «cônjuge culpado».

A Grandeza das Coisas Simples: Clapton interpreta Danny Boy

quarta-feira, 26 de março de 2008

Histórias de Heroísmo

Alguns dos galardoados com a Victoria Cross (que viveram para contar) AQUI

Os italianos são (ainda) mais javardolas do que nós

Os segredos da Mano Cornuta: AQUI

Hank Williams

LER

Mercedes: amor com amor se paga...

Uma excursão visual ímpar

1) No Cockpit de um A 380 AQUI
2) Num Caveau AQUI
3) Na Cathédrale Sainte Marie d'Auch AQUI: um deslumbramento!

terça-feira, 25 de março de 2008

Eloísa Rebelo Grifo Pires

Quando tudo parece horrível à nossa volta, aparecem estas clareiras de suprema realização intelectual.
Vinda da Escola Secundária Domingos Sequeira, em Leiria, a heroína do momento, Eloísa Pires. Excelente!

Jean Sablon, o Bing Crosby francês

Leitura esperada

Valeu a pena esperar pela edição de bolso. Lidas as primeiras 50 páginas - e o deslumbramento com a maestria do francês (sempre de admirar num não-nativo). A ver se arranjo tempo e fôlego para avançar a bom ritmo.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Insignificâncias e monomanias

O estimado Exactor lançou-me um repto sobre seis insignificâncias.
Um repto difícil, porque só me lembro de coisas que significam algo, e insignificância deve ser precisamente aquilo de que não me lembro. Tentemos mesmo assim:
1. Quando gosto mesmo de uma palavra, tenho tendência a repeti-la incessantemente, e tenho que fazer um esforço para eliminá-la. O mesmo para o trautear mental de algumas musiquinhas.
2. Quando pressinto que uma carta me vai incomodar, deixo-a vários dias por abrir.
3. Ligo o ar condicionado no carro até no pino do Inverno (ia dizer outra vez «mesmo»).
4. Quando uma frase não sai, ensaio variantes em voz alta.
5. Às vezes não consigo designar o «ouro» por «ôro», à alfacinha, e sai-me ãúro (alguma costela flaviense).
6. Não consigo confessar as minhas superstições – salvo esta de achar perigosa uma tal confissão.

Leituras: A consolação da Ética

Quando quero uns instantes de puro gozo meditativo, vou para «Ethics Updates»:

Leituras: Le Histoire de Le Pew

Uma perambulação erudita pelos hábitos balneários. LER

Leituras: viva o escapismo!

Porque é que os noticiários nos tornam neuróticos? A litania pessimista vende! LER

Blackboard Jungle

Soube com atraso de alguns dias do episódio de desacato liceal envolvendo uma professora, uma aluna e um telemóvel. Dei uma vista de olhos pelos comentários ao caso e concordei com quase todos – se há caso em que o sentimento de repulsa e o diagnóstico são fáceis, é este.
Contudo, atrevo-me a destoar da maioria com as seguintes notas:
- faz-me pena a figura da docente: mostra que não tem qualquer vocação para a função, ou que então foi momentaneamente acometida de uma quebra de lucidez: descer ao nível da aluna é absolutamente impensável, e mais ainda pretender medir forças com a aluna; a força, como é óbvio, não remedeia a falta de autoridade.
- a aluna entra em histeria, e por isso vejo com dificuldade que possa ter-se por inteiramente imputável, ao menos a partir do momento em que a docente admite entrar no confronto físico; é indesculpável o que fez, mas não comparemos a responsabilidade dela com a responsabilidade da docente no controle da situação.
- acho revoltante a apatia e o gozo alarve dos coleguinhas, que esses sim parecem deliciar-se numa perspectiva de impunidade verdadeiramente crapulosa.
- não vejo que o episódio seja especialmente revelador da degradação a que chegou o ensino secundário – uma degradação que é real e palpável, por inúmeros outros motivos. É que andei no ensino secundário «in illo tempore» e já havia episódios similares de «blackboard jungle», mesmo com a perspectiva de sanções infinitamente mais pesadas do que as que actualmente vigoram.
- no meu tempo já havia perigosíssimos cadastrados escolares à espreita do mais leve indício de fraqueza de um qualquer docente, e nenhuma perspectiva de perda de ano ou de expulsão os comovia ou demovia: lembro-me de uns brutamontes a vangloriarem-se, no pátio do Pedro Nunes, de terem cortado à tesourada a gravata do Prof . de Desenho, e lembro-me do ambiente de festividade geral quando apareceu um Prof. de Canto Coral que tinha, como dizer, a voz aflautada (aliás, um excelente músico, de reputação internacional).
- mas no meu tempo havia docentes que nem o mais empedernido e tatuado «freak» se atrevia a encarar, quanto mais a desrespeitar; com eles só havia cordeirinhos mansos – e era e é desses «professores-feras» que, muitas décadas passadas, continuamos a falar com orgulho, agora que os «freaks» envelheceram e já ganharam juízo. Só desses Professores é que interessa falar.
À medida que o tempo passa são cada vez mais frequentes os momentos em que, parando para meditar, lamento profundamente ter nascido neste país onde as instituições tudo nivelam pela mediocridade, onde o mérito não é ignorado apenas porque é escarnecido, onde a brutalização e a ignorância vão conquistando terreno irreversível.
Mas uma das poucas coisas que me faz não desesperar é que, no silencioso cumprimento dos seus deveres, com uma seriedade que não consente alaridos, há neste momento pais que estão a incutir nas suas crianças o respeito por alguns valores imemoriais; há neste momento crianças e jovens que ocupam o seu tempo numa demanda ascencional de excelência; há neste momento professores de genuína vocação que, contra ventos e marés, contra a transigência sistemática de pedagogos, contra a pressão demagógica de políticos e contra a chantagem dos cadastrados escolares e das famílias que os geram e glorificam – há neste momento professores que não abandonaram o seu posto e não se demitem de formar o país do futuro.

Et in Arcadia ego

A redenção está à vista, penitentes!
Charlotte começa a admitir críticas a James Joyce...
Pois é, estimada Consoror, a linha que vai do atonal-dodecafónico para o bestial-cacofónico é demasiado ténue, mais vale mantermos as distâncias esconjuradoras de um cravo bem temperado, ou de uma sonata.
Por outras palavras, mais vale o fio ténue da voz de um católico reaccionário que medita sobre as ruínas do seu próprio passado e da sua perdição do que a entropia sinfónica de manifestações fisiológicas à busca de ânimo...
Mais um pouco de Evelyn Waugh e veremos, já não a áspide de Guercino irrompendo na Arcádia, mas as próprias margens viçosas do Jordão. Perseverança!

Terra, não cubras o meu sangue! (Job)


Concordo com o Confrade Combustões que o enésimo pedido de desculpas pela barbárie nazi é um excesso simbólico – que fragiliza a legitimidade do estado de Israel, que toda ela pode fundar-se numa ordem inteiramente diversa de considerações. Só não concordo com um argumento que utiliza a rematar as suas observações: há um dever de memória, pois sem ele toda a historiografia seria um exercício ocioso e lúdico, um «tricot» para arquivistas. Lembro ao Confrade a emoção com que o vi evocar o centenário do Regicídio. Não é tempo de acabar com a memória do Holocausto: nem quando passar o centenário. Colectivamente, nenhum de nós tem qualquer outra identidade do que aquela que lhe é fornecida pela História. Devemos evitar distorções, decerto, mas não podemos ignorar aqueles que são, com ou sem distorção, os pontos mais proeminentes e marcantes do passado.

Origem das Espécies

Em Moçambique, em busca dos vestígios de Port-Royal... LER

Para a biblioteca de Miss Pearls: Isaac Walton & alii


quinta-feira, 20 de março de 2008

Just a Song Before I Go

Uns dias sem computador e sem Internet

Nostalgia 2

O passado é um conjunto de interpelações do presente (o passado não existe)

Nostalgia 1

O contraste tecnológico alonga a distância que a memória percorre (que mundo era este de que mal me lembro?)

E acordar assim?

quarta-feira, 19 de março de 2008

Ser pai é crescer outra vez

Song for My Father (Horace Silver)

Sugestões avulsas 6

Os americanos judeus - AQUI

Sugestões avulsas 5

Óculos de Antanho - AQUI

Sugestões avulsas 4

Fleurs du Mal - AQUI

Sugestões avulsas 3

Operation Crossroads: de como se passou a falar de «bikini» - AQUI

Sugestões avulsas 2

Nem tudo era pimenta: Portugal-Índia e o intercâmbio artístico - AQUI

Sugestões avulsas 1

Cansado de convidar amigos que só querem ver TV? Jogos Sociais é a solução! AQUI
Favorito: Diaper that Baby - AQUI

Não falta muito para a Primavera

Il faut savoir

A ler brevemente: as raízes judaicas

segunda-feira, 17 de março de 2008

Tipping point

Petisca-se uns camarões no Costa do Sol, enquanto o olhar se alonga para as ilhas: as Chefinas, Macaneta, na linha do horizonte a mais distante Inhaca. O meu interlocutor explica que o seu negócio depende crucialmente da manutenção da corrupção ao nível actual, pois sem ela a maior parte dos seus clientes não poderiam pagar os serviços. Há muito que se reconheceu que essas formas paralelas de «economia informal» são a escapatória a regimes oficiais absurdos, e são muitas vezes o único contrapeso de eficiência à canga que os delírios comunistas tentaram, e em larga medida conseguiram, impor à vida do homem comum.
Ultrapassou-se o «tipping point» para lá do qual vence a massa crítica da corrupção, e ninguém consegue resistir ao uso dominante. E não é fácil vencer a tendência: outro regime de «moralização» multiplicaria as vítimas, apenas, e talvez não conseguisse mudar nada. Vão ser precisas muitas gerações para se ultrapassar esse círculo infernal.

Uma liçãozinha de Política

Casamentos em Março

Época de casamentos em Lourenço Marques. Desfiles de jipes de muitas cores e feitios, os noivos sempre bizarramente solenes, empertigados, silenciosos, algumas noivas elegantíssimas nos seus longos vestidos imaculados, sob um Sol impiedoso. Passeiam-se nos relvados do hotel em intermináveis sessões fotográficas e depois lá prosseguem na procissão de jipes (no final da cauda algumas carrinhas de caixa aberta levam o remanescente dos convidados, presumo que aqueles que não têm carro próprio). Tudo casamentos católicos, dizem-me, e com baixíssimas taxas de divórcio. A pobreza envergonhada, e interrompida pelo espaço da cerimónia, gera a sua própria virtude – ou talvez se lhe devesse chamar necessidade, não virtude. Em todo o caso, algo de aparentemente mais sério do que as frivolidades paganizadas em que estão a converter-se os casamentos urbanos entre nós.

Uma liçãozinha de Finanças

Ainda tens o telefone dele?

Sai-se do Hotel e de ambos os lados, tanto nas encostas do Sommershield como nas do Polana, multiplicam-se as mansões opulentas – mas metade estão inacabadas.
Ministros que saíram do governo antes de conseguirem acabar as casas, comenta um dos meus anfitriões. Num país com um fosso abismal entre quem tem quase tudo e quem não tem quase nada (ainda que não ao nível obsceno de Angola), cair em desgraça no governo pode significar um trambolhão para um centésimo, ou mais, do rendimento anterior.
Há uns dias mudaram alguns ministros, e um deles já lá tinha estado – continua o meu anfitrião –; conheço-o pessoalmente, e nestas últimas semanas já recebi dúzias de telefonemas de pessoal a perguntar-me «olha lá, ainda tens o telefone dele?». Tinham-no deitado fora da outra vez que ele saiu do ministério. Poucas horas depois da demissão até o e-mail lhe tinham retirado!
Imagino que a mansão que tem andaimes novos deve ser a do ministro regressado. Um pouco adiante um medonho painel de cerâmica evoca o enfermeiro Machel, o autor desta crua roda da fortuna com que se emociona a elite cleptocrática que «descolonizou» Moçambique.

E dez horas e meia de inferno...


Uma refeição a ver navios...


sexta-feira, 14 de março de 2008

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