O novo Ashram minimalista

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Cronica de Agosto 8 - Espreitadela em wireless, Miss Pearls & Combustoes

Uma ligação em wireless, algo tosca, permite-me verificar algumas novidades na vizinhança. O aniversário de Miss Pearls e de Combustões é o mais digno de nota (parabéns a ambos!), embora seja algo preocupante a hipótese de o Confrade de Combustões emigrar para um país tão misterioso e recôndito que lá não existe Internet nem a possibilidade de aceder ao seu blogue. Eu, se tivesse que emigrar, faria questão de tentar manter alguns hábitos de origem, e o hábito da conversação civilizada com um grupo selecto (de que eu sou a excepção selvagem, evidentemente) seria um deles; mais, seria talvez mesmo um factor adicional de motivação – dar notícias, comunicar algumas experiências. É um desafio que deixo ao Confrade, mais uma vez sublinhando, como o fiz num outro momento, que a sua retirada beneficiará manifestamente outros blogues que, como o Ashram, ganham em não ter pela vizinhança concorrência tão reluzente...
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Mais a sério, lembro-me de muitos momentos de alegre comunhão de experiências exóticas e viagens distantes, precisamente em Combustões.
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Há coisas que são ainda mais bonitas depois de ornamentadas pela imaginação: umas são as coisas esperadas, antes de as experimentarmos; outras, as coisas contadas, depois de as depurarmos do que tenham de doloroso ou vulgar, para as podermos servir cheias de beleza e de alegria aos amigos. Acho que não há forma mais sublime e socialmente relevante de Arte do que essa, a Arte de recriarmos e lapidarmos para os outros (e, através dos outros, para nós) a forma bruta através da qual experimentamos a vida.

Cronica de Agosto 7 - Vitam impendere vero, Juvenal, Procopio

Dedicar a vida à [demanda da] verdade. Uma máxima de Juvenal que já animou muita gente honesta ao longo dos tempos. Lembrei-me dela por causa de um honradíssimo, prestigiadíssimo, devotíssimo e remuneradíssimo Presidente de um Banco (a gente conhece-se e não se grama...) que veio declarar, solene, na RTP1, que havia uma proposta sua que tinha que ser aceite senão demitia-se, porque é um homem de palavra, porque as pessoas confiam nele e ele não trai a confiança, blá, blá, blá, blá. Poucas horas depois retira a proposta «vital» e – obviamente – não se demite. As pessoas que confiaram fizeram bem em confiar, afinal é ainda somente a segunda vaga de «trouxas» (e não param de nascer mais trouxas, como o constatava o cómico W.C. Fields).
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Você já ouviu falar dos cus-de-Judas? Eu havia de tê-los tatuados como um mapa no peito se o tio Tibúrcio (grande homem, impecavelmente engomado, o crachá do Aeroclube na lapela, o peito bombeado pelas memórias de mil refregas com as cabeleireiras de Benfica) não me tivesse advertido contra essas mariquices das tatuagens (não há-de ser afilhado meu que há-de dar em larilas com essas pinturas, dizia, guardando o pente no bolso). Sai um moscatel para a Senhora, e para mim um gin tónico, ó Juvenal!
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A cena passava-se no Procópio, há gente para a qual um Juvenal que serve bebidas e salgadinhos chega e sobra. Batem no peito, são muito anti-relativistas, muito bentinhos da Rua dos Fanqueiros, mas da verdade retiveram somente a sua dimensão mais abjectamente dissoluta, recoberta da habitual cobardia moraleira e fanfarrona.
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Tibúrcio, um torniquete na veia do esquecimento, uma bala tracejante nas noites da terra quente. Não é nos cus-de-Judas que se venera este tipo de coisas? Os viajantes que demandavam o Preste João relatavam que no Nilo os crocodilos choravam depois de devorarem cristãos, e que por sua vez os cristãos da Abissínia, entre muitas outras bizarrias, tinham a de erguerem altares a Pôncio Pilatos.

Cronica de Agosto 6 - Jean-Jacques Rousseau revisitado

Ando embrenhado na leitura de Leo Damrosch, Jean-Jacques Rousseau. Restless Genius (2005), a mais conseguida biografia de Rousseau que li até hoje (melhor do que Maurice Cranston e do que Raymond Trousson – e ao nível de subtileza interpretativa de Starobinski).
Duas curiosidades (entre milhares de outras):
a) em 1745, depois da vitória francesa em Fontenoy, foi encomendado a Rousseau que reescrevesse o libretto e a música de La Princesse de Navarre, ópera agora rebaptizada como Les Fêtes de Ramire. Foi um fracasso total, o que depõe contra as obras colectivas – neste caso, a adição de Rousseau aos autores originais, nada menos do que Rameau... e Voltaire!
b) pela mesma altura, e antes de qualquer deles se tornar famoso, um grupo de quatro amigos jantava semanalmente no Panier Fleuri, em Paris: Rousseau, Diderot, Condillac e d'Alembert. Foi nesses jantares que começou a «cozinhar-se» o projecto da Encyclopédie. Jantares luminosos!

Cronica de Agosto 5 - De Albion para o mundo, tribulacoes em Cantabrigia

Aqui vão umas pepitas reluzentes, garimpadas na mais vitriólica farsa sobre o establishment académico britânico, Porterhouse Blue, de Tom Sharpe.
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Discutindo as propostas de um Master reformista recém-chegado ao bastião mais tradicionalista de Cambridge, o ficcionado Porterhouse College, e propondo uma estratégia de "amiable inertia":
"There's nothing like prevarication", the Dean agreed, "I have yet to meet a liberal who can withstand the attrition of prolonged discussion of the inessentials" (p. 16)
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Um general militarão, antigo aluno de Porterhouse, desabafa:
"Scholars? That's half the trouble with the world today, scholarship. Too many damned intellectuals about who think they know how things should be done. Academics, bah! Can't win a war with thinking. Can't run a factory on thought. It needs guts and sweat and sheer hard work. If I had my way I'd kick every damned scholar out of the College and put in some athletes to run the place properly. Anyone would think Varsity was some sort of school. In my day we didn't come up to learn anything, we came up to forget all the damned silly things we'd had pumped into us at school." (pp. 66-67)
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O Dean de Porterhouse diagnostica que o mal da Universidade reside na "American Infection":
"Doctoratitis. The assumption that a man's worth is to be measured by mere diligence. A man spends three years minutely documenting documents if you understand my meaning, anyway, investigating issues that have escaped the notice of more discriminating scholars, and emerges from the ordeal with a doctorate which is supposed to be proof of his intelligence. Than which I can think of nothing more stupid. But there you are, that's the modern fashion. It comes, I suppose, from a literal acceptance of the ridiculous dictum that genius is an infinite capacity for taking pains." (p. 214)
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Li o segundo volume, Grantchester Grind, mas não está à altura do primeiro: mesmo a farsa tem limites de verosimilhança e de gosto, na minha modesta opinião...

Cronica de Agosto 4 – Ajustes de contas

Esmagadora a alusão de J.H. Saraiva, nas suas Memórias, a Jacinto do Prado Coelho. Comove-se imensamente o público português com «caças às bruxas», reais ou ficcionadas, e com o McCarthismo e outras angústias hollywoodescas, ignorando que por cá a história da infâmia, da delação, do golpe rasteiro, do prémio à subserviência, também tem barbas, e tem atingido, no passado e no presente, extremos requintes de malvadez e perversidade (a denúncia para se obter vantagem na disputa de uma vaga é de facto o cúmulo). E já me ia esquecendo das primorosas alusões de J.H. Saraiva, há umas semanas, à solidez moral daquele alegre e fresco diplomata que foi o Dr. Sá Machado. Eu bem me parecia, sempre achei, estava-lhe na cara, na pose, na entoação, faltava-me um facto comprovativo, ele aí está...

Cronica de Agosto 3 - O Imperio do Crisantemo

Uma leitura demasiado tempo adiada e agora cumprida: Herbert P. Bix, Hirohito and the Making of Modern Japan. Fica-se a saber tudo sobre a figura, sobre a entourage e sobre as instituições políticas do Japão do século XX. Destaque para o carácter artificial e artificioso como o Imperador Meiji (avô do retratado) reconstruiu uma pseudo-tradição militarista e inventou uma linhagem imperial-expansionista, gerando um tradicionalismo mitificado e romântico (para não ficar atrás da tendência europeia-atlântica que professou imitar), tornando o impressionável neto uma presa fácil de uma certa retórica radical que explica os delírios, as brutalidades e os desastres subsequentes. Muitos factos curiosos: por exemplo, que Hirohito teve sempre, no seu gabinete, três bustos venerados, de Napoleão, de Lincoln e de Darwin (p. 60).

Cronica de Agosto 2 - Inedito, um concurso justo

Alguns professores de liceu, ou os sindicalistas por eles, andam indignados com o carácter retroactivo dos factores que pesaram no concurso para «professor titular» (a escolha arbitrária do desempenho nos últimos sete anos). Por uma vez acho que o processo foi inteiramente justo, tudo estaria estragado se a selecção se fizesse com base em critérios previamente anunciados: assim foram apanhados de surpresa, e em flagrante, os baldas do costume, e são premiados aqueles que, sem qualquer cálculo carreirista, se limitaram a dar o máximo por brio profissional. Quem desconhece que no ensino público se entrecruzam o pior e o melhor em termos de profissionalismo?

Cronica de Agosto 1 - Livro de Economia, precisa-se

Surpreendido com o pacto entre PS e BE (o mesmo irredutível BE que acusava os outros de conluios com o PS), não posso senão ser conduzido a reforçar a minha convicção de que se trata de uns vendidos, e por um mísero pires de lentilhas – até aqui, nada de novo. Grave, grave, é que quando ainda estamos a recuperar (mal) dos efeitos do congelamento das rendas ditado há muitos decénios em Lisboa e Porto, aparecem estas testas ebúrneas a alicerçarem o seu pacto numa nova forma de restrição administrativa de preços no mercado da habitação. Ninguém, naquela gente, conhece leis básicas de economia? Ou é tudo abandonado à demagogia? Pobre Lisboa, mais dois anos de burrice em cima dela!

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Ultima

Até Setembro! Não se divirtam demasiado na minha ausência (ou por causa dela)!

Penultima

Traje de segurança no Verão. No Inverno, permite estar sempre à tona de água sem sequer virar a casaca.

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